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Corridinho Algarvio - (IV) Final de Festa no Sotavento

Mais uma vez a Orientação foi alvo de uma atitude de deferência. Não é a primeira vez, que temos o privilégio de podermos utilizar zonas, que são consideradas verdadeiros patrimónios naturais. Agora, foi-nos franqueada a entrada na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, em pleno coração do sotavento algarvio, onde apenas têm livre-trânsito certas espécies protegidas. Senti-me de imediato como peixe na água, ou não pertença eu a uma espécie…em vias de extinção.

O teatro que nos foi posto à disposição, para o final da festa do POM 2008, não poderia ser mais bem adequado. A possibilidade de nos podermos espraiar por todo o complexo desportivo de Vila Real Santo António, tem de ser vista como uma autêntica mordomia. Dava gosto presenciar a azáfama, uma “Babel” onde todos se pareciam entender, nem que fosse por linguagem gestual, o colorido buliçoso, a preocupação no bronzeado de última hora (era vê-las a besuntarem-se), todo um afã que se ia desenrolando naquele aprazível espaço. A Organização conseguiu atingir o clímax mesmo no final.

E se tudo estava excelente, em termos de arena, então no aspecto técnico, fomos presenteados com o melhor mapa deste evento. A unanimidade quanto à qualidade do terreno, não deixa margem para qualquer discussão (quem sou eu para questionar seja o que for?). Mas no melhor pano cai a nódoa e um arreliante pormenor veio quase manchar uma festa, que se pretendia imaculada.

Entrei na prova, convencido que ia ser canja. Dezassete pontos dispersos por 3.600 metros de percurso, para um quase inexistente desnível. Que dificuldades poderia encontrar? Toda a gente sabe, que quando não há problemas eu tenho o dom de os criar. A primeira pernada, que não tinha trezentos metros, deu-me logo “sarna para coçar” . A vegetação, não sendo intransponível, apresentava-se demasiado densa, dificultando a visibilidade para se poder avaliar o relevo. Progredi em azimute, mas o ponto “nem vê-lo” e o cume (?) onde se situava, não deu sinal de si. Bem me fartei de correr, mas o caminho que me podia ajudar, parecia estar a milhas. Começou o meu problema que se manteve toda a etapa. -“Já terei passado o ponto?” – “Corri demais?” –“Ainda não estou na zona?”. Bem, os pontos pareciam que estavam a fugir de mim. Se calculava 200 metros, tinha de fazer 300. Se atirava para 400, não chegava mais.

Este equívoco acompanhou-me até ao final. Só mais tarde, em conversa com um dos nossos especialistas, tomei conhecimento que os mapas estavam numa escala superior a 10.000. Tal hipótese, nem me passou pela cabeça. E este problema já tinha acontecido em Muas. O tal detalhe que poderia ter estragado a festa. É verdade que a situação foi igual para todos, só que os mais informados imediatamente perceberam, os “espécies” fartaram-se de penar. Por acaso, não pensaram que este erro pode ter sido intencional, no sentido de elevar o grau de dificuldade do que parecia ser uma tarefa fácil? (assim obrigou a rapaziada a desfrutar um pouco mais do “Sapal”) A Organização só pretendia o nosso bem-estar.

Para além deste relevante detalhe, também nunca me adaptei muito bem à vegetação, que camuflava nitidamente as balizas, transformando os pontos em quase “camaleónicos”. Passei grande parte dos percursos, a “nadar” por entre aqueles arbustos (halófilos de seu nome), pois tinha necessidade de os ir afastando com os braços, sempre na esperança de me saltar do meio deles, um pontinho para o “chip” ou um camaleão linguarudo, hehe. -“Com que então isto ia ser acessível?” – “Põe-te mas é esperto, Luís…deixa de ser marafado!”

Depois de ter sido abonado com uma dúzia de minutos no primeiro ponto, só tinha de respeitar o mapa, se pretendia um resultado com alguma dignidade. Sempre em esforço, dado que os pontos ficavam sempre mais longe do que eu supunha, fui conseguindo controlá-los, sem mais nenhuma tolice de monta, até que sou apanhado por novo “atascanço”, na progressão para o ponto 12 (reentrância com vegetação). Nem queiram saber a malta que andava à cata do “dito cujo”. Mais parecia um grupo excursionista em passeio ecológico. Ainda hoje não percebo o motivo que me fez perder mais de oito minutos naquela baliza. Ah! Descobri! Tive uma atitude solidária com a minha mulher, que também andava lá nas suas buscas (hehe).

A partir daqui, dei início ao melhor período da minha prova. Apesar de não ter atingido altas velocidades, tive o condão de ir “esbarrando” com os prismas, de tal forma os azimutes estiveram atinados. Podia até me ter aleijado, não é? (hehe). Nas imediações do ponto 14, fui interpelado por uma super-veterana, que precisava de se localizar, mas o inglês dela era pouco perceptível e o meu “finlandês” já passou por melhores dias. A sorte da senhora é que aponto bem no mapa.

Quase sem dar por isso, tinha terminado a minha participação no POM 2008. Não alcancei resultados de que me possa orgulhar, mas tive o prazer de ser mais um protagonista da maior festa da Orientação, que decorre anualmente no nosso país. Em 2006, apenas estive presente numa das etapas, no Pego. O ano transacto, em S. Pedro do Sul, o temporal ofuscou por completo o evento. Finalmente consegui usufruir do ambiente de festa que se vive nestas provas. Por mais que me tente lembrar, não conheço nenhuma modalidade que traga tantos atletas estrangeiros ao nosso país. Custa a entender a falta de interesse da comunicação social, não sabem o que perdem.

Cinco dias antes, quando me preparava para iniciar a minha viagem para sul, alguém me perguntou – “Para onde vais?”- ao que eu respondi – “ah!ah!ah! vou para a festa”. No regresso – “Donde vens tu?” – “snif! snif! snif! venho da festa…”. 


 

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domingo, 15 de setembro de 2019 – 16:02:07

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