A Festa do POM - (II) Estouro “espécial”

Não façam confusões, pois não estamos perante nenhum título de novela brasileira. É apenas a forma que encontrei, para traduzir o ponto forte (ou fraco?) do dia do “espécie”. Na etapa mais relevante do POM, que pontuava para o ranking mundial (WRE), não estive tão bem quanto desejaria, mas tenho a sensação que podia ter sido bastante pior.

A área de competição, continuou na zona de Mora, mas desta vez, transferiu-se para a espectacular Serra de Briços, numa paisagem que nos leva a perceber o significado do termo “Alentejo profundo”. Houve necessidade de penetrarmos uns quilómetros em estradão, para acedermos à Arena, mas o sacrifício mereceu recompensa.

A Organização entendeu, que a comitiva devia usufruir ao máximo daquele cenário natural tão aprazível e elaborou uns sub-reptícios “passeios turísticos”. Ao colocar as partidas a cerca de 2.000 metros da Arena, “convidou” a malta a uma pernada extra, sob a forma encapotada de um saudável trajecto pelas margens de uma linha de água.

Não satisfeitos com a delicadeza, arranjaram maneira de nos oferecer nova prova de pedestrianismo, desta vez com “apenas” 1.500 metros, a distância das chegadas à Arena. Mas com um ligeiro inconveniente (ou dois), o percurso era o mesmo e alguns escalões percorreram nestas deslocações uma distância superior à das suas provas. Se tivermos em conta que a etapa era de distância longa e que a temperatura subiu anormalmente, alguém poderia ter sofrido uma “overdose” de quilometragem.

Comecei por ter um problema do foro logístico. A minha mulher partia logo a abrir e o desgraçado do “espécie”, tinha de aguentar umas intermináveis quatro horas, para entrar em competição, prevista para a hora do almoço, que para cúmulo veio a coincidir com a altura mais quente do dia. Que diabo poderia eu fazer para matar o tempo, já que não fui admitido no baby-sitting? (hehe)

Assumi o meu papel de marido dedicado e acompanhei a minha mulher às partidas, num atencioso gesto de solidariedade. Só que este acto irreflectido (o tal bater do coração), veio a revelar-se uma asneira e da grossa. Dois quilómetros para lá, outros tantos de regresso e mais tarde voltar para a minha partida, acumulei nas pernas meia dúzia de milhares de metros, perfeitamente de borla. E se estes passeios não matam, podem ter a certeza que moem. Esqueci por completo, que ainda teria de percorrer 7.300 metros e perseguir 20 “laranjinhas” em ritmo competitivo e este desgaste desnecessário não veio beneficiar em nada, a minha periclitante condição física

E à hora que devia estar a controlar um apetitoso ensopado de borrego, arranco para a segunda jornada, apenas com uma digestiva banana e um naco de bolo no “depósito”. Decididamente, foi combustível insuficiente para dar resposta capaz à exigência do percurso.

A táctica baseava-se em tentar realizar uma progressão, que não fugisse muito aos dez minutos por quilómetro (nada de gozo ok?), que para as capacidades do “espécie”, seria uma meta perfeitamente alcançável. E durante algum tempo julguei que iria conseguir.

As provas nacionais inseridas no calendário internacional, criam-me sempre certa apreensão. Normalmente, os nossos responsáveis tentam aprimorar um pouco mais os percursos e colocação de pontos, elevando o nível técnico e físico, para complicar a vida aos ases estrangeiros e como resultado, o “espécie” estampa-se por completo. Para contrariar essa propensão para o disparate, este ano resolvi entrar no mapa com todas as cautelas.

As balizas iniciais causaram alguma preocupação, mas com um ou outro zig-zag, fui levando a água ao moinho. A concentração era tal, que nem reparei que o sexto ponto estava encostado a uma anta, do tempo do homem das cavernas (para mim não passava de mais uma “pedrola” com chapéu, hehe).

Apanhei com facilidade o complicado trilho que me ajudaria a descer até ao açude, mas após transpor, qual cabrito do monte, uma barreira (tipo parede radical) junto à margem, aparece-me pela frente uma profusão de caminhos e começo a desatinar. O mais difícil tinha eu ultrapassado e agora não encontrava uma reles reentrância entre dois carreiros?

Pois não. Desci e subi várias vezes, esfalfando o cabedal em vão. Quando raciocinei convenientemente, volto à barragem, relocalizo-me e pimba! Lá estava o chato do 149. Entretanto foram cinco minutos para o “galheiro” e um consumo extra de energias, que tanta falta me haveriam de fazer mais adiante.

Como vinha a efectuar uma prova equilibrada, fiquei pior que uma barata, com este percalço e numa tentativa desesperada para recuperar a média de progressão, que entretanto tinha perdido, acelero o ritmo inconscientemente. Durante as oito pernadas seguintes, até ao décimo quinto ponto, realizei uma prova sem nenhum contratempo, conseguindo novamente baixar a média, mas quase sem dar por isso, o gás ia-se esfumando.

- “Água…água…preciso urgentemente de beber.” Para mal dos meus pecados, não havia qualquer ponto de água nas redondezas e quando na pernada dos controlos 14/15, me apercebo que o único “bar” existente, me obrigava a um desvio para cima de 400 metros em relação à minha rota ideal, tomei a decisão de continuar. Erro de avaliação monumental.

Na progressão para o fosso do ponto 15, comecei a sentir problemas respiratórios e mal inicío a subida da reentrância rumo à baliza seguinte…Bum!!! Estouro retumbante! Dei o berro pura e simplesmente. O estrondo foi de tal ordem, que até podia ser considerado poluição sonora. Fiquei paralisado a arfar, sem conseguir andar nem para a frente nem para trás.

- “A barra...come a barra...tás surdo ou quê?” – “Barra?...Ahhh!...a barrinha de cereais que tenho no bolso”. Quando se está no limiar da exaustão, o cérebro recusa-se a trabalhar. Com muito sacrifício (a seco é terrível), fui mastigando a barra energética, que costumo levar em provas mais longas e aos poucos ganhei algum alento. Pelo menos recomecei a andar.

Fui-me arrastando até à vedação que antecedia o ponto16 e quando já me encontrava empoleirado, reparo num portão aberto uns vinte metros à frente. Continuava bloqueado, sem raciocinar.
Não sei se pela influência dos cereais, se por ter deixado de correr, recobrei alguma energia, que me permitiu terminar com dignidade. Cerrei os dentes e ainda esbocei uma penosa corridita final, para evitar que os “mirones” das chegadas se apercebessem da minha debilidade, hehe. Orgulho de “espécie” é assim mesmo.

Acabei por exceder em nove minutos o que inicialmente tinha programado, que nem devo considerar um grande desastre, tendo em conta o sofrimento das derradeiras pernadas.

Uma sequência de atitudes irreflectidas deu neste resultado. “Passeios” dispensáveis, deficiente alimentação, corrida descontrolada em várias pernadas, aliadas a temperatura alta e ausência de pontos de água acessíveis ao meu percurso, podiam-me ter provocado uma situação extremamente complicada. Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga.

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