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Sprint Alentejano

Sempre que tenho de me deslocar ao Alentejo, faço-o com enorme prazer. Se o objectivo da viagem for o de participar num evento de orientação, então essa satisfação redobra. Se acrescer o pormenor da prova ser organizada pelo GD4Caminhos, a expectativa de uns dias memoráveis sobe em flecha. Se a competição for o Campeonato Nacional de Sprint, ora aí temos o “espécie” todo vaidoso, por se poder imiscuir com os puros orientistas. Mas isto não fica por aqui. E se o cenário da prova for o Norte Alentejano, na região de Castelo de Vide? Bem, estaremos perante um fim-de-semana de carácter excepcional, onde posso aliar a prática desportiva a um roteiro turístico de superior qualidade.

Agora vem a parte menos agradável da questão. Segundo as informações técnicas, o terreno onde se iria disputar a primeira manga do sprint, assemelhava-se a um polvilhado de “pedrolas”, e sabem o que isso significa? Grandes tormentos para o espécie de orientista…ou talvez não.

Apesar desta contrariedade, dirigi-me para a pacata localidade de Póvoa e Meadas, cheio de confiança, mas com o “coração nas mãos”. Das duas uma: ou continuava a minha senda negativa pelos mapas rochosos, ou definitivamente assinava o armistício com as antipáticas “pedrolas”.

A população recebeu-nos de braços abertos, permitiu-nos que “invadíssemos” as suas propriedades, demonstrando uma total confiança, que espero termos sabido respeitar. Fomos alterar por completo o sossego daquelas gentes, pouco habituadas a algazarras, que se limitaram a presenciar com a sua postura muito peculiar, as nossas “velocidades” nada usuais para aquelas bandas. A sua hospitalidade é tão genuína, que não necessitam de grandes exteriorizações, para compreendermos a sua satisfação com a nossa visita. Toleram-nos, porque nos acham divertidos e inofensivos e no fundo um pouco de festança não faz mal a ninguém. E o largo do coreto, o Rossio, estava todo engalanado, “não é Ti Miquinhas?”

“Êh compadri Xico, quê sã aqueles maganos às côris que andã a corrêre no sê monti? Andã a pastare o sê gado, home?” – “Nã…Ti Zê, atão vomecê na sabe qui ê a malta da orientaçã? Sã os mêsmes que estiverã lá na Fadagôsa no ano qui passô!” – “Ãh…os das gaiôlas larãnjas e das busseles! Já sê!”

Uns mais bem informados, outros mais distraídos, os nossos anfitriões fizeram questão de marcar presença e estar atentos às nossas movimentações, não houvesse algum de nós mais mariola, que ultrapassasse os limites da boa vontade alentejana.

Isto de vir sprintar para o Alentejo profundo, parece um contra-senso e até pode ser catalogado como uma agressão ao ambiente, mas eu entendi esta opção como um bom prenúncio. Se calhar nem era preciso correr assim tanto para ser considerado sprint, o que para mim vinha mesmo a “talhe de foice”. Ou seja, devagar…devagarinho…e parado.

Estando ainda num período pós-traumático, depois do “desastre” do Alvão, parti com toda a cautela, para não repetir erros do passado, o que um mapa na escala 4.000 iria ser uma valente ajuda. Não faltavam detalhes, só era preciso saber interpretá-los e estar precavido com o “trânsito”, porque cerca de 750 atletas a deslocarem-se em correrias desenfreadas, numa área tão exígua, no meio de uma profusão de controlos, podia dar problemas (“uops! este não é meu…ai! este também não…e este…”).

Manuseei o mapa como de um bebé se tratasse. Com extremo cuidado e muita atenção. Este meu bom comportamento veio a ser recompensado no final. Podia e devia ter efectuado progressões um pouco mais rápidas, mas o receio de passar as balizas sem lhes pôr a vista em cima, levou-me a um andamento mais controlado. Atitude que se revelou sensata, atendendo ao desgosto que alguns especialistas sofreram, por rolarem em excesso de velocidade. Os percursos com escalas menores são perigosos, porque os pontos aparecem (e desaparecem, hehe) num ápice. Bastou baixar o mapa uma vez (no ponto 4) e fui imediatamente castigado com três minutos, mas os restantes quinze controlos, não me consumiram por aí além. Foram dois mil e duzentos metros, de um percurso idílico e de reconciliação, entre o espécie e as mal compreendidas “pedrolas”.

Terminei com um tempo na casa dos 27 minutos, contra os cerca de 18 do líder do escalão. Não façam esse ar trocista, porque é uma diferença perfeitamente normal entre craques e espécies. A primeira abordagem aos afloramentos rochosos (no dia seguinte haveria novo encontro), nem decorreu nada mal, bem pelo contrário. No entanto, os malvados organizadores fizeram questão de me assustar, ao atribuírem-me mais um minuto no tempo final, tendo acabado por o corrigir, o que pensei ser um acto de simpatia para com o espécie, só que vim a saber mais tarde, que tiveram “gentileza” idêntica com mais de metade dos concorrentes. Tinha acontecido um “ori-bug informático” (hehe).

Depois de uma manhã de “paz e amor”, o que me estaria reservado para o sprint urbano (em hora de sesta) no casco histórico de Castelo de Vide?

A segunda manga, de 2.100 metros, foi traçada em pleno centro da vila, tendo iniciado num acesso de inclinação acentuada (só o olhar para cima dava dores de pescoço), a uma das portas da muralha (S.Pedro), com passagem pelo castelo, fonte da vila, judiaria, sinagoga, parque e uma infinidade de escadinhas, num serpentear constante, com um sobe e desce pelas vielas bem íngremes da zona histórica, terminando em apoteose na praça da igreja matriz (uff!).

O tipo de prova que exige algum esforço físico e não perdoa qualquer hesitação ou desconcentração, tem de ser tudo vertiginoso, a pensar e a executar. Eu que sou um perito neste género de acções (cabecinha no ar!), não tive o mesmo comportamento da etapa matinal, dado que troquei as voltas a uma das vielas (quatro minutos de borla), mas do mal o menos, mantive o lugar classificativo. Soube a pouco, pois nestes percursos urbanos, tenho consciência que posso almejar resultados mais airosos.

A fazer jus à hospitalidade norte alentejana e como somos todos bons rapazes (ao que parece ninguém se portou mal), no final do dia foi-nos servido um jantar volante, da responsabilidade da autarquia, dando assim continuidade à distribuição de simpatia por toda a caravana orientista.

 

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terça-feira, 16 de abril de 2024 – 20:46:11

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