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Silêncio que me estou a orientar

Provavelmente, após estas linhas serem do conhecimento geral, irei ser alvo de críticas acérrimas, provenientes da facção fundamentalista e radical da nossa modalidade ou seja, os defensores da Orientação pura e dura, tal qual consta nos regulamentos, mas como quem não se sente não é filho de boa gente, cá estou eu a defender a “minha dama”.

Quero começar por recordar, que a nossa querida Orientação nasceu lá no norte da Europa, zona de terras gélidas, climas agrestes e de gentes com elevado grau de sobriedade, pouco dadas a grandes manifestações sociais, o que choca de forma abrupta com o nosso espírito latino altamente extrovertido e exuberante, alicerçado em intensa e emotiva comunicação.

Somos uns brilhantes oradores, apaixonados por confusões, conversa da treta, “corte e costura”, usamos o calão preferencialmente, para dar ênfase a qualquer frase, consideram-nos peritos em “cunhas” e tráfico de influências, sofremos com a solidão e acima de tudo, sentimos uma atracção fatal por “confraternizações” em montes e florestas. Adoramos “dar à língua” – está-nos no sangue!

“Oh Micas! Essa baliza aí no afloramento é o 77?” – berra o Zé, a plenos pulmões, do alto do monte, empoleirado numa “pedrola”, para a sua colega de equipa, que progride mais abaixo, numa zona aberta – “Não, é o 22, mas acho que passei por esse, ora deixa cá ver…há dois pontos atrás, numa cota, não é isso?” – grita a moça carregada de instinto solidário, ela que até sofre duma paixoneta antiga pelo rapaz, pouco preocupada em perder uns segundos a auxiliá-lo ou a julgar que estaria a cometer uma injustiça, para com outros adversários do seu “Zé” (que não tiveram direito a “Micas”).

Este intercâmbio informativo, podia ter acontecido numa prova qualquer, algures no nosso “cantinho ibérico”, mas nunca se teria passado em países de “cultura orientista tão desenvolvida”, como os escandinavos…. Não sei se faça aqui uma afirmação ou uma interrogação. E sabem porquê? Porque tenho sérias dúvidas, que cenas destas não aconteçam um pouco por todo o universo orientista.

Vamos lá proceder novamente a um reavivar de memória. Salvo raras excepções, a maioria dos actuais atletas deu os primeiros passos na modalidade, participando nos escalões abertos e com certeza devidamente acompanhados (oh memórias curtas!). Ora, essa aprendizagem em “família” deixa algumas sequelas; ficamos eternamente dependentes de, uma vez por outra, trocar opiniões técnicas com alguém em plena prova (a síndrome do cordão umbilical). Se a situação for aflitiva (atascanços irreparáveis), então “exige-se” ajuda a quem passar, nem que seja ao Gueorgiou, arriscamo-nos é não obter resposta. Ok! Tudo bem, com negas destas, aprende-se a ser selectivo e não pedir colaboração a qualquer um.

Com o tempo, todos nós vamos percebendo que as “conversas” devem ser restringidas ao mínimo, quanto mais não seja por orgulho de orientista (um “tique” que com o tempo vai evoluindo de forma exacerbada), simultaneamente adquirimos níveis de bom senso, que nos aconselham ser mais comedidos nestas atitudes “ilegais”, mas jamais “batoteiras” (o uso desta terminologia é chocante). È que a verdadeira batota não fala…corre!!!

Uma das características da Orientação, mais apelativa e valorizada por quem se dispõe a fazer a primeira abordagem, é indiscutivelmente a possibilidade de participação com “muleta”, pois devemos ser realistas, a modalidade analisada assim a frio, afugenta as pessoas de imediato – “Aquilo é só para radicais!” – “Temos de trepar aquele monte?” – “E se a gente se perder no meio do mato? Eu nem em casa me oriento!” – “Ena pá, a agulha da bússola não fica quieta!” – “Não podemos ter alguma queda nos confins das pedrolas?” – “Se não é permitido pedir auxílio, mais vale desistir”.

