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5º Trilho das Lampas

 

S.João das Lampas, 13 de Maio de 2017 


Entre engomar a camisa de branco imaculado que impreterivelmente vai ter de se usar amanhã e mexer o arroz que coze e fará parte do almoço de amanhã também, a rapariga dá umas fugidas ao papel para ir tomando notas do que será o texto, agora apenas as ideias que lhe vão surgindo, pontos fundamentais e importantes que ela quer transmitir, coisas que se passaram ali e que ela quer gritar ao mundo, como que a dizer-lhe que há ali uma coisa fantástica, que todos deviam experimentar um dia. E sentir! Como se o que ela dissesse tivesse alguma importância e alguma repercussão quer no evento, quer nas pessoas. Como se fizesse diferença. Não sabe. Confessa que gostaria de "influenciar" as pessoas, de partilhar com elas, de alguma forma as levar a alguma coisa que lhes dê prazer e alegria.Como ela sente ao Correr. Por isso também, se mantém este espaço, registo pessoal essencial para a própria e espaço de divulgação de interesse subjectivo.


Ela esteve no 5º Trilho das Lampas, e tem lá estado desde a 1ª edição que foi..."ontem", mas ainda assim sente um orgulho imenso por lá estar desde o seu nascimento e tudo a leva a querer continuar a participar. Até...sempre! Enquanto as pernas e o coração deixarem, pelo menos!


Pode dizer que a prova é organizada pela Meia Maratona de S. João das Lampas - Grupo de Dinamização Desportiva, em conjunto com a Sociedade Recreativa, Desportiva e Familiar de S. João das Lampas. Dirá também que a prova está incluída na Taça de Portugal de Trail Running e que tem a supervisão da Associação de Trail Runnig de Portugal (ATRP).E isso é tudo verdade, mas para isso basta ir espreitar o regulamento, onde se encontra bastante mais informação.


Mas o que ela crê ser essencial é tentar transmitir o que ali se passou na tarde de 13 de Maio em S.João das Lampas. Pode facilmente elogiar a Organização, pois tem razões válidas e sólidas para isso. Pode falar de números e apresentar factos. Que a prova teve uma partida pontual e bonita, que teve 625 atletas chegados à meta, que houve 4 abastecimentos de luxo alguns, com água e detergente para lavar as mãos, com fruta, bolinhos e salgados (batata frita.... mas quando oferecem tomate e sal grosso que ela adora?! em vez de batatas oleosas ?!), animação pelo caminho pelo Rancho Folclórico e Etnográfico do MTBA (Magoito, Tojeira, Bolembre e Arneiro dos Marinheiros) a cantar, tocar e dançar (pode-se ver aqui esse momento, na altura em que passavam os caminheiros, mas eles ali estiveram o tempo todo, até passarem todos os participantes - momento registado pelo amigo Joaquim Adelino, este ano a caminhar). Pode dizer que o Trilho teve excelentes marcações, o que se revela de primordial importância se considerarmos que cerca de metade da prova decorre de noite para uma boa parte do pelotão. Que teve um percurso de dificuldade moderada num magnífico cenário incluindo um pôr do sol na praia, que as classificações saíram rapidamente e que de forma regular se procedeu à entrega de prémios no local para os primeiros de cada escalão. Que os prémios de presença são um belíssimo medalhão, uma t-shirt técnica e um saquinho para o pão (por exemplo). Que todos têm acesso a um diploma com o seu resultado. Que é disponibilizado banho a quem quiser. Que há massagem à chegada, chá, sopa, fruta, água, bolos, mais batatas fritas... Mas a sustentar tudo isto estarão sempre as pessoas. Na base de tudo! As pessoas, os sentimentos e as emoções. As pessoas com as suas rotinas, trabalhos, responsabilidades diversas, família, camisas brancas para engomar e arroz ao lume para mexer. E depois... depois, organizam estas coisas, que a maior parte de nós não faz uma ínfima ideia do trabalho e preocupação que dá. Assim, com uma dose elevada de entrega e atrevo-me mesmo a dizer de amor, outra tanta de responsabilidade e seriedade, aliada à experiência, sem faltar a humildade e chega o dia, chegamos nós a S. João das Lampas e vemos toda uma engrenagem montada de forma aparentemente fácil, simples e "perfeita". São guerreiros que travam batalhas muitas vezes invisíveis, para o pessoal ir ali só desfrutar (pagando a devida inscrição obviamente, ao valor inicial de EUR 10,50, valor esse que vemos completamente retribuído e com juros, a considerar tudo o que é oferecido ao participante), ou para o pessoal que vai ali competir à séria, não deixando por isso de usufruir, mesmo que o significado da palavra seja diferente para cada um dos participantes. Estas pessoas são a Organização. A dar-lhe rosto o meu amigo Fernando Andrade, inevitavelmente apoiado por uma boa equipa e onde os voluntários desempenham um papel fundamental. A par da Corrida, há também uma caminhada, a exigir igualmente toda uma preparação de cuidados e atenções. Ao mestre Fernando Andrade e a todas as pessoas que têm estado ao seu lado para porem de pé este evento (assim como a Meia Maratona de S.João das Lampas, que é "só" a 2ª Meia Maratona mais antiga de Portugal, a ter a sua 41ª edição este ano em Setembro) tiro o meu chapéu e dou os merecidos parabéns por esta edição do Trilho das Lampas, Vocês são fantásticos e fazem do Trilho das Lampas uma prova singular e muito especial, satisfazendo critérios para quem lá vai competir à séria, não descurando por isso todos os ingredientes para os que lá vão assim...como eu!



