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Rui e Sónia Bernardo, um casal a desvendar o subaquático

 

Rui e Sónia Bernardo são um casal de fotógrafos mergulhadores, cujo palmarés conseguido em competições de fotografia subaquática é bastante considerável.

 

Fazem parte da equipa de mergulho do Estoril-Praia e têm passado por provas de topo tanto nacionais como internacionais.

 

Rui e Sónia são ambos engenheiros civis de profissão.

 

O início da atividade de mergulho dá-se em 2005 nas paradisíacas ilhas de São Tomé e Príncipe. Em 2006 é feita a formação em mergulho autónomo da PADI, culminando em 2007 com o curso de mergulhado profundo (Deep Diver).

 

A fotografia subaquática tem início já em 2008 e 2009 é um ano em que dão início da vertente competitiva “spash-in”.

 

Com estas experiências e sucesso que têm tido nas competições por onde passam, já conhecem um pouco de todos os meios subaquáticos ao longo do mundo.

 

AMMA: Rui e Sónia, em 2005 quando tiveram a primeira experiência nas águas quentes de S. Tomé e Príncipe com o meio subaquático, previam que chegassem a este patamar na fotografia subaquática?

 

Sónia Bernardo: Não de todo, estava longe de imaginar que um dia iria participar em competições de fotografia subaquática e muito menos a este nível.

 

Rui Bernardo: Não, claro que não. A vertente competitiva da fotografia subaquática obriga a uma disciplina muito grande, a uma dedicação e treino imenso. Quando mergulhamos as primeiras vezes nada indicava que um simples mergulho nos levasse aos níveis competitivos onde atualmente estamos.

 

AMMA: Para ir para o mar e fotografar a fauna e a flora marinha, para além da certificação de mergulhador, o que é necessário em termos de equipamento? Esse equipamento, para um iniciante é muito caro?

 

Rui: A fotografia subaquática pode ser enquadrada em varias disciplinas de fotografia, ex, fotografia de natureza, fotografia de competição, etc. Qualquer que seja a vertente, estamos num meio subaquático, normalmente frio, hostil para nós, onde o conforto é essencial para um bom desempenho. O investimento começa num equipamento de mergulho que nos traga conforto e confiança para poder estar imerso, geralmente entre 60 a 90 minutos. Quando passamos para o investimento em equipamento de fotografia, o assunto complica-se um pouco. Penso que esta questão não deve ser “avaliada” do ponto de vista do “iniciante” mas sim do ponto de vista da possibilidade financeira de cada um. No meu início, na fotografia de competição, cometi muitos erros ao investir em equipamento mais acessível, mas que rapidamente fica desatualizado ou incompatível com a evolução técnica que naturalmente se desenvolve com equipamentos mais complexos. O meu conselho vai no sentido de um iniciante investir num bom equipamento, não é muito caro, mas sim, é caro. 

 

AMMA: Quem puxou quem para a fotografia subaquática?

 

Sónia: Foi o Rui que me levou com ele nesta paixão. Eu adoro o mundo subaquático, a fotografia é uma excelente forma de mostrar o que existe abaixo da linha de água.

 

Rui: As minhas férias do verão eram passadas na praia, em miúdo, sempre que davam documentários de natureza na televisão, ninguém me arrancava da sala. Tinha, já nessa altura um gosto muito grande pela vida marinha e tudo que fosse relacionado com o mar. Numa fase já mais adulta, via os documentários de Jacques-Yves Cousteau, comprava algumas revistas com artigos sobre a fauna e flora subaquática onde via sempre umas fotografias fantásticas. Na nossa ida a São Tomé, a Sónia lembrou-se de comprar umas máquinas descartáveis para a fotografia subaquática, foi aqui que tudo começou, portanto quem me puxou para a fotografia subaquática, foi a Sónia.

 

AMMA: Que percurso tem que se fazer para chegar ao mundo da competição e como funciona uma prova? É mais importante retratar a fauna ou a flora marinha?

 

Rui: Bom, nesta modalidade, o “mundo” da competição (falando da vertente “splash in”) tem vários níveis. Alguns bem difíceis de lá chegar. Atualmente, para se poder competir é muito simples, basta estar inscrito num clube desportivo, estar filiado na Federação Actividades Subaquáticas e já pode participar em campeonatos nacionais e internacionais que sejam abertos a todos os interessados. Para participar em Campeonatos do Mundo e/ou Europa já tem de passar por processos de seleção, cuja “avaliação” tem em conta o desempenho em campeonatos nacionais. Num nível mais elevado, existem provas internacionais, por convite, onde apenas os “melhores” são convidados.

