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Bragança: sugestões culturais

 

Exposições já disponíveis no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais e Centro de Fotografia Georges Dussaud

 

 

“UMAHORA VI”, de Túlia Saldanha

 

[Até 27 de Setembro no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais]

 

 

A obra de Túlia Saldanha (Peredo, Macedo de Cavaleiros, 1930 - 1988) desenvolve-se intensamente entre os anos de 1967 e 1988, acompanhando e refletindo as grandes transformações de uma época que então se abria à experimentação e a profundas mudanças.

 

Realizada a partir da utilização e combinação de meios de expressão muito distintos, a sua obra radica grandemente numa dimensão conceptualista e experimental, em plena sintonia com as linguagens internacionais. Túlia Saldanha foi uma das primeiras artistas portuguesas a trabalhar disciplinas como a performance, a instalação ou a criação de ambientes; práticas que exploraria a par do desenho e da pintura.

 

A sua criação artística, que muitas vezes se confunde com a própria vida, alicerça-se em marcas autorais muito vincadas e inscreve-se, de certo modo, num carácter transformador ou regenerador, em que os próprios objetos são submetidos a processos de mutação pelo fogo. O uso da cor preta e dos objetos queimados ou carbonizados, das caixas e das assemblages em malas de viagem, das pinturas de fundo negro ou as instalações-ambiente construídas em torno de refeições, são alguns dos traços dominantes da sua gramática artística.

 

Profundamente autobiográfica e reflexiva, no sentido em que é objeto de um constante questionamento de si mesma e até do sentido da vida, a sua obra traz, na origem, uma multiplicidade de evocações das memórias pessoais e fragmentos das vivências sociais em Trás-os-Montes. No entanto, estes referentes em nenhum momento procuram assumir-se como reproduções ou simulacros saudosistas do passado. A sua obra oferece-lhes uma nova possibilidade de existirem, transformando-os numa outra imagética, sobre os quais ancora a criação de um universo inquieto e profundamente simbólico, que se desenha numa trama de ligações e transformações capazes de ativar múltiplas leituras e sentidos.

 

Mas o seu percurso artístico não se esgota no trabalho individual. Pelo contrário. Confunde-se e desdobra-se, em muitos momentos, numa prática coletiva ou colaborativa, construída na relação com o outro, seja no âmbito expositivo, como performativo. Exemplo disso são algumas das ações performativas, como 100 horas a desenhar e 33 horas a desenhar, que realiza, em Coimbra e mais tarde em Lisboa, com o escultor alemão Robert Schad.

Esta conexão com o outro está ainda patente em algumas das obras que apontam para a relação com importantes figuras como Ernesto de Sousa ou Wolf Vostell, que marcariam profundamente a obra e carreira e a ligariam aos novos preceitos e posicionamentos de vanguarda.

 

A presente exposição vem na sequência da antológica apresentada em 2014, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e no Museu Vostell Malpartida, em Espanha, em 2015, e reúne um número significativo de trabalhos, capazes de convocar não só as principais linhas de trabalho de Túlia Saldanha, mas também a pluralidade de temas e disciplinas de um percurso artístico construído, ao longo de duas décadas, entre uma prática individual e coletiva e que, em grande medida, está ainda por descobrir.


Curadoria: Jorge da Costa

Produção: Município de Bragança / Centro de Arte Contemporânea Graça Morais

 

GEORGES DUSSAUD: VIAGEM À ÍNDIA E OUTROS LUGARES

 

[Até 28 de março de 2021 no Centro de Fotografia Georges Dussaud]

 

 

Depois de uma série de trabalhos fotográficos realizados em países como Portugal, Irlanda ou Grécia, Georges Dussaud (Brou, França, 1934), aventura-se, em outubro de 1993, numa demorada viagem pela Índia, de que resultaria um impressionante e prolixo corpo de trabalho. 

 

Como qualquer viajante experiente, Dussaud sabe que esta jornada pela Índia nunca será uma viagem banal, capaz mesmo de abalar o entendimento que até então se tem do mundo. A experiência mostrar-se-á tão marcante e tão diferente de tudo aquilo que já vira e fotografara que, entre as décadas de 1990 e 2000, sempre na companhia de Christine Dussaud, regressará à Índia mais quatro vezes.

 

De norte a sul, e no seu modo habitual de deambulação e errância, visitou várias cidades e estados deste “país-continente” (o segundo mais populoso do mundo), feito de abissais contrastes sociais e onde parece não haver fronteiras entre o sagrado e a vida quotidiana.

 

As 52 obras que agora se apresentam, das muitas centenas que aí realizou, são testemunho de algumas dessas extraordinárias jornadas e dos milhares de quilómetros percorridos, na contingência de encontrar, através da fotografia, o sentido de um universo tão diverso e tão complexo, como misterioso.

 

 

Entre imagens de puro encantamento e situações difíceis de suportar, a jornada seria bem diferente da experiência negativa que conhecera pela obra “O Cheiro da Índia”  (relato da viagem que o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini fizera à Índia, em 1961, na companhia do casal de escritores Alberto Moravia e Elsa Morante),  mas também bem longe da atmosfera poética que guardava do protagonista do filme “O Livro da Selva”,  a criança indiana que montava o dorso de um elefante, que vira na infância, a preto e branco, e que terá estado na origem deste fascínio pela Índia.

 

Crianças, vira-as às centenas a mergulhar nuas no rio, tal como vira os elefantes, deitados na água, a receberem placidamente os cuidados dos seus tratadores ou, majestaticamente engalanados, no meio das desmedidas e ruidosas multidões que, todos os anos, se reúnem para participar nos festivais religiosos do Estado de Tamil Nadu.

 

Nas suas fotografias, feitas de vários mundos simultâneos, não faltam também as arquiteturas sumptuosas de templos e mausoléus, como o Taj Mahal, em Agra; o bulício e o caos dos mercados apinhados de gente em Calcutá, onde as imagens de miséria, como as de bandos de crianças maltrapilhas, parecem coexistir pacificamente com as da opulência e da felicidade; a solenidade dos rituais de purificação dos homens e mulheres que diariamente se banham nas margens do Rio Ganges; ou, mais a fundo, quase na intimidade, a austera disciplina exigida aos bailarinos-atores, praticantes de danças e artes marciais ancestrais, como Kalaripayattu, perpetuadas por grupos de jovens eleitos que vivem em clausura durante os seus duros anos de treino, na região de Kerala.

 

Apresenta-se ainda, na última sala, um conjunto de fotografias que Georges Dussaud realiza entre 1991 e 1995, no condado de Mayo, na Irlanda. As paisagens, o quotidiano da vida no campo ou a vida animada dos icónicos pubs associam-se aqui a outros registos, como o da dimensão religiosa, particularmente a epopeia dos milhares de peregrinos que, anualmente, num ato de fé, sobem descalços até ao ponto mais alto de Croagh Patrick, a montanha mais sagrada da Irlanda.

 

Curadoria: Jorge da Costa

Produção: Município de Bragança / Centro de Fotografia Georges Dussaud

 

 

Periodicidade Diária

sexta-feira, 7 de agosto de 2020 – 21:15:18

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