Agora, o Trilho dela...


Ela é apenas uma entre muitos. Apaixonados pelo Trail. De ontem e de hoje. Pelo Trail e pela Corrida no geral. Uma entre muitos que engomam camisas brancas e mexem o arroz e no intervalo, saem de casa e vão ali subir e descer montes e arribas, suar, arranhar-se nos arbustos, atravessar riachos e encharcar os pés, ouvir o coaxar das rãs, inalar os aromas emanados da vegetação e da terra molhada, ver o pôr do Sol na praia e terminar a jornada felizes e mais fortes para todos os desafios da vida, mesmo que o corpo esteja todo empenado e dorido.


Ela, não juntou amigos para irem com ela, como gostaria. Aliás, uma fase de quase um ano a tratar de lesão que a impossibilitava de correr, afastou-a das lides e das pessoas. E as pessoas dela. Depois, quando há coisa de 3 meses, incrédula, lhe parecia que a Fascite Plantar começava finalmente a dar algumas tréguas, atreveu-se a tentar recomeçar a correr. Mas os quase 20 Kg ganhos entretanto e a inactividade por tão longo período de tempo, não lhe facilitaram a tarefa. Viu-se caída no fundo, tão fundo como não se lembra de alguma vez ter estado, mas teve de se levantar. Dolorosa e lentamente. Com muito trabalho, persistência, paciência, fé e vontade, chega a hoje, aqui, a S. João das Lampas e acredita (durante a maior parte do tempo) estar capaz de fazer o percurso do Trilho. Leva o pai, e sim, afinal alguns companheiros do grupo que representa (Runners da Frente Ribeirinha da Póvoa de Santa Iria) também iam. Ia o Chefe, António Soares, mola impulsionadora do grupo e da Corrida e do exercício para todos em prol da saúde, do lazer, desporto e convívio. Mas apesar disso, eram nitidamente poucos.

 

 

Chegaram cedo, a tempo de levantar os dorsais com toda a calma, cumprimentar o melhor dos anfitriões: o amigo Fernando Andrade, reencontrar alguns outros amigos de longa data e começar a inspirar as Lampas e o seu Trilho. O pórtico montado no meio da relva de onde seria dada a partida, as grades já formadas para a clássica voltinha na relva na partida, a música no ar e depressa se viram a ultimar os preparativos do equipamento a levar, e a fazer um ligeiro trote para um muito ligeiro aquecimento.


Posicionaram-se na Partida. Entretanto já o pai se afastara para tentar tirar uma foto à partida. Ela evita ficar muito à frente. Prefere sempre ficar lá mais atrás, no seu lugar, de acordo com o seu andamento, livrando-se assim da frustração de sentir que é ultrapassada por todos os atletas e de rebentar muito cedo por involuntariamente ir logo num ritmo que não é o seu. Do meio da multidão, avista o Fernando Andrade, a anunciar ao altifalante os minutos que faltam, a dar algumas recomendações importantes e lá vem o Presidente da Junta, mesmo a tempo de ainda dar duas palavras e o tiro de partida.

 

 

 

Inicia-se o Trilho. Conforme fora recomendado nos minutos antes da Partida, seria importante os atletas (especialmente os mais rápidos) aproveitarem os 3 primeiros quilómetros para acertarem o posicionamento consoante os andamentos pois devido ao trilho estreito e a subir nessa parte da prova, adivinhava-se algum congestionamento, o que de facto veio a acontecer à passagem da rapariga, o que, considerando que está no último terço do pelotão, não lhe parece propriamente relevante.


A Corrida segue ao seu ritmo, o possível. Confortável. Caminha quando o terreno inclina e corre quando pode. Já conhece bem aqueles Trilhos mas não lhe peçam para ser guia que ela é uma despistada. Mas à medida que avança recorda cada passo dado, cada pedra que saltita, cada arbusto que a acaricia à sua passagem (ou vamos lá, que a arranha e rasga a pele até fazer sangue, deixemo-nos lá de lamechices fofinhas). 