Passe o “humor negro”, parecem-me questões pertinentes, pois se numa fase de iniciação, um principiante é confrontado com um problema desta natureza, nunca mais aparece para prova nenhuma – simplesmente desmotivador, para ele e para a modalidade. Vou confessar-vos um segredo, se porventura, na época de namoro à modalidade, tivesse sido protagonista de duas ou três cenas de atirar a “toalha ao tapete”, podem ter a certeza que esta “burra velha” não vos estava aqui a chagar com estes comentários subversivos – acompanhava as provas do sofá!

Aceito pacificamente (era o que faltava!), que a Orientação configura uma actividade estritamente individual, no entanto, se nos aparece um tipo em apuros com a “rosa dos ventos”, qual o problema em lhe dar um empurrãozinho para o relocalizar? Na minha perspectiva, não consigo encontrar nenhuma razão válida (ah! é verdade, o regulamento) para negar um pedido de ajuda seja a quem for (saiba eu onde estou!), é uma questão de solidariedade, desportivismo e fair-play, mas sobretudo de personalidade. A minha maneira de estar vai continuar a sobrepor-se, a regulamentos castradores de liberdade, algo desajustados para a nossa realidade e essa posição é inegociável, porquanto, quando (ou se) me sentir deslocado, salto fora (para não ser empurrado!).

Em momentos de desespero (e se eu passei por alguns!), já tenho enviado um ou outro “SOS”, mas nunca a um “elite” e muito menos aos craques do meu escalão, mas prefiro cometer uma “ilegalidade” do que desistir, não obstante ficar com o orgulho do “espécie” totalmente esfrangalhado. Todos concordamos que é bem mais gratificante concluirmos uma prova sem qualquer auxílio, o contrário até nos deixa alguma frustração, mas infelizmente “ a necessidade faz o ladrão”.

A malta mais intransigente deve entender, que a Orientação não é encarada da mesma maneira por todos os praticantes, uns competem só com o intuito de ganhar (desportivite aguda), a maioria participa por paixão e apenas compete consigo mesmo. Aqui reside o ponto fulcral das diferenças de mentalidade e atitude nos mais variados escalões, em que necessariamente um atleta de formação não terá o comportamento equilibrado de um veterano e este por sua vez, já não patenteia o espírito competitivo dum elite. Os jovens têm “amigos” na Orientação, na óptica dos veteranos somos um grupo de “companheiros”, mas nas elites apenas se vêem “adversários”.

Quando alguém solicita uma ajuda, de certeza não lhe passa pela cabeça, que vai beneficiar duma mais valia que o faça suplantar o atleta “A” ou “Y”. Naquele momento só tem em mente, encontrar o próximo ponto para poder concluir sem “mp”, a verdadeira filosofia do desenrascanço, tão ao gosto do “tuga”. Pela mesma ordem de ideias, quem se propõe fornecer uma “dica”, também não se sentirá incomodado com as consequências, sejam no aspecto desportivo ou no contorno ilegal do seu comportamento, porque normalmente, estes actos de “bom samaritano” funcionam como autêntico bálsamo ao ego do orientista (até ajudei o “Fulano” ou a “Beltrana”, sou o(a) maior!).

Agora, podem fixar o seguinte, não sou tão ingénuo ao ponto de acreditar que não aconteçam algumas excepções de cariz oportunista, só que estou perfeitamente convicto que são circunstanciais e quase inócuas, não tendo por isso qualquer impacto na verdade desportiva.

Sinceramente, espero que compreendam esta argumentação de índole pessoal, que não se identificando com a “minoria silenciosa”, tem na sua essência, o facto de que me considerarei sempre uma espécie de orientista e a essa raça ninguém terá coragem de “atirar pedras”, até porque nem fazemos sombra a ninguém, não estão de acordo? 

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quinta-feira, 19 de setembro de 2019 – 00:03:47

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