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Algum (Bom) Sucesso

 
A pernada de saída oficial da época, que decorreu no Bom Sucesso, arredores da Figueira da Foz, fazendo jus ao nome, não poderia ser mais auspiciosa. O privilégio de desfrutar a beleza natural da Lagoa da Vela, condições climatéricas excelentes, arenas superiormente escolhidas, mapas novos em terrenos de floresta e duna, características bem ao gosto da maioria e a ausência (ou quase) de factos geradores da trivial crítica mordaz.
 
À oferta de qualidade que os companheiros do Ginásio Figueirense nos propuseram, através do seu Troféu Natura, respondeu a rapaziada de forma condigna, marcando forte presença na competição, tendo comparecido mais de quinhentas almas, desejosas de reactivar os SI`s, limpar o pó das agulhas magnéticas, dar "corda às sapatilhas", partirem à desfilada em busca dos "laranjinhas" e suar, suar em bica.
 
O percurso de sábado, traçado sobre distância (não muito) longa, que no meu caso rondava os 5.400 metros, com um ligeiro desnível e dezasseis pontos colocados de modo a não criar grandes problemas (para início de época foi uma benesse), teve o seu maior obstáculo nas surpreendentes temperaturas que se fizeram sentir (parti debaixo duns sufocantes 30º) e um terreno predominantemente arenoso. Eu até adoro dunas e estas nem eram muito empinadas, mas a areia infiltra-se na engrenagem e o meu motor fraqueja de imediato (velharias!).
 
Mal coloquei os pés na areia, fiquei com a impressão de que iria ter uma etapa de padecimento, tal era o bafo escaldante que se fazia sentir. Os primeiros pontos revelaram-se os mais complicados em termos físicos, dado que tínhamos de percorrer uma larga zona aberta, de abundante vegetação rasteira algo "quezilenta", que se fartou de implicar com as minhas pernas, sem qualquer "sombrinha" para nos proteger da inclemência da soalheira.
 
A extensa pernada para o ponto 4, cuja opção nos obrigava a utilizar um aceiro cerca de 700 metros, resultou terrivelmente desgastante e se não houvesse um providencial ponto de água (já estou por tudo) à saída do quinto ponto, não sei se teria capacidade para enfrentar os restantes controlos com suficiente discernimento. Nem consigo imaginar o que sofreu o pessoal, que partiu mais tarde e foi atingido pelo "corte de água" (um dos tais motivos a merecer reparo).
 
Ao penetrar numa área mais arborizada, as sensações melhoraram, os prismas foram aparecendo paulatinamente, já tudo rolava dentro da normalidade, quando entrei para a progressão de pontos situados em fossos (nono e décimo). Fossos ou linhas de água secas? Instalou-se a confusão no "departamento de análise cartográfica", que o aparecimento de traços azuis ainda veio complicar mais. Se o "9" ainda o apanhei à primeira, pois seguia em azimute e "esbarrei-me" com o dito, o seguinte fez-me perder uns preciosos quatro minutos (grrrr…e eu que vinha a realizar uma prova limpa). A profusão de sinalética a evidenciar os fossos, eu a cair num e a saltar outro, para me aparecer mais um pela frente e dois de lado, deixou-me à beira dum ataque de nervos (irra!...estou cercado, quem andou aqui a cavar tantas valas?).
 
Se pudesse anular o efeito destas armadilhas arreliadoras (felicito o traçador pela argúcia), estaria agora a brindar ao bom sucesso da prova do "espécie". Assim, consegui um tempo sofrível, ligeiramente acima da uma hora, que me deixou com amargo de boca (às tantas foi do pó), após constatar que alguns companheiros (dos que não me dão hipóteses) acabaram bem pior. No entusiasmo do momento e denotando certa dose de inconsciência, exclamo: – "Um dia destes, surpreendo toda a gente e ainda faço um bonito!" – promessa que decididamente não seria cumprida no dia seguinte.
 
Juro a pés juntos que li bem o programa. Uma segunda etapa de distância *média (?)* e onze pontos para controlar em 3.200 metros. Ai é? Pois fui enganado! A maior parte dos meus parceiros imprimiu uns alucinantes ritmos de sprint, deixando que os meus esforçados quarenta minutos se assemelhassem a uma soneca, quando comparados com as suas meias horas esfuziantes. Ora isto é considerado jogo baixo (senão mesmo anti-regulamentar), eles combinam dar uma de velocistas e eu, mais uns três ou quatro desconcentrados, resolvemos fazer uma "marchinha" matinal (fia-te na Virgem e não corras).
 
Bem vistas as coisas, ninguém me mandou derreter mais de três minutos logo no primeiro ponto, uma simples reentrância no desembocar dum trilho tão fácil que até complica. Depois, na procura do "114" (ponto 3, que por acaso parecia o mais exigente), andei ao longo da duna a passear e tropeçar nuns milhares de ramos e galhos mais uns dois minutos de borla. Quando assim é, temos o castigo merecido, mas continuo a afirmar, que me podiam ter avisado que de média, a etapa só tinha o nome (ena pá!..que falta de solidariedade).
 
Como vêem (ou não), estive tão perto do (meu) sucesso que quase lhe podia tocar. Na falta de melhor recompensa, contentei-me com um "Bom Sucesso" mais realista, usufruindo o melhor que pude da zona envolvente à sua aprazível lagoa, que é como quem diz, pondo os pés de molho nas águas cálidas, enquanto arrefecia uma deliciosa sopa de pedra.

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domingo, 15 de setembro de 2019 – 16:13:36

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