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Elizabete Jacinto, a reflexão de uma carreira

 

 

Elisabete Jacinto iniciou a sua actividade no desporto motorizado em 1992 no motociclismo, participando desde Bajas ao emblemático Paris-Dakar conquistando vários prémios ao longo da sua carreira. Em 2003 inicia a competição em camiões, no Telefonica Dakar. Em 2004 ao volante do seu primeiro camião, um Renault Truck, tem a sua segunda participação nesta prova do Dakar. O seu MAN M2000 estreia-se já na edição de 2007 do Lisboa – Dakar. O auge da sua carreira culmina com a vitória do Africa Eco Race 2019 na categoria  Camião. Vamos falar com Elisabete Jacinto.

 

AMMA Magazine: Há dois anos ostentava a bandeira portuguesa na janela do seu camião na última etapa do Africa Eco Race. Que misto de emoções teve nesse momento, assim como quando subiu ao pódio?

 

Elisabete Jacinto: Senti uma imensa alegria, um sentimento de realização indiscritível. Foram muitos anos de trabalho e uma luta incrível, não só minha mas de toda a equipa para o conseguir. Foi nesse momento que todos sentimos que “Valeu a pena!”… e essa sensação foi fabulosa.

 

AMMA: Nas corridas no deserto, o que lhe deixa mais saudades?

 

EJ: Tenho saudades de tudo… da condução desportiva com o camião, sempre dentro do limite de uma condução segura e de qualidade. Tenho saudades do deserto e das adversidades do terreno, do ambiente dos acampamentos e do companheirismo que se vive na caravana do rali. Saudades de todo aquele trabalho de equipa e de toda a organização logística. Enfim… tenho saudades do desafio e de tudo o que ia apreendendo para dar resposta às várias situações difíceis que ia vivendo.

 

AMMA: No seu percurso profissional no desporto motorizado, que situação a marcou mais até hoje?

 

EJ:Vivi muitas situações marcantes. Não vou falar da mais marcante mas de uma que que foi decisiva na minha forma de estar enquanto piloto de veículos pesados.

Era o meu primeiro rali de camião em 2003. Não sabia nada sobre como deveria estar numa corrida de todo o-terreno com este tipo de veículo, mas sabia que queria ser “piloto” e andar depressa para vencer. Esse ano, foi um ano de aprendizagem.

Partia sempre de trás mas fazia todo o possível para ultrapassar o camião que seguia à minha frente e, muitas vezes, conseguia fazê-lo apesar das limitações do camião que conduzia na altura. Numa das longas etapas que já tinha entrado pela noite fora, lembro-me que tive de sair da pista por ter estragado um pneu. Começámos o trabalho de mudança do pneu e, passado algum tempo, um dos camiões que tinha acabado de ultrapassar pára ao meu lado, o navegador põe a cabeça de fora da janela e diz-me: “Então?! Estavas com tanta pressa e agora estás aí parada?!” E arrancaram sem mais nada. Foi duro de ouvir mas percebi a mensagem. Este foi um momento importante na minha carreira em que aprendi muitas coisas… sobre mim e a atitude a tomar em corrida, sobre a condução, sobre o camião e sobre os adversários.

 

 

AMMA: O que a levou a parar de competir? Quais são as maiores dificuldades que um piloto profissional tem, mesmo antes da chegada desta pandemia?

 

EJ:Numa primeira fase parei porque necessitei de procurar patrocínios para continuar. Logo a seguir começou esta situação pandémica que nos obrigou a todos a parar.

As dificuldades são muitas. Uma delas reside na necessidade de encontrar financiamento porque as despesas são muito altas. A outra grande dificuldade é técnica pois é preciso estar sempre a conceber e mandar produzir peças para o camião que têm de ter características muito específicas. Em Portugal não há tradição para fazer este tipo de trabalhos tão específicos com qualidade e em tempo útil.

 

AMMA: Mesmo sem os seus patrocínios continua a treinar com o seu camião e a sua equipa?

 

EJ:Não temos meios económicos para manter a equipa e o camião está numa altura em que não é possível fazer corridas com ele. Em termos físicos sim, continuo a treinar enquanto espero para perceber o que podemos fazer no futuro.

 

AMMA: Como tem preenchido o tempo nas suas actividades desportivas?

 

EJ:Continuo a apostar em manter-me em forma e tenho um sem número de outras actividades que me vão preenchendo. Neste momento estou a trabalhar na produção de um livro de Banda Desenhada que irá sair ainda este ano e estou a tirar uma pós-graduação na área da Psicologia.

Vou dando resposta a um sem número de solicitações, das quais o projecto “Be Active” é um exemplo. Sou também presidente da Comissão Mulheres e Desporto do Comité Olímpico de Portugal que também implica alguma dedicação.

Para além disso, tenho o mergulho recreativo e as caminhadas como hobby.

