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As belas dunas (I)

Felizmente…há sol.

Título que de imediato me veio à cabeça, quando iniciei estas linhas sobre o Troféu Internacional de Cantanhede, da responsabilidade do Ori-Estarreja, ao recordar-me de histórias passadas, mas ainda bastante frescas.

Se bem se devem lembrar, os últimos eventos organizados por este clube, foram brindados com uma chuva impiedosa, que quase pôs em causa a sua realização. Após várias insistências “celestiais”, desta vez S. Pedro condescendeu, dando a possibilidade de novamente a equipa de Estarreja poder mostrar toda a sua capacidade como organizadora. Foram dois dias de sol primaveril que ajudaram a abrilhantar mais uma prova para estrangeiro não pôr qualquer defeito, porque a maior parte dos atletas que estiveram no Algarve, rumaram a norte e “acamparam” na Tocha, tendo sido principescamente recompensados.

Parece que existe um prémio para quem apresentar a melhor arena. Depois dos espectaculares locais do POM, viemos encontrar mais duas zonas superiormente escolhidas. Então no segundo dia, com partidas e chegadas em pleno estádio, não nos podiam ser oferecidas melhores condições (se bem que os tecnicistas preferissem floresta total). Nestas circunstâncias até me faz redobrar o prazer de participar. Isto de ser orientista começa a ser um luxo, mas é aconselhável que não se levante muito a fasquia, para não se correr o risco de criar maus (ou bons?) hábitos aos humildes praticantes.

O mapa do Palheirão, onde se realizou a primeira etapa, tem como característica principal as suas belas dunas, envolvidas por zonas de franca vegetação, alternando com uma quantidade de clareiras e diversas áreas alagadiças, que nesta altura se apresentavam totalmente secas. Ora toda a gente sabe, que a paixão que sinto pelas dunas é tão intensa quanto a aversão que nutro pelas “pedrolas”. Portanto aqui estava um desafio para o “espécie”, não cometer tantas loucuras quanto as que tem protagonizado nos últimos tempos, atendendo que iria percorrer os “seus” terrenos.

E lá fui eu saltitando alegremente de duna em duna. De tão apaixonado que estava pelas “belas”, que nem dei pelo passar do tempo e…toma lá uns cinco minutos! O ponto 1 era acessível, mas com a progressão que efectuei só podia dar asneira. A malandra da cota foi a última a ser visitada (nunca andei a mais de vinte metros dela). Para compensar fiz uma segunda pernada num ápice. Mas com tanta pressa, que de seguida aconteceu mais um “flirt” com as minhas adoradas.

O ponto 3 estava no local ideal para complicar a vida ao “espécie”. Uma profusão de cotas, cumes, reentrâncias, tudo isto numa área restrita, com a colocação de vários pontos à mistura, que traduzido para o mapa resultava um rendilhado perfeito. Salta aqui, espreita ali, “este não é meu” e com tanta hesitação “voaram” mais cinco minutos.

Foi neste entretanto, que me cruzei pela primeira vez, em plena prova, com o “bip bip dos Cárpatos”. O homem parecia motorizado e munido de sensores (mas não usa bússola), tal a maneira como se desviava com elegância dos obstáculos. Fiquei siderado com a velocidade de execução do Ionut Zinca (e a corrente de ar? a…a…atchim!). É pena só ter podido apreciá-lo uns…quinze segundos (meteórico).

Continuaram a surgir no terreno mais zonas de “rendinhas” e toneladas de areia que me iam atrofiando a passada, mas nessa altura já me tinha identificado completamente com o mapa, que se ia revelando duma exigência técnica acima da média, o que nem constituiu surpresa, dado que esta prova iria contar para o WRE.

Exceptuando a corrida, feita em ritmo de “cágado cansado”, não me posso lamentar de mais nenhuma cena que me tivesse prejudicado nos 3.600 metros do percurso. Consegui um tempo abaixo da uma hora, que comparado com a concorrência, não me deixou mal na fotografia. Quem diria que o elevado nível técnico do mapa acabaria por me beneficiar, ao colocar um “travão” aos corredores? Como não atasquei demasiado, fui conseguindo equilibrar as coisas.

Para desentorpecer e em jeito de preparação do físico para o dia seguinte, foi-nos proposto que fizéssemos ao fim da tarde um “passeio” nocturno: *“Tocha by night”.* Como não somos de esquisitices, para nós qualquer mapa serve. Se havia um sprint urbano noctívago destinado ao relax – “vamos a isso”.

- “Elas andam aí!!!” – “Quem? Por onde?”. Há quem não acredite que “elas” existem, mas que as há…há.

O casal da espécie de orientista foi vítima de uma infeliz coincidência, digna de pertencer ao mais sofisticado manual de “Bruxarias, feitiços e mala patas”, por que se regem os “profissionais” de Vilar de Perdizes (Merlin e Madame Min incluídos). A brincadeira ia-nos saindo cara.

Depois de uma alegre correria, pelo meio dos tradicionais palheiros da praia da Tocha, pico o ponto 200, que se situava num parque de merendas, em zona sem grande visibilidade e parto para o finish…catrapumba!!! Bato aparatosamente com um joelho num meco de cimento, que não deveria ali estar. Vi estrelas, cometas e o resto do firmamento incluído (devo ter proferido alguns desabafos inapropriados). Arrastei-me até ao final, procurando avaliar imediatamente a extensão dos “estragos”. O joelho já apresentava um hematoma considerável e com uns rasgões que davam um aspecto feio ao dói-doi. Estou a lamentar a minha sorte (ou azar?), a imaginar que no dia seguinte não “ia haver nada para ninguém”, quando alguém me avisa – “Oh Luís vai ali à tua mulher, que ela foi mordida por um cão!” – “O quê? Não acredito. É mau demais para ser verdade.” O casal da espécie encontrava-se em maus lençóis.

Mais de uma centena de participantes, acontecem dois incidentes em momentos diferentes e os “desgraçados” são marido e mulher? Por uma qualquer arte de bruxaria, tamanha coincidência tinha acontecido. Fui dar com ela, a lágrima ao canto do olho, as calças rasgadas e uma perna perfurada por três dentes de rafeiro. A minha ferida tinha pior aspecto, mas o caso dela preocupava mais, com o receio de qualquer infecção. Acabamos o resto do dia no hospital da Figueira da Foz a tratar das mazelas.

Mais tarde, já no hotel, com as pernas ao alto e carregados de gelo, um de nós pergunta – “Chegaste a acabar a prova?” – “Claro e tu?” – “Também, estavas à espera de quê?”. Demos uma boa risada. Não temos emenda, adoramos mesmo isto. A preocupação estava centrada no dia seguinte. Iríamos estar em condições de participar? 

 

Periodicidade Diária

terça-feira, 31 de março de 2020 – 09:13:49

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