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O Kempo. A origem, a sua prática em Portugal e o Grão Mestre Bruno Rebelo

 

 

Vamos fazer uma viagem no espaço e no tempo para enquadrar três temas: a origem e actualidade do Kempo, a sua situação em Portugal, o percurso do Grão Mestre Bruno Rebelo (9º Duan nesta arte marcial) e para terminar temos uma conversa com ele afim de o conhecermos melhor.

 

A arte marcial Kempo, ou também conhecida por Kenpo, é considerada a primeira arte marcial versátil, cuja origem remonta à China provavelmente a 520 ac.

 

Nessa altura um monge budista do Sul da Índia, Bodhidharma, a pedido do seu tutor viajou para a China, onde sentia que os princípios do budismo estavam em declínio.

 

Ele viaja para o Norte da China e após alguns percalços espirituais num encontro com imperador Wu, ele dirige-se a Honan e entra no templo Shaolin.

 

Ali verifica o que o seu tutor realmente indicava que sobre a parte espiritual e física dos monges. Após meditar sobre o que fazer com os monges para os fazer voltar a recuperar o controlo das suas vidas, Bodhidharma, começou a trabalhar com eles a arte conhecida pelas “18 mãos de Lo Han” embora não sejam uma forma de luta, são a base de grande parte das artes marciais dos nossos dias.

 

Após a morte de Bodhidharma, o templo de Shaolin era sucessivamente atacado por bandidos, contudo os monges não conseguiram de forma concertada resistir aos ataques, até que aparece um sacerdote budista solitário que os defende e ensina a arte de combate, registando esse método como Chuan Fa ou Kempo.

 

Esta arte marcial foi praticada e difundida tanto na China, assim como também chegou ao Japão e Okinawa já com o nome Kempo ou também conhecida por “Lei do Punho”. Seja Chuan Fa ou Kempo estamos a falar da mesma arte.

 

O Kempo foi inspiração para outras artes marciais orientais. Já no século XX, em 1916 James Mitose, com cinco anos de idade foi enviado do Havaí (sua terra natal) a Kyushu para ser educado na arte marcial Kosho Ryu Kempo. Passados 15 anos de estudo da variante Chuan Fa original, regressa ao Havaí e cria o clube “Oficial de Autodefesa”.

 

No século XX, difundiu-se também pelos EUA e a partir daí pelo resto do mundo.

 

Nos nossos dias o Kempo tem uma direcção e um propósito claros e é uma arte marcial com o reconhecimento mundial, como sendo um desporto para todos.

 

Existem muitos estilos, que estão a convergir para um modelo unificador e federado. A instituição que tutela mundialmente o Kempo é a IKF – International Kempo Federation, da qual a Federação Portuguesa de Lohan Tao Kempo é membro fundador.

 

O trabalho da Federação Portuguesa de Lohan Tao Kempo tem como finalidade unificar muitas escolas e organizações de Kempo em Portugal e tutela a modalidade.

 

Esta federação conta com mais de 16.230 atletas em 161 associações, 262 agentes de ensino, 27 atletas em alto rendimento e 15 programas de Kempo Adaptado e Inclusão.

 

O Kempo Adaptado é ensinado a atletas que podem ter limitações físicas, com deficiência visual ou deficiência intelectual.

 

O Kempo em Portugal recentemente fez história com a obtenção da mais alta graduação na arte marcial por Bruno Rebelo, o 9º Duan que lhe confere o título de Grão Mestre aos 42 anos de idade.

 

 

Bruno Rebelo nascido nas Caldas da Raínha em 1978, desde sempre teve um grande interesse pelas artes marciais. Iniciou-se com o Judo, foi aluno no Instituto Militar dos Pupilos do Exército e inicia a prática de Tae Kwon-do, Defesa Pessoal e outras modalidades que o influenciaram na vida. Na sua terra natal continua a prática do Tae Kwon-do, Karate Shotokan e Savate. No ano de 1995 encontra a modalidade que vem marcar a sua vida, o Kajukenbo-Kempo WHKD. Em 1998 é graduado com cinto negro, entra no Exército Português local onde, como o próprio afirma, tendo sido nesta instituição militar que teve acesso ao treino e competição de alto rendimento desportivo.

 

Continua o seu desenvolvimento na modalidade em alto rendimento com a prática, competição e estudo, agora numa nova função no Instituto Militar dos Pupilos do Exército em 2001, como militar e professor.

 

No ano de 2008 Bruno Rebelo envereda pelo ensino em escolas públicas e privadas como director pedagógico e torna realidade o seu sonho que consiste em praticar e ensinar o Kempo como planeava.