Como funciona uma prova, explico de uma forma geral, o funcionamento da vertente “splash-in”; são dois dias de competição, dois mergulhos de 90 minutos (tempo máximo permitido) por dia. Mergulhamos todos ao mesmo tempo em locais previamente definidos. Antes do início de cada dia de competição, as máquinas são verificadas, no sentido de verificar se o cartão está formatado, é colocado um selo para “fechar” a caixa estanque. É feita uma fotografia de controlo no início e do fim de cada dia de competição. Assim que termina o segundo mergulho de cada dia, o cartão é retirado da máquina e entregue diretamente à organização para que a organização copie todas as imagens desse dia. As fotos não podem ser editadas em computador.  Em termos gerais, os regulamento indicam 5 categorias de imagens que temos apresentar; Foto de Grande angular com a presença de um mergulhador, cujo objetivo do mergulhador presente na imagem é para que se perceba a escala, mostrando o ambiente subaquático incluindo fauna e flora; Foto de Grande angular, sem a presença de mergulhador, onde se pretende mostrar a fauna e a flora na máxima plenitude; Foto de Peixe, onde temos de fotografar um peixe ou peixes da forma que se identifique a espécie e se possível que retrate um comportamento; Foto de Macro ou grande aproximação, fotografia que mostre um pequeno detalhe, ou um ser muito pequeno, mas que através da fotografia seja ampliado (não pode ser um detalhe de peixe); Foto de Macro com tema,  previamente é definido um tema que durante os mergulhos da prova temos de fotografar. Pode ser uma espécie de crustáceo, uma alga, etc , não se pode nunca repetir a espécie apresentada em outra categoria. Em todas as categorias procuramos ter o cuidado de apresentar as melhores imagens, de forma a que sejam mais apelativas, desde a cor aos sujeitos, passando por tentar retratar comportamentos específicos das espécies fotografadas.

(Categoria "Ambiente com mergulhador" na Croácia em 2022)

 

AMMA: No caso de uma prova, é muito difícil escolher as imagens que têm para enviar para avaliação do júri? O que é mais pontuável numa fotografia?

 

Rui: A escolha é muitíssimo difícil, é na fase de escolha das imagens que se perde ou se ganha uma competição. Depois de copiar as imagens do cartão para o computador, agrupamos as imagens por categorias, as mesmas que estão definidas no regulamento. Normalmente treinamos estas categorias, fazendo várias fotos da mesma categoria, durante a competição, para depois escolher a melhor.

O problema começa aqui, quando temos varias fotos da mesma categoria que são boas fotos. O tempo de escolha é limitado, pedimos ajuda a outros atletas, a amigos que já tenham competido ou que percebam desta arte, para no fim fazermos uma seleção final, mais restrita, onde normalmente, prevalece a escolha da Sónia.

 

Sónia: Sim concordo, as escolhas não são fáceis, mas para mim o mais angustiante é logo após as escolhas, até vermos as coleções dos outros participantes…que é quando saem os resultados. Pois é aí que nos apercebemos de como as escolhas são importantes e decisivas.

(Regresso a terra no último dia de competição do Campeonato do Mundo no México 2017)

 

AMMA: Pode-se dar um pequeno ajuste na edição, ou têm que entregar os ficheiros originais?

 

Rui: Os ajustes permitidos nesta forma de competição, são limitados à capacidade de retocar a fotografia na máquina, em computador, não é possível. Os ajustes possíveis, ainda assim, são bastante limitados, por exemplo, não se pode recortar uma imagem. Normalmente é permitido, ajustar contraste, cor, claridade e pouco mais.

 

Sónia: E mesmo estes pequenos ajustes têm de ser feito debaixo de água, porque a partir do momento em que chegamos à superfície já não é permitido mexer na máquina.

 

AMMA: Do vosso gosto pessoal, que tipo de fotografia mais gostam de fazer, fauna ou flora? Em termos de tipo, seja macro, tema livre ou tema definido?