 

O terreno está molhado, uma poça de água aqui e ali, mas bem melhor do que se esperava tendo em conta o que tem chovido. O coaxar das rãs é uma constante durante parte do percurso. O verde. Os trilhos estreitos. A azenha, os riachos, as pontes. A animação do Rancho Folclórico, ali no meio do Trilho, quando não se espera, alegres a cantar, dançar e tocar, a contagiar-nos com a sua energia e alegria! Simpatia nos olhares e palavras de incentivo.Tudo belíssimo! Há sempre gente. Um pouco à frente, um pouco atrás. Ela segue com ela mesma. Um sorriso aqui, outro ali, dado e recebido. Algumas caras conhecidas, o Miguel que serpenteia energicamente entre os atletas ora para a frente ora para trás, para filmar, fotografar, apoiar. Bolas, é preciso estar muito bem, pensa esta rapariga e sorri. Para quem a rodeia, e sorri para si própria. Apesar de quase sempre acompanhada, não deixa de sentir uma confortável e reconfortante comunhão intimista consigo mesma. Apesar do esforço físico (controlado) vai numa completa e intensa serenidade e paz. E felicidade. Porque sente! O privilégio de poder voltar a Correr. E o privilégio de poder voltar a Correr ali! E sorri, sorri muito e avança. Sozinha por momentos. É então que a ouve "Oi filha, tudo bem?", e um ténue nó na garganta se forma para se libertar no coração e agradecer a vida que tem, a saúde que tem e o verdadeiro privilégio de estar ali! E volta a sorrir! "Vai filha, vai, eu domingo vou a Portalegre", "Aos 100, claro?" diria a rapariga ao que a outra de corpo franzino e alma generosa responderia "Sim, aos 100", com a maior da naturalidade e a rapariga ali ficaria a admirar a força e a alma da senhora Analice a avançar no seu passo miudinho e seguro. Fora assim outras vezes entre as duas. Hoje, só esta rapariga corre.

 

Sobe para a praia e ainda ela lá em cima e já o Sol cansado se quer deitar sobre o mar. Parece sussurrar-lhe segredos e promete voltar no dia seguinte. Dilui-se nele e ela ainda agora a descer para a praia, quando chega já ele se pusera. Não esperou pela rapariga mas ela não o censura, tivesse corrido mais depressa, ora essa. Atravessa a praia entre pedras e areia e fios de água a correr para o mar e sorri para o fotógrafo Paulo Sezilio que tão bem capta o que transborda da alma de cada um, pelo menos no caso desta rapariga foi claramente assim.

 

Para sair da praia inicia-se nova subida, agora por onde corre água e há lama. Vale a vegetação onde a rapariga se agarra evitando derrapagens. E segue. Sempre a subir. Por fim alcança as arribas, já quase lusco-fusco. 

 

Depois, o fantástico abastecimento onde há tudo a começar por lava-mãos e detergente. Depois, fruta, bolinhos, salgados, água...Do melhor. Não reconhece ninguém mas há sempre uma "Boa noite", um sorriso, um "Obrigada", porque as pessoas, os gestos, os sentimentos e as emoções, são o que realmente conta. Come pouco e segue. Não sem antes agradecer e deixar a casca da laranja no contentor lá colocado para o efeito. E  aí tem mais arribas para desbravar. Escarpas onde o mar ruge. Já pouca luz há, mas ela, agora mais só, pois com o avançar da prova, os atletas vão~se dispersando cada vez mais (fez praticamente o resto da prova sozinha a partir sensivelmente do km 12 ou 13) consegue ver-lhe a fúria e a espuma da rebentação contra as rochas. Fúria contida. Rugido feroz mas estranhamente apaziguador. Porque ela está a salvo, pensa. Membros da Organização surgem do nada (assim parece mas estarão estrategicamente bem colocados pelo certo), só para alertar que se segue descida acentuada e recomendar cuidado. Delicioso. Ela tem cuidado. Por vezes um ou outro atleta aproxima-se e ela deixa-os passar, pois o seu "cuidado" a descer (também lhe podem chamar mariquice ou cagufa ou mesmo falta de jeito) tornam-na ainda mais lenta nestas descidas mais ou menos perigosas. Depois, quando o terreno permite, corre, e mesmo devagarinho acaba por passar esses mesmos atletas que a passaram na descida. É assim, cada um com as suas dificuldades, medos e limitações. Cada um com as suas lutas e monstros para enfrentar, não se tornando por isso nem mais nem menos que o outro, apenas diferente, no entanto igual na coragem de enfrentar este desafio e na vontade de se superar, ganhando força e ânimo para outras vulgares tarefas da vida, bastante menos heróicas e pouco elogiadas, mas no entanto bem mais importantes.