 

O ano de 2014 foi traiçoeiro para o Mestre em que ao contrair uma lesão grave, deixa a competição assumindo um papel diferente mas preponderante na sua caminhada da modalidade.

 

Em 2015 assume a direcção internacional de 3 federações de Kempo, em 2017 tem a promoção a Director Geral e Director de Relações Públicas.

 

No ano de 2018 é promovido a Director Mundial para o Projecto Olímpico da modalidade assim como para o Projecto Paralímpico Mundial.

 

Em Portugal consegue criar diversas associações que foram evoluindo para a actual Federação Portuguesa de Lohan Tao Kempo - FPLK, reconhecida pelo estado Português com o estatuto de Utilidade Pública e Utilidade Pública Desportiva. A Federação tem a seu cargo cerca de 16.000 atletas, 411 treinadores e quase 500 clubes, conta ainda tem o reconhecimento de membro do Comité Olímpico de Portugal, Comité Paralímpico de Portugal, Confederação do Desporto de Portugal, Confederação de Treinadores de Portugal, Confederação de Coletividades de Cultura, recreio e Desporto, IPDJ, IP e entre outras conquistas que Mestre Bruno Rebelo obteve enquanto presidente da FPLK entre os anos 2015 e 2019.

 

Outra grande marca que levou para a cidade das Caldas da Rainha foi o WAC – Campeonato Mundial de Artes Marciais e Feira Internacional. Isto obra sua com periodicidade anual (antes da pandemia) que reúne milhares atletas a nível mundial, o maior evento da modalidade.

 

O treino de um Mestre é muito intenso, para transmitir aos seus alunos a arte o mais apurada possível. Bruno Rebelo dedica diariamente o seu tempo a 5 horas de treino pessoal e ainda mais 3 horas com os seus alunos.

 

Na sua actividade desportiva pessoal resume-se em termos de conquistas mais relevantes:

 

·         30 Títulos Mundiais Individuais (De 2001 a 2015)

·         2 Títulos Mundiais Absolutos (2007 e 2011)

·         16 Títulos Europeus (De 1998 a 2011)

 

 

Este ano, em 5 de Março, é promovido ao grau mais alto no Kempo, internacionalmente falando, o 9º Duan, conferindo-lhe o título de Grão Mestre.

 

Ao longo da carreira passou também por vários cargos directivos que lhe enriquecem o Curriculum:

 

  • Selecionador Nacional – Desde 2019
  • Diretor técnico Nacional – Desde 2019
  • Diretor Mundial de Kempo – Desde 2018
  • Director Geral de Olympic Kempo – Desde 2017
  • Presidente da Associação de Kempo de Caldas da Rainha – Desde 1997
  • Responsável Técnico por 1.6 milhões de praticantes de Kempo, inscritos nas Federações Nacionais Olímpicas de 12 países.
  •  

 

AMMA: Começo pelo passado mais recente na sua actividade como Mestre de Kempo. A 5 de Março recebe a mais alta graduação da Arte Marcial e o título de Grão Mestre. O que sentiu nesse momento? Foi altura para fazer uma retrospectiva à sua vida como Mestre e praticante?

 

Bruno Rebelo: Para dizer a verdade rejeitei, já em 2019 me tinham atribuído o grau e rejeitei.

 

Contudo os Grão Mestre Sénior e as Federações envolvidas nesta promoção pediram muito para não rejeitar e quando 78 Grão Mestres e Grão Mestres Sénior pedem….. não se pode desobedecer. 

 

AMMA: Quando se iniciou no mundo das artes marciais com o Judo, tinha um objectivo de caminhada definido? Já tinha traçado até onde gostaria de chegar nas artes marciais?

 

BR: Não... Sempre fui atraído pelas Artes Marciais e foram muitas as que experimentei, mas foi só no Kempo que senti que era para toda a vida.

 

AMMA: A passagem pelo Instituto Militar dos Pupilos do Exército deu-se em duas fases, como aluno e como professor. Para a sua carreira que importância tiveram ambas? Uma de descoberta das modalidades e outra na transmissão de conhecimentos.

 

BR: Como aluno confesso que foi um período muito difícil da minha vida…. Mas foi nessa magnifica instituição que aprendi disciplina, motivação, método e que querer é poder (lema da instituição); foi também como aluno que tive acesso a diversas modalidades federadas, algumas que ainda hoje faço extensivamente.

 

Já em adulto, quando fui transferido para os Pupilos do Exercito, coincidiu com a minha entrada na universidade e foi a pedido de outros ex-alunos, de modo a poder apoiar os novos alunos e a instituição que estava a passar uma fase difícil que poderia levar ao encerramento.

