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A gaguejar, a gente não se entende

Não é a primeira vez (e com certeza não será a última), que a designação da área utilizada numa qualquer prova de Orientação, me inspira a fazer analogias (algumas bem parvas) com o que efectivamente se passou no terreno. Existem denominações que parecem ter sido escolhidas a dedo.

O que vos se afigura, ser a Herdade dos Gagos em Almeirim, o palco do Campeonato Nacional de Distância Média? À primeira vista não encaixa com nada, não é assim? “Po…po…pois a mm…mim, dá…dá-me i…i…ideia que si…si…sim.”

Um dia sombrio, que hesitava entre nos fustigar com uma forte tromba de água ou permitir que os raios solares nos fornecessem algum conforto, não augurava grandes cometimentos por parte do “espécie de orientista”, que não aprecia este ambiente ambíguo de faz que chove, mas brilha o sol, acaba por chover e o sol sem se ver – enfim, um dia gaguejante. Começaram a perceber aonde eu queria chegar? Não? Consideram demasiado rebuscado? Ok! Eu explico.

As coisas continuavam titubeantes. Inicialmente as partidas estavam aprazadas para as dez horas, foram antecipadas meia hora, mas no momento das pré-partidas de quinze minutos, voltaram à primeira forma, para mais tarde, já na zona da partida real, sofrerem novo atraso de dez minutos. Este “vai que não vai e acaba por ficar” – tipo partida gaga – influenciou negativamente o meu bio-ritmo, que começou também a vacilar – “Dói-me o joelho ou não? Se calhar é a cabeça…ou será mesmo o joelho?”.

Devo realçar um pormenor que se manteve inalterado: 5.300 metros de distância a percorrer e 24 balizas para picar, para trezentos e muitos metros de desnível. O último parâmetro provocou-me alguma apreensão. Sendo um terreno de montado, onde não se vislumbram grandes elevações, seguramente iríamos ter pele frente, o célebre “carrossel” do sobe e desce constante, de pequenas colinas.

A constância ondular do terreno, na prática significa precisamente o contrário. Se tão depressa temos de trepar um pequeno monte, logo de seguida descemos desarvorados pela encosta abaixo. Esta característica do relevo, de uniforme não tem rigorosamente nada – em que é que ficamos? Corremos e pulamos felizes como faunos da floresta ou sofremos como duros alpinistas? Cá estão as tais hesitações, que eu tomarei a liberdade de designar por “gaguez” orográfica.

É neste cenário de indecisão que o “espécie” se envolveu – reentrâncias ou esporões; escarpas ou buracos; floresta ou montado – raios! Decidam-se! – Pois muito bem, já que ninguém responde, decido eu. – “Azi…azi…azimu…mu…mu…te ou cu…cu…curva de ní…ní…vel?”. Uops! Isto pega-se, hehehe!

A minha apreensão tinha o seu fundamento. O mapa da Herdade dos Gagos não iria poupar quem não dominasse a técnica de progessão pelas curvas de nível e muito menos quem se apresentasse em deficiente condição física ou “gaguejasse” em demasia. Terreno a preceito para um campeonato nacional e com potencial de sobra, para criar sérias dificuldades ao espécie de orientista…e não só!

Não obstante ainda sentir aos saltos, a pedra da sopa deliciosa da noite anterior, não me inibi com estes pormenores de reduzida importância e entrei na prova com vontade de contrariar os fluidos hesitantes que pairavam. No entanto e como não poderia deixar de ser, iniciei a prova bastante indeciso, denotando uma falta de confiança inexplicável, para quem já tem no seu currículo, número de percursos suficientes para dar e vender.

Os primeiros pontos, situados em reentrâncias e esporões, causaram-me algum “frisson”, mas não originaram penalização de maior, apesar das opções tomadas me terem cheirado a esturro, pois cedo me apercebi, que as pernadas apresentavam várias hipóteses de progressão. Seguia a curva de nível, aproveitava a boa rede de caminhos ou tirava o perfeito azimute? Lá continuávamos nós com as ditas indecisões. Aproveito este momento de meditação, para reconhecer o excelente trabalho do traçador de percursos. Facilitou-nos a vida no sprint do dia anterior, para nos colocar uma chusma de aflições na distância média. Atitude que se pode apelidar de perspicácia táctica.