 

Rui: Eu prefiro fotos de Ambiente com mergulhadora, onde temos de colocar na imagem fauna, flora e um mergulhador, que de forma equilibrada, tentamos mostrar a beleza subaquática. Não sou muito “criativo”, logo quando em regulamento aparece uma fotografia cujo tema é “livre” ou “criativa”, é uma dor de cabeça…

 

Sónia: Eu gosto mais de macros e ambientes. Existem uma quantidade de espécies pequenas (muito pequenas) que nós nem imaginamos e eu gosto de procurar e descobrir novas espécies.

 

AMMA: Como interage a fauna marinha com a vossa presença, seja antes da foto enquanto se aproximam e mesmo quando são fotografados?

 

Sónia: Já nos tem acontecido situações engraçadas, uma vez o Rui estava a prepara os flashes para uma foto de ambiente, nas águas de Sesimbra, e de repente o flache ganha vida…foi um polvo que ficou curioso e resolveu levar o flash com ele.

 

Rui: Exato e não foi fácil recuperar o flash. Era um flash remoto, ainda deu algum trabalho recuperar, mas foi muito divertido. Além deste episodio, no México tivemos alguns “problemas” com lobos marinhos a roer as barbatanas…, em El Hierro com os meros, peixes muito simpáticos que gostam de “posar” para as fotos..., enfim, muitos episódios com graça.

 

AMMA: Que locais mais gostaram de fotografar ao longo do país e no estrangeiro? Onde costumam fazer os vossos mergulhos de treino?

 

Sónia: O sítio que mais gostei de mergulhar em competição, foi no México, onde tivemos a oportunidade de mergulhar com lobos marinhos, essa foi para mim uma experiência incrível e inesquecível.

 

Rui: Sim, o México foi o local mais surpreendente, água quente, fauna e flora bastante diferentes do comum. Mas onde mais gostei, foi na Malásia, pela quantidade de vida, de cor, de variedade de espécies de fauna, foi muito marcante. Habitualmente, mergulhamos em Sesimbra, na Reserva Marinha Parque Prof. Luis Saldanha. Um local que é mergulhável o ano inteiro, por ser reserva, tem ecossistemas únicos, com bastante vida.

 

AMMA: Do vosso palmarés muito vasto, conseguem fazer uma retrospetiva e um balanço da vossa atividade competitiva? Valeu a pena todo o esforço? Continuam com forças para continuar?

 

Rui: Sim, ganhamos muitos títulos nacionais, internacionais e mundiais, de facto a retrospetiva é muito positiva, tem sido uma experiência muito rica, temos conhecido muitos países, feito muitos amigos e sobretudo, reunido um conjunto de apoios de empresas estrangeiras que nos ajudam a “suportar” os custos que as competições têm. Mas o mais importante é de facto os amigos que vão ficando por esse mundo fora.

 

Sónia: Valer a pena, vale sempre, o ambiente nas provas internacionais é fantástico e permite partilhar experiências incríveis.

(A primeira medalha de ouro obtida pelo casal - Foto: Wetpixel)

 

AMMA: Em que fase entra a equipa de mergulho do Estoril-Praia no vosso percurso?

 

Rui: O GDEP “aparece” por indicação da Federação de Atividades Subaquáticas, que ao longo do tempo vai mudando os regulamentos e a dada altura, todos os atletas tem de estar “filiados” num clube desportivo. Na lista de clubes, aparecia o Estoril-Praia, que eu não imaginava que pudesse ter modalidades subaquáticas. Claro que me fez todo o sentido filiar-nos nesse clube, o clube da nossa terra. Foi uma agradável surpresa, porque, efetivamente, fomos muito bem recebidos e apoiados pelo Sr. Presidente Dr. Alexandre Faria e o Coordenador das modalidades Sr. Luis Gonçalo Sá, que deram e dão imenso apoio à modalidade.

 

Sónia: Sermos acolhidos e podermos representar o clube da nossa terra é um orgulho.

 

AMMA: Que situações mais engraçadas e que vos marcaram em provas?