 

Foi novamente nesta casa que me foi permitido levar atletas a todo o mundo e poder treinar extensivamente a modalidade. A maior gratidão que tenho da minha caminhada é ao Instituto Militar dos Pupilos do Exército e ao Estado Maior do Exército.

 

AMMA: Como praticante de Judo, Tae Kown-do, Karaté Shotokan, Savate e Kempo, todas estas modalidades contribuíram para o Mestre que é hoje?

 

BR: Sim, em todas se aprende muito e levo comigo conhecimentos muito diversificados.

 

AMMA: Antes da sua lesão em 2014, como geria o seu tempo de treino como Atleta e como Mestre?

 

BR: Treinava cerca de 5 horas por dia e dava aulas 3 horas por dia, o mesmo que hoje. Já no período anterior e em alto rendimento, treinava oito horas por dia e ministrava 10 horas aulas por semana.

 

 

AMMA: Do seu vasto palmarés de títulos alcançados, cada vez que subia a um pódio e ouvia o hino nacional, sentia o dever de missão cumprida? Era muito forte para si?

 

BR: Acho que depende dos objetivos de cada um, mas sinceramente o meu objetivo sempre foi superar-me e alcançar um nível elevado na minha modalidade. O ranking internacional é o resultado do trabalho e dos métodos de treino que fui testando e inovando, muitos desses esquemas e modelos, são os que uso hoje com os meus atletas.

 

AMMA: Hoje em dia ocupa 5h em treino pessoal e 3h dedicadas aos seus alunos. Como concilia o Kempo com as actividades familiares? Para além do Kempo tem outras actividades ou algum hobby?

 

BR: As minhas horas de treino são o meu hobby, 2 horas de corrida, 3 horas de ginásio, 3 horas a dar aulas e mais umas aulas na administração das federações…  felizmente toda a família está ligada ao associativismo ou à prática do kempo, ou seja, é tudo em família.

 

AMMA: A passagem pelo exército onde teve acesso ao treino desportivo de alto rendimento foi determinante para o seu desenvolvimento no Kempo. Como era o seu dia de trabalho como militar e como atleta?

 

BR: Infelizmente no inicio fui colocado em administração, o que me colocava com horários de treino e estudo devastadores. Contudo com as permissões do Estado Maior do Exército, QG de Lisboa e como professor dos alunos, os dias foram se tornando mais direcionados para o desporto.

 

AMMA: A expressão dirigida por si aos seus alunos “Nós somos feitos da mesma matéria que os sonhos”, que impacto deseja que ela tenha nas suas vidas?

 

BR: Que nunca parem de sonhar e que acreditem nos seus sonhos pois com trabalho tudo é possível.

 

AMMA: O trabalho directivo que tem tido ao longo da sua carreira retira-lhe tempo ao ensino. É gratificante o seu resultado, ou prefere a dedicação total ao treino e ensino?

 

BR: É gratificante claro, mas prefiro treino e ensino. Quando a Federação Mundial estiver com todo o processo de reconhecimento olímpico terminado, certamente já não farei tanta falta e retorno à minha rotina favorita.

 

 

AMMA: O Kempo é uma arte marcial muito versátil e utiliza o trabalho com armas tradicionais chinesas. Em que fase do percurso dos alunos é que são introduzidas?

 

BR: Chinesas, Okinawa, Japonesas, Filipinas…. Muito eclética a minha modalidade. Aprendem desde cinto amarelo a sua 1ª arma – Bastão Longo e vão aprendendo diversas durante a caminhada a cinto negro (7) depois existem diversas outras que vão aprendendo totalizando 25.

 

AMMA: Portugal tem 21 atletas de alto rendimento. Que critérios levam a selecionar estes praticantes para os treinos de alto rendimento?

 

BR: Todos tem de ser atletas de competição e com objetivos desportivos, ou seja, seleção nacional. Mas desses 21, só 9 são de Alto Rendimento Federado, os restantes são de Alto Rendimento na Escola UAARE. Todos são excelentes atletas e com títulos Europeus ou Mundiais, só assim consideramos passarem para este nível.

 

AMMA: Como é feito o acompanhamento deles? Em que se baseia o seu dia de treino?

 

BR: Treinam sensivelmente 5 dias por semana uma média de 3 horas diárias, os treinos são dependentes da fase ou ciclo de treino. Basicamente e simplificando: Muita Preparação Física, Treino cardiovascular, Trabalho de Saco e Sombra, Trabalho especifico Técnico, Trabalho em Duo, Combinações de Combate, Combate, Formas,….

 

AMMA: Quais são as principais competições em que entram?

 

BR: Campeonato da Europa, Taça do Mundo, Campeonato do Mundo, Campeonato Mundial Unificado.

