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Há duas sem três

À primeira toda a gente cai; segunda cai quem quer…na terceira só um burro cai. A sabedoria popular deixa-me sempre estupefacto com a sua filosofia tão pouco abstracta.

Calma aí! Até sou capaz de vos ler o pensamento. Não tirem conclusões precipitadas porque se enganam redondamente, pois nesta saga, na realidade houve duas…mas não três “catástrofes”.

Não me lembro se já vos disse que sou um teimoso incorrigível, assim para o genético do avô paterno e decidi novamente voltar ao cenário do POM07, onde as minhas memórias são duma tristeza confrangedora. Os tipos do Ori-Estarreja dominam um tipo de sadismo (não será know-how?), que nós, os masoquistas militantes não estamos habilitados a contrariar. Se o seu XVII Troféu se iria disputar em Gestoso e Campo de Anta (o reino das “pedrolas”), que mais o “espécie “ poderia fazer senão inscrever-se? À terceira seria de vez? Finalmente teria um comportamento decente? A minha casmurrice asinina segredava-me que sim.

Entrei em estágio no sábado, para me preparar psicologicamente para o “embate” de Campo de Anta, fazendo falta de comparência na etapa de Gestoso, mas não deixei de enviar a minha mulher, para me ir controlando a nebulosidade local. Porque, como estão cansados de saber, nunca mais me apanham a “navegar” em etapa de nevoeiro (jamé!), pelo menos enquanto não adquirir uns “radares” mais eficazes.

“Olha, esteve um dia espectacular, uma paisagem de morrer! As “pedrinhas” até adquiriram uma tonalidade mais agradável.” – Comentário da minha mulher, no final da prova de sábado. Bom, ou ela me estava a enganar, ou no dia seguinte já teria um aspecto a meu favor – sol! As duas anteriores visitas foram efectuadas sob um nevoeiro intenso, que nem me recordava do aspecto do terreno, apesar de ter por lá pastado bastante tempo – um indivíduo tende a esquecer acontecimentos que o levem à depressão.

Li algures, uma opinião do maior orientista da actualidade, que considera este mapa como um dos melhores por onde passou. Se Gueorgiou o afirma, eu devo acreditar, mas sou o S. Tomé da Orientação – ver para crer – e até à data, ainda não havia descortinado a cor da carqueja.

Decidi começar o mais lento possível, no intuito de entrar no mapa mais rápido. Parece uma contradição, mas na prática funciona. O primeiro ponto, dos dezassete a que tive direito espalhados por 3.100 metros, encarrapitado na sua escarpa, apareceu cedo demais, o que me preocupou, dado que ainda não parecia ser aquela a altura própria. Engano meu. “Mau, isto começa mal” – já ia a discutir sozinho. De repente, “clic” – acende-se uma luz – “A escala é de 7.500 e não 10.000, seu artolas!”. Valeu-me este relâmpago, senão as “istórias” anteriores iam-se repetir.

Como sou um autodidacta, vou aprendendo com os erros passados e com alguma experiência acumulada (um empirismo desarrumado), resolvi dar mais importância ao relevo, concentrando a atenção nas célebres reentrâncias e curvas de nível e à vegetação diversa, tendo cuidado na análise das sucessivas transições dos verdes, amarelo e branco, desprezando, até onde fosse tecnicamente possível, as preocupantes “pedrolas”.

No ponto três, confronto-me com o primeiro contratempo. A reentrância foi identificada, a vegetação batia certa, mas a quantidade de pedra, ofuscou-me durante uns quatro minutos o encontro com a baliza, que por pouco não me atrofiei. O raio do mapa tem sempre razão!

Usando a táctica “caseira” a que me tinha proposto, fui progredindo lentamente (também não tinha outra hipótese, senão espalhava-me pela falésia abaixo), conseguindo dessa maneira que as balizas, obedientemente fossem respondendo à chamada, pelo menos até ao décimo ponto (este deu bem que fazer ao pessoal, mas não ao “espécie”, bem feita!). Logo de enfiada, cometo dois erros tecnicamente semelhantes. Nos controlos onze e doze (verdadeiros clones), avalio deficientemente o centro do círculo no mapa e procuro os “desgraçados” (deu-me cá uns nervos) no limite do branco para o amarelo em pleno afloramento rochoso e, no total das ditas pernadas, desbarato para cima de oito minutos (era de desconfiar tanto acerto).

Na Orientação, sendo uma modalidade de precisão, não basta encontrarmo-nos na vizinhança do ponto, é necessário ir ao local e dar-lhe uma “chipada”. Como tal, subi, desci e rebusquei as “pedrolas” uma imensidade de vezes, nunca me afastando mais de uns vinte metros. Mas num metro quadrado de cinzento pedregoso, podem esconder-se uma meia dúzia de prismas (mesmo sendo laranjinhas) e para mal dos meus pecados, este duo estava localizado na zona aberta, ao contrário da minha interpretação (ou visão?), que teimava em procurá-los na área arborizada.

Não obstante estes reveses, a prova decorria às mil maravilhas (para os meus objectivos… não sou o Albano), quando comparada com as paupérrimas prestações do ano transacto. O certo é que os pontos finais não geraram mais nenhuma complicação, para além do engarrafamento provocado por um grupo de vacas “pascácias”, que fez questão de me obstruir a passagem para o ponto 14, obrigando-me a uma gincana para evitar pisar os resíduos da ruminação do dia anterior (nhac!) e a fintar as pontas dos seus “chavelhos” (olé!).

Uma bela jornada do “espécie”, tecnicamente aceitável, no entanto algo solitária e desconsolada, pois quase não me cruzei com ninguém (não seríamos mais de noventa resistentes). Quanto ao tempo realizado, não podendo ser considerado no capítulo das grandes proezas, julgo que foi equilibrado, tendo em conta a exigência do traçado e deixou-me plenamente satisfeito, em virtude de ter alcançado o meu propósito, o de efectuar um percurso decente no mapa de Campo de Anta (o top da cartografia nacional). Não há duas sem três, mas à terceira foi de vez! 

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segunda-feira, 16 de setembro de 2019 – 12:55:58

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