 

Rui: Em competição já nos aconteceu de tudo, ficar sem bateria na máquina, os flashes não trabalharem, esquecer de tirar a tampa da lente, esquecer de colocar o cinto de lastro e não conseguir mergulhar… Mas recordo uma em particular, estávamos num open internacional na ilha Graciosa, Açores, nós eramos muito inexperientes e levamos tudo com muita atenção e cuidado. Os barcos saiam para o mar com duas equipas em cada embarcação, e quando chegamos ao local de mergulho, a outra equipa que estava no nosso barco, tinha-se esquecido da máquina em terra, foi muitíssimo hilariante, porque pensávamos nós que os problemas só nos aconteciam a nós…

 

Sónia: Agora acho piada, embora na altura não tenha sido nada engraçado. Foi durante uma prova em El Hierro, e como sempre nas provas as condições climatéricas alteram-se e o que era um mar calmo passa a ser uma tormenta, e estávamos de baixo de água a tentar fotografar o olho de um peixe balão, com um mar de fundo muito forte que nos deslocava uns 10 metros para um lado e logo depois 10 metros para o outro, e eu estava a segurar no snoot (flash com luz direcionada) encaixada numa fenda onde o peixe estava abrigado e o Rui estava a tentar fazer a foto ao olho do animal, nisto de repente o Rui desapareceu…literalmente desaparecer. Eu só tive tempo de pensar, “mas afinal para onde é que ele foi tão rápido e sem me avisar”! Quando olho para fora da fenda, para tentar perceber o que se estava a passar, vejo o Rui a passar a toda a velocidade Vrum para a esquerda e logo Vrum para a direita, sem sequer dar à barbatana. Fiquei preocupada, mas ao mesmo tempo sabia não podia sair de onde estava e que ele, com a experiência que tem, iria conseguir contornar aquela corrente e assim foi, passado pouco tempo lá estávamos novamente os dois de volta do peixe a captar uma bela foto, que vai ficar na minha memoria (risos).

 

AMMA: Para se conseguir participar em provas ao longo do mundo, os patrocinadores são peça chave. Há dificuldade de encontrar empresas e particulares que têm interesse em apoiar este desporto?

 

Rui: Eu julgo que somos uma equipa com muita sorte, porque não tivemos muita dificuldade em obter patrocinadores, penso que os resultados também foram uma boa ajuda. Em termos gerais, sim, é difícil porque é uma modalidade com poucos praticantes, pouco divulgada, logo as marcas investem pouco no “nosso” mercado. É fundamental competir fora de Portugal, só assim se obtém visibilidade e só assim se consegue dar “imagem” aos apoios. No que diz respeito a apoio “particular”, ainda é mais difícil….

 

 AMMA: Já pensaram em editar um livro com os vossos trabalhos?

 

Rui: Não, já nos tem falado disso, mas é muito difícil. As fotos que fazemos e que publicamos nas redes sociais são sempre no âmbito de competições e/ou treinos. Confesso que vejo milhares de fotografias de outros fotógrafos muito melhores comparando com as nossas. Até porque as nossas imagens, mesmo quando as colocamos nas redes sociais, não tem edição de computador, logo não tem a “qualidade” de livro. Por outro lado, com alguma regularidade, pedem-nos para fazer apresentações de fotografia subaquática, onde explicamos a modalidade, apresentamos fotos, os equipamentos etc. e temos sempre uma enorme recetividade. O mais arrojado, nesse âmbito, foi uma exposição que fizemos em Ovar que depois veio para o GDEP, que penso que correu muito bem.

 

AMMA: Que projectos têm planeados para um futuro próximo?

 

Rui: Competir internacionalmente é quase uma “forma de estar”, porque pretendemos continuar a dar imagem a quem nos apoia. Os nossos projetos são esses mesmo, ou seja, se chegamos onde chegamos, tudo se deve aos apoios e as empresas que apostaram em nós. Pretendemos dar visibilidade a essas marcas e sobretudo, competir de forma divertida, porque nos divertimos imenso. Digo com alguma regularidade que sou um sortudo, além de ter apoios de excelentes marcas, tenho a sorte de mergulhar com a minha mulher, o que torna tudo mais fácil, mais divertido. Ficamos longos períodos fora de casa, quando estamos a treinar fora de Portugal, poder fazer isso com a mulher, é motivo que me orgulho e me dá muito prazer.   

 

Sónia: Eu vou com ele, para onde ele for…

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: cedidas por Rui e Sónia Bernardo

 

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terça-feira, 27 de setembro de 2022 – 20:16:57

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