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Pelo Norte Alentejano - (II) De noite todos os prismas são pardos

Assumo publicamente que sou um homem desobediente. Não fiquem escandalizados por mais um defeito, o “espécie” também tem uma quantidade de virtudes, apenas são inconfessáveis. Sempre que a minha mulher me solicita – “ajuda-me aqui com a louça” – escuso-me polidamente – “agora não posso, estou a ver o glorioso” – se a colaboração variar para – “dá uma limpadela ao pó” – tenho sempre na manga – “esqueceste as minhas alergias?”.

Perante tamanha série de atitudes de indisciplina, volta e meia tenho de condescender. Se ela faz questão que participemos nos sprints urbanos nocturnos, o género de percursos que adora, que remédio tenho senão marcar presença, é que desobediência conjugal tem limites.

Apesar de não me dar grande gozo correr, sinto alguma afeição por uma variante da corrida – o sprint puro e duro. Simplesmente, não morro de amores por andar nas voltinhas dos quarteirões (desestabilizam-me os neurónios) e então se a prova for nocturna…por amor de Deus!

Pois bem, contrariado ou complacente, compareci na quarentena do Palácio do Álamo, em pleno centro de Alter do Chão, devidamente preparado para a sessão da noite do NAOM. Para minorar os prejuízos oftalmológicos, muni-me dum duvidoso frontal da loja dos chineses, que eu esperava que não me deixasse às escuras (só pedia meia hora de autonomia), mas o risco era elevado. Afinal é mais uma prova de orientação e essa paixão já não posso negar e vai daí, todo o cuidado é pouco. – “Venham os “laranjinhas” que estou a ficar com nervoso miudinho!”.

A correria de dois mil metros, composta por duas partes distintas, apresentava dum lado o mapa da zona histórica, com escala de 5.000 (10 prismas) e do outro, o mapa do Jardim do Álamo (com mais 11 pontos), aumentando a escala para 1.000 (o ideal para ceguetas como eu). A fórmula parecia engraçada e desafiadora, assim eu tivesse um comportamento condizente.

Na realidade, nem me dou mal com sprints urbanos, mas a minha ansiedade diminui-me o raciocínio e cometo normalmente uns disparates, que são de todo injustificáveis. Vá-se lá saber porquê? No entanto, o maior problema que me aflige neste tipo de prova, é mesmo a minha deficiente visão. E nesta célere viagem por Alter confirmei os meus receios. Para mim, à noite, o laranja dos prismas não passa duma cor pardacenta. Se acrescermos o vermelho dos números, sobreposto ao cinzento e verde dos edifícios, mais o reflexo do plástico do mapa, fico tal e qual gato encandeado. Como é que um tipo consegue correr com desenvoltura, se nem vê por onde e para onde?

Não obstante as minhas limitações, aprestei-me para realizar a melhor prova possível, mas duas enervantes “brancas”, ainda na zona histórica, prejudicaram qualquer resultado aceitável. Ao picar o terceiro controlo, que por infeliz coincidência se situava no átrio exterior do hotel onde me encontrava hospedado, sofri uma “atracção fatal” proveniente do aconchego das suas salas, que me vi em palpos de aranha para decidir que opção tomar – entro para uma bebida reconfortante ou continuo a jornada noctívaga? (hehe, não acreditem, são desculpas de mau pagador, o castelo é que parecia ter mudado de praça)

Na progressão para a sexta baliza, sofri um ataque de vertigens com tanta hesitação – “pela direita ou pela esquerda?..não…pela direita…é melhor pela esquerda”. – “Pára com a idiotice, segue uma direcção…mas corre!”. Obedeci à consciência, mas já tinha perdido mais de dois minutos e acabei a “sprintar” como um desalmado pela viela acima, que até me deu o abafa (corrida à Zé Tolas).

Ao entrar para a zona do Jardim, fui envolvido por uma escuridão completa, atenuada pelos “pirilampos” das dezenas de atletas que enxameavam o espaço. Com tão fraca visibilidade, temi que me fosse estatelar nos canteiros ou espetar com os joelhos nalgum prisma, pois não me convinha esquecer, que de noite eles são pardos. Arrepiei-me todo (talvez fosse do frio), só de pensar que tinha de encontrar onze pontos no meio daquele breu. A tarefa ia ser complicada, mas com toda a certeza entusiasmante. Que jeito me daria uns sonares de morcego, hehe.

Ora pernadas longas (mas pouco), seguindo-se outras mais curtas (micro-pernadas), com trajectórias cruzadas e retorno aos mesmos locais, tendo pelo meio um jardim labiríntico, num vaivém alucinante, com constantes desvios para evitar potenciais choques na rapaziada, redundou numa charada espectacular, a deixar-nos completamente os olhos em bico. Importa realçar, que toda esta intensa e emocionante azáfama desenrolou-se numa área exígua, com excesso de detalhes, que obrigou a extrema perícia e algum desembaraço – o “trânsito” revelou-se pouco menos que caótico, neste verdadeiro ori-show.

Contrariamente ao que seria de esperar, atendendo à baixa luminosidade do local, a segunda parte correu-me bastante melhor. Para fazerem uma ideia da influência das asneiras iniciais, se o meu desempenho nas quelhas tivesse sido idêntico, subiria meia dúzia de lugares na classificação (mas o que é que isso interessa?). Contudo, o objectivo primordial tinha sido alcançado – não contrariar a vontade da minha mulher. 

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segunda-feira, 16 de setembro de 2019 – 12:39:08

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