 

AMMA: Como funcionam as graduações no Kempo? Que factores são avaliados na progressão dos alunos e dos Mestres para serem atribuídas?

 

BR: Simplificando: Tempo de Treino, Programas de Formas, Combinações, Defesa Pessoal, Evolução Técnica, Continuidade e resultados desportivos. Basicamente tudo conta.

 

No Kempo, o tempo entre graduações é mais simétrico na formação, quando se chega a cinto negro é conforme a dedicação, mestria e tempo de treino, no kempo o céu é o limite.

 

AMMA: Em Portugal há 15 programas de Kempo Adaptado e Inclusão. Este ensino é feito em três áreas de incapacidade: as limitações físicas, a deficiência visual e a deficiência intelectual. Que formação e competências desenvolveram os Mestres desses alunos para lhes transmitir a essência da arte marcial e tê-los a praticar?

 

BR: As nossas formações de treinadores contemplam essa tipologia, além disso as instituições apoiam e formam os treinadores para um maior desenvolvimento e enquadramento.

 

A Secretaria de Estado para Inclusão de Pessoas com Deficiência e o Comité Paralímpico de Portugal também auxiliam na formação e informação dos nossos treinadores e atletas.

 

AMMA: Temos atletas a competir no estrangeiro a nível Paraolímpico?

 

BR: Sim, 9 maravilhosos atletas. 6 dos quais foram campeões da Europa e 5 campeões do Mundo.      

   

AMMA: O facto de conseguir, em tempos pré-pandemia, realizar nas Caldas da Rainha anualmente o Campeonato Mundial de Artes Marciais e Feira Internacional reunindo milhares de atletas, conta com que apoios?

 

RB:  Câmara Municipal de Caldas da Rainha e Patrocinadores locais.

 

AMMA: Era um evento de grande importância para a cidade. Sabendo que somos um povo de turismo e hospitaleiro, como reagia a população a ver de um momento para o outro tantas pessoas de diferentes nacionalidades? Entravam no espirito da festa anual?

 

RB: Sim, as Caldas recebeu sempre este evento de braços abertos e souberam receber estes milhares com carinho. Sempre recebi mensagens e documentos de agradecimento do comércio local e limítrofe, é um grande evento.

 

AMMA: Enquanto esta pandemia não permite estes encontros, têm-se reunido com outras Federações e Associações via digital? Isto para encurtar as distâncias que o Covid-19 nos trouxe?

 

RB: Sim, alias é mesmo a minha função. Em Portugal reunimos com Comité Olímpico, Confederação do Desporto e em formações várias.

 

Em termos federativos gosto de estar muito próximo dos meus treinadores e temos formações online no mínimo 1 vez por mês dos mais diversos temas: Gestão, Desporto adaptado, psicologia do Desporto, História da Modalidade, Associativismo, Arbitragem,…

 

Como CEO da Federação Mundial é diariamente com diversas federações para apoiar no que necessitarem.

 

Sou também responsável pela Formação técnica das Federações de Kempo da Argélia, Kuwait, Indonésia, Congo, Kosovo e Portugal claro, e todos os dias tenho muito que auxiliar e rever programas, vídeos dos treinadores mais distantes….

 

AMMA: Em termos de aulas tal como as outras artes marciais e mais modalidades também estão parados. Como têm gerido as espectativas dos vossos praticantes e toda a estrutura dos elementos federados? Também vão comunicando entre si através dos meios digitais para manter o espírito do Kempo vivo entre vocês?

 

RB: Sim, tivemos aulas, formações e campeonatos online. Nunca parámos e nem demos 1 minuto de descanso aos nossos atletas, o Kempo não pode parar.

 

 

AMMA: O que gostaria de transmitir com o seu legado de vida e de Mestre ao Kempo nacional?

 

RB: Que amem a modalidade e a promovam de coração, partilhem e façam chegar a todo o lado para que se conheça esta modalidade extraordinária.

 

AMMA: Uma ideia que gostasse de deixar aos nossos leitores, tanto aos que praticam artes marciais, como aos restantes, da forma como as artes marciais podem ajudar a superar os desafios do dia a dia nas nossas vidas? Como podem influenciar interiormente a nossa maneira de estar e de ser?

 

RB: Todas as artes marciais são boas e a meu ver, todos deveriam praticar. O que difere cada uma delas é o que as torna interessantes para uns e menos para outros…

 

A formação cívica, moral e física que as Artes Marciais oferecem é fator de auto estima, motivação, satisfação, superação, bem estar, enfim…..

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: (Arquivo da Federação Portuguesa de Lohan Tao Kempo)

 

 

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sábado, 24 de julho de 2021 – 11:06:14

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