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No reino de Torga

Há quem diga que os orientistas, sobretudo aqueles que têm pretensão de o vir a ser, quando toca a raciocinar em termos de presença nas provas, demonstram claramente falta de discernimento. O “bichinho” rói-nos as entranhas, não permitindo qualquer decisão consciente e é nessa altura que a nossa veia “ori-dependente” sobressai – “Qual a prova que se segue? O II Troféu Orimarão em Sabrosa? Porque esperamos?”.

Mesmo levando em linha de conta, que este evento se iria realizar no “Reino Maravilhoso de Miguel Torga”, na aldeia de S. Martinho de Anta, no exigente quanto espectacular mapa de Garganta, deveríamos ter equacionado que uma competição regional, entalada entre dois campeonatos nacionais e no mesmo mês, seria dose excessiva para qualquer um.

Todavia, o espécie de orientista, da primeira vez que por lá “pastou”, perdeu-se de amores por aquelas paisagens e perante nova oportunidade, nem hesitou – “Orientar-me pelos trilhos de Torga? Vamos a isso que se faz tarde!”. E se vos confidenciar que o terreno é uma autêntica reserva natural de “pedrolas”, compreendo que façam um comentário do género – “o tipo só pode estar louco”.

Infelizmente é uma loucura de estirpe benigna, porquanto a pandemia que se pretendia que alastrasse a umas centenas de “viciados”, resumiu-se a umas dezenas de alucinados incuráveis (72?), procurando tratamento paliativo num cenário de eleição. Agora dum facto tenho a firme certeza, desencantem rapidamente solução para travar a lenta e inexorável agonia das provas regionais, senão a curto prazo seremos confrontados com o seu desaparecimento.

Se bem me recordava da minha anterior passagem por estas bandas, num Campeonato Ibérico, desta vez o percurso seria mais extenso (4.900 metros), haveria mais umas quantas balizas para procurar (23 no total) e o desnível rondava uns idênticos 200 metros. Torci o nariz, pois está bom de ver, que quanto mais “pedrolas” tivesse de identificar, maior seria a probabilidade de me atascar.

Ao admirar das partidas, o monte rochoso que se erguia imponentemente à minha frente, percorreu-me um friozinho pela “espinhela”, que não consegui identificar se era sinal de frio ou de medo…perdão…respeito pela magnitude da paisagem. Como o sol até estava simpático, apesar da brisa desagradável que soprava da serra, julgo que me sentia ligeiramente, digamos…cismático. Afinal de contas, sempre tive uma relação conflituosa com as “pedrolas”.

- “Então que vieste cá fazer, seu medricas?” – mau já cá faltava a minha metediça consciência. Nunca ouviram dizer que “quanto mais me bates…blá…blá…blá…”? Não é uma questão de masoquismo, mas tantas vezes hei-de tentar contrariar o destino, que chegará o dia, que as malfadadas pedras deixarão de ter segredos para o “espécie” – “Tens tanto de ingénuo como de sonhador” – nem vou responder a provocações, mas esta “vozinha” quase sempre tem razão.

A uniformidade da sinalética assemelhava-se à do terreno, pedras e mais pedras, só dois “laranjinhas” não teriam a companhia do cinzento. Por acaso nem iniciei mal a minha prova, mas quando aguardava problemas provindos das rochas, ao progredir para o ponto 3, situado lá no topo dum afloramento, entro numa zona de verde traçado no mapa, que por deficiente actualização cartográfica, no terreno estava transformada num imenso mar de giestas de dificílima penetração.

Apercebi-me demasiado tarde da teia em que me tinha envolvido, apenas me restando “nadar” o melhor que pudesse e não deixar que o altaneiro ponto de referência fugisse do meu campo de visão. Sem qualquer desorientação, apanhei uma bordoada de seis ou sete inglórios minutos. Por esta não esperava eu!

Rumei apressado para a baliza seguinte, uma pedra especial localizada a curta distância, numa área onde um dos raros trilhos do mapa e um muro bem visível podiam fornecer ajuda preciosa, convencido que o ponto estava no papo. Descortino uma “pedrola” que se salientava do conjunto, dirijo-me para ela cheio de moral, dou-lhe uma espreitadela, só que o prisma tinha “sumido”.

De imediato fiquei com a “bússola” zonza, esgravatando tudo o que fosse granito, nunca me afastando do dito muro que me servia de elemento orientador. Passados largos minutos (oito ou nove), vejo alguém a sair de detrás da “pedrola” inicial, com cara de “ponto picado” e pelo sim pelo não fui novamente ao local do crime – “seu pitosga, não viste que o mato podia tapar a baliza?” – como foi possível não ter reparado? Mistério que vai ficar por desvendar.

Terrenos pedregosos nunca são de progressão fácil, daí e não obstante uma sequência de pontos relativamente bem orientados, fui desbaratando algum tempo, ora por não ter resposta física capaz ou por dar largas à minha queda para as invenções de técnicas de orientação (similar ao projecto Novas Oportunidades, alteram-se princípios para não chegar a lado nenhum, hehe!).

A certa altura, na pernada que antecedia a descida (15/16), parei momentâneamente para me localizar, olho em redor e naquele preciso instante percebi o motivo porque Torga baptizou estas terras de seu “reino maravilhoso”. O amarelo das giestas, mesclado com o cinzento granítico das penedias, polvilhado por áreas verdes de cultivo e raras zonas arborizadas, proporcionavam uma nuance de cores a perder de vista – um soberbo quadro transmontano.

Está bem que o panorama é agradável, mas também não nos excedamos com o desfrute, pois o “passeio” já ia longo, com uns pouco abonatórios 75 minutos e era importante lembrar que participava numa prova desportiva, onde o cronómetro não pára.

Depois de sair da zona pedregosa, regressando à civilização, surgindo alguns caminhos, áreas lavradas e umas resistentes “pedrolas”, julgando ter terminados os meus problemas, ao atacar o antepenúltimo controlo, facilmente localizável junto a uma horta, mergulho de cabeça novamente numa zona de vegetação cerrada, quando o mapa apenas marcava uns ligeiros riscos verdes.

Se no terceiro ponto a dificuldade foi flagrante, aqui tomou proporções aflitivas, dado que as giestas ultrapassavam largamente a minha altura, provocando-me uma sensação claustrofóbica. Para complicar, as silvas fizeram também o seu aparecimento. Com as giestas posso eu bem, mas com estes arbustos de dolorosos espinhos nem pensar.

Para mal dos meus pecados, no trajecto para o ponto seguinte (400 metros) repetiu-se a cena, com a agravante de os meus trabalhos de “perfuração” terem sido mais demorados. Perdi mais de dez minutos nestas duas progressões completamente anormais, em que a dado passo me senti uma verdadeira toupeira e um certo receio que me saltasse para o colo algum dos “bichos” do Torga.

Não nego que estive perante um percurso deslumbrante, tecnicamente complicado, onde tive de ultrapassar a fobia das “pedrolas” e desenvencilhar-me do “mato-surpresa”, mas quase duas horas de “recreio” é definitivamente um abuso da minha parte. 

Periodicidade Diária

sexta-feira, 20 de setembro de 2019 – 05:15:56

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