 

AMMA: Um bom momento que lhe ficou na memória que tenha vivido com a sua equipa?

 

EJ:De todos o melhor momento foi , sem dúvida, a vitória no Africa Race. Mas vivemos tantos momentos juntos… alguns particularmente difíceis,  outros de exaustão, outros divertidos… aprendemos muito uns com os outros e, entre os vários elementos desta equipa ficaram fortes laços para o resto da vida.

 

AMMA: É piloto profissional, professora de geografia, e tem uma paixão por mergulho. Como é que estas actividades preenchem a sua vida?

 

EJ: O todo-o-terreno e a competição preencheram os meus dias pois tinha várias tarefas a meu cargo relacionadas com a organização da equipa, das corridas, com a preparação do camião, a comunicação do nosso trabalho etc.  Para além disso, era algo extremamente importante para mim em que me empenhava de corpo e alma.

Sou professora de Geografia, sim. Neste momento não estou a leccionar mas continuo a considerar-me professora.

O Mergulho é um complemento, um escape para o stress do dia à dia. Mergulhar é entrar num mundo diferente que nos permite perceber que há muito para além do nosso pequeno horizonte… que temos de aprender a considerar e respeitar… e que também reforça a consciência da nossa pequenez e, simultaneamente, da nossa capacidade destrutiva. Mergulhar foi um completo importante na minha forma de ver o mundo.

 

AMMA: Para Jorge Gil, responsável pela logística e pelo camião de apoio. Como é vivido o seu dia durante uma prova?

 

Jorge Gil:Os dias são longos e muitos cheios… onde a adrenalina se vai mantendo alta. Fazendo uma pequena descrição… começo por fazer um bom planeamento da etapa, normalmente no dia anterior. Tenho de perceber que percurso temos de fazer, quantos quilómetros, a que horas devo sair, onde tenho de comprar gasóleo ou alguma comida para a equipa, de modo a chegar ao acampamento o mais cedo possível. Contudo, apesar de sairmos sempre muito cedo, nem sempre conseguimos chegar ao acampamento antes do camião de corrida pois temos sempre muitos quilómetros para fazer… na maior parte das vezes nem paramos para comer.  Portanto, passamos quase todo o dia fechados dentro do camião a rolar pela estrada fora. Durante o tempo em que estou em andamento vou tentando saber notícias da equipa, se está a andar bem e, enquanto não chegam à meta, é sempre um stress muito grande.

Uma vez chegados ao acampamento e estacionados os camiões, dá-se inicio ao trabalho de reparação do MAN de corrida. Ai é raro não haver problemas que tenha de resolver… e alguns não são nada fáceis. Depois trocam-se algumas mensagens com os patrocinadores e amigos e, normalmente, sobra pouco tempo que é utilizado para montar a tenda, tomar um duche, jantar e ouvir o briefing com todas as informações importantes para o dia seguinte.

 

 

AMMA: Através dos instrumentos no seu camião consegue saber onde está a Elisabete? Quando nota que houve uma paragem no camião dela, qual o primeiro pensamento que lhe surge?

 

JG: Em Marrocos conseguia muitas vezes perceber, através do site da organização, se a etapa estava a  correr bem à equipa e a qual a classificação no final da mesma. Na Mauritânia tal não era possível e por essa razão, tentava contactar alguém em Portugal para perceber como é que estava a correr a etapa.

Quando percebia que o camião estava parado tentava obter mais informação. Tentava perceber, em primeiro lugar, como estava a equipa, em que situação estava o camião e o que era preciso fazer para ajudar a resolver ao problema. Ficava tenso, naturalmente, mas procurava ser sempre o mais eficiente e racional possível. Nestas corridas parto sempre preparado para o pior… por isso não estranho.

 

AMMA: Passando esta fase gerada pelo Covid-19 a Elisabete tem planos para voltar a competir?

 

EJ: Sim, gostava muito de voltar ao deserto e à competição.

 

AMMA: Uma mensagem que queira deixar aos seus fãs.

 

EJ: Gostava de deixar uma mensagem de gratidão pois foram todos muito importantes para mim. O facto de não os querer desiludir fez com que muitas vezes me desdobrasse para encontrar soluções para os problemas que me surgiram. Foram um apoio moral muito útil nos momentos difíceis. Foram também a minha companhia nos momentos de maior solidão pois é inevitável que nos sintamos muitas vezes sós nestas circunstâncias. Estiveram sempre presentes comigo nas corridas. Por isso, por muito cansada que estivesse, nunca ia dormir sem deixar uma pequena nota no Facebook sobre a etapa que tinha feito.

Obrigada a todos, por terem vivido as corridas comigo, nos bons e nos maus momentos.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: Aifa

 

 

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sábado, 10 de abril de 2021 – 13:56:49

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