 

Já o frontal vai ligado. Há um bom bocado. As marcações reflectoras coladas no chão  estão absolutamente irrepreensíveis! Damos um passo e já estamos a ver a seguinte e a seguinte também (e o meu frontal é fraquinho). Os passos sucedem-se de luzinha em luzinha e a rapariga avança sempre e ainda com o som do Mar por companhia.

 

Caminhos entre os campos agora, já estamos a afastar-nos do Mar. Vegetação e bons trilhos para correr. Aparece já uma ou outra casa onde crianças estão a ver-nos passar e a animar-nos. "Tu consegues! Tu consegues!". Ecoou dentro de mim a vozinha daquila menina e mesmo quando nova subida se depara lá pelo km 17...as mãos nos joelhos e avança lenta, a caminhar e a respirar como pode, não pára e sinte-se confiante.

 

Temos também por essa altura a Ponte Romana, iluminada por archotes. Magnífico cenário. Aprecia, aprecia sobremaneira. Avança dorida mas avança.

 

De novo caminhos de terra batida para correr. Correr...quer dizer... quem nessa altura e depois desta tareia consiga correr! A rapariga consegue mas não como queria. Alterna uma Corrida muito lenta com passos a caminhar. Nesta figura encontra um ou outro atleta também, nas mesmas condições que ela, oscilando Corrida e Caminhada. 

 

Por fim pisam já asfalto e dirigem-se para a meta. O GPS já marca perto de 20 Km. Há séculos que ela não percorria tal distância. E dado todo o seu historial recente, acha mesmo que nem se saiu nada mal. A aproximação ao largo de S.João das Lampas dá-lhe forças e o ânimo está em alta. Ela vai conseguir terminar! E afinal parece que nem vai ser a última! Ah, o que interessa é participar, etc e tal, somos todos vencedores, está certo mas aqui a rapariga se puder ser "vencedora" a  fazer aquilo em 2h45m não o vai fazer em 3h. (e já o fez, em mais que isso no ano passado: 3h21m e foi bom na mesma, mas este ano foi muito melhor, especialmente pela forma como se sentiu ao longo de toda a prova).

 

Vê os amigos da equipa já a comer a sopinha e a gritarem-lhe, e ela entra no relvado e renascem-lhe forças para correr por aquele relvado fora com a maior das alegrias até à meta. Lá está o pai a ensaiar  fotografias que acaba por não conseguir tirar e o Manuel António da AMMA, Atletismo Magazine Modalidades Amadoras.

 

 

Uma menina pequenina lourinha hesita em lhe dar a medalha, provavelmente por timidez perante este animal ainda ofegante, a suar, espumar e a cheirar mal que acabou de cortar a meta, o que a fez perguntar tão docemente quanto conseguiu se a menina não achava que a rapariga a merecia, ao que a menina anui com um acenar de cabeça e lhe estica o braço com a medalha. Doce momento aquele, episódio observado por mulheres, que ali estavam também a entregar as medalhas e sorriem com o episódio entre uma troca de olhares. Doce recordação e segue-se para a mesa da paparoca. Água, água por favor. Não, chá não quero...água e laranja e banana por favor. E está a rapariga neste ataque alimentar a roçar a Bulimia tal é a ânsia com que come e ingere água, quando é apanhada pela amiga Leonor e então oferece-lhe o melhor sorriso que consegue, genuinamente feliz também por a ver ali e plena de felicidade pelo que acabou de conseguir fazer mas também a considerar se vai continuar a comer e beber água ou se vai vomitar (o que acabou por acontecer mais tarde). E o rico sorriso foi este: um esgar estranho a revelar dúvidas quase existenciais (vomito ou continuo a meter coisas para dentro?), tão bem captado pela querida Leonor:

 

 

E esta é a estória do Trilho das Lampas dela, este, o quinto.

 

E ela, como o Sol promete ao Mar, agora vai descansar mas promete voltar. E para o ano cá estará para a 6ª edição e promete ainda antes disso ir ao habitual Ensaio, também uma oportunidade de fazer a totalidade do percurso de dia.

 

Ana Pereira

http://mariasemfrionemcasa.blogspot.pt/

 

 

Referências para mais tarde recordar: Percorridos 20,400 Km em 2h45m43s, média de 8´07"/Km, tendo sido classificada em 467ª posição num total de 635 chegados à meta

 

 


 

domingo, 19 de novembro de 2017 – 12:24:56

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