O facto, é que até ao oitavo controlo estava a desenrascar uma prestação razoável, dentro do que me tinha proposto (média 3´/ponto), mas uma palermice de “espécie” roubou-me quatro minutos para o ponto seguinte. Vou a um caminho, oriento-me por um trilho vindo da esquerda e saio para apanhar a “minha” escarpa. Curiosamente apanhei de imediato o “ponto”, apenas com um ligeiro revés, não era o meu, nem o elemento tinha “cara” de escarpa. A azelhice foi não ter verificado que havia um segundo trilho a desembocar no caminho. Perante tamanha desconcentração a raiar a dislexia, nem sei se deva chorar, gritar ou arrancar os cabelos. Acho que me vou ficar pelo ranger de dentes e um chorrilho de palavrões para aliviar a alma.

Após um curto período de tréguas, que durou as cinco pernadas subsequentes, volto a ser acometido por um ataque de incompetência, pela minha teimosia em tirar uns azimutes marados, quando o bom senso aconselhava a percorrer um simples carreiro. Desta vez contabilizei perdas mais consideráveis, tendo derretido para cima de seis minutos na busca do ponto 15, uma acessível reentrância a escassos metros dum dos principais caminhos do mapa. Um desconsolo, mas nada mais havia a fazer do que atacar com unhas e dentes os controlos em falta.

Nestes períodos de desespero, convém não perder o sangue frio para manter o discernimento, caso contrário as asneiras transformam-se em bola de neve. Antes de partir, tinha me apercebido que existiam três prismas no outro lado do açude, bem visíveis da Arena, que iriam funcionar como pontos de espectadores, conforme estava previsto, situando-se um deles junto a um elemento humano.

Ao controlar o ponto 16, informado pela sinalética que o seguinte seria o tal “humano”, baixo o mapa, parto à desfilada pela encosta abaixo, saio da floresta como uma seta em direcção ao ponto e quando estava a escassos metros, quase gaguejo com o susto – “N...n…na...não é o...o...m…m…m...meu?”. Pensei que ia fazer um bonito e “dei com os burros na água”.

Mais uma vez houve um volte face e fui apanhado numa “armadilha” para papalvos (leia-se “espécies”). Definiram o controlo 17 como ponto de espectadores, mas colocaram-no num local que os únicos que o podiam presenciar seriam os passarinhos, porque da Arena nem pó! O meu pretenso “espectacular” ponto distava mais umas passadas, escondido pelo mato e por umas condutas gigantes, mas se tivesse olhado para o mapa batia nele de queixos. Estas “gagueiras” deixam-me possesso – o ponto era ou não de espectadores? Devia ser, mas não podia!

A parte final, totalizando 1.500 metros e sete balizas de índice técnico mais elevado, obrigou-nos a percorrer a margem do açude, de piso pouco consistente e desgastante, para nos embrenharmos novamente na floresta e dar de caras com uma autêntica “parede”, tal era a inclinação da escarpa. Uff!!! Subi de “gatas”, agarrando-me a tudo o que a natureza me oferecia como auxílio (galhos, troncos, raízes, terra, cobras…), mas depois de um super esforço (não esquecer que já levava cerca de uma hora no cabedal), chegar ao topo e encontrar o prisma “136” a dar-nos as boas-vindas é recompensa gratificante (cada vez me identifico mais com o João Garcia, hehe).

Ainda dispunha de uma reserva especial para consumir e como me sentia furioso com os acontecimentos, forcei o andamento quase até à exaustão, tendo conseguido despender nestes últimos troços após o “espectáculo”, uns “profissionais” 16 minutos (grrr…até os comemos!).

Sinto no ar uma pontinha de curiosidade, em saberem se desta feita é que o “espécie” empunhou a lanterna vermelha. Para desgosto de muito amigo da onça, o atino demonstrado na derradeira fase da etapa, contrapondo ao desnorte de um punhado de parceiros, pouparam-me a esse dispensável protagonismo (salvo ao soar do gongo).

Creio que terão finalmente entendido a filosofia do tartamudo orientista. Ou não?

Eu…eu vvv…vou apa…apa…apa…apare…aparecendo.

Periodicidade Diária

terça-feira, 17 de setembro de 2019 – 12:29:51

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