Serpa situa-se no Baixo Alentejo, no distrito de Beja, na margem esquerda do rio Guadiana, ocupando uma área de 1106,5 km2, distribuída por 7 freguesias (Brinches, Pias, S. Salvador, Santa Maria, Vale de Vargo, Vila Nova de S. Bento e Vila Verde de Ficalho).
Dista da sede de distrito cerca de 30 km, servindo de fronteira à sua região o
rio Guadiana, a oeste, o rio Chança, a este, e os concelhos de Moura, a norte, e
de Mértola, a sul.
Enquanto unidade administrativa, o concelho remonta ao século XIII, não se
encontrando nos seus limites correspondência com nenhuma unidade social,
política, económica, cultural, jurídica de períodos anteriores. Por isso, o
quadro estruturante de populações anteriores à constituição do concelho,
qualquer que seja o parâmetro tomado como referência, não se compreende na
rigidez desses limites.
Serpa, terra fronteiriça de conflitos frequentes, era, às vésperas da
"Reconquista", um povoado fortificado importante, dominando férteis terras de
cultivo. A velha muralha, implantada no cume de uma pequena elevação, delimitava
uma área com cerca de 21000 m2. Nos finais do século XIII, D. Dinis, num esforço
de reorganização cristã do Alentejo, refunda a vila muçulmana e manda construir
de raiz o alcácer e uma imponente Cerca urbana com 65000 m2.
É bem possível que a própria torre sineira da Igreja de Santa Maria, que envolve
no seu interior uma estrutura cilíndrica, seja o testemunho vivo da almádena da
antiga mesquita.
Sinais do passado islâmico conservam-se ainda nalguns troços de muralha em taipa
e em duas torres: a da Horta, parcialmente reaproveitada nas obras do castelo
gótico, e a do Relógio, transformada em 1440 em torre relojoeira, ao que se
supõe, a terceira mais antiga do país.
A primeira representação iconográfica de Serpa é composta pelos desenhos de
Duarte de Armas feitos, por encomenda régia, no início do século XVI. Duarte de
Armas fixou a imagem do espaço urbano tardo-medieval registando duas
perspectivas de Serpa (da banda de leste e da banda do oeste) e uma planta da
fortaleza. Retém-se, assim, a imagem de uma vila contida por dupla cintura de
muralhas, a muralha principal e a barbacã, em que poucas são as casas com menos
de um piso, o que significa que pertenciam a "fidalgos, cavaleiros e escudeiros
e outra gente grossa". A cerca, que evidencia um traçado de tendência reticulada
que permanece ainda legível no actual núcleo, surge interrompida por três portas
que tomam o nome dos caminhos que delas partiam: Beja, Moura e Sevilha.
Nesse século XVI, a vila de Serpa apresentava-se como centro urbano de certa
importância no contexto sub-regional. Na primeira década da centúria, o povoado,
com cerca de 500 fogos (2 500 habitantes) já se havia expandido extra-muros, em
direcção à Igreja de São Salvador, abrindo-se para o efeito a Porta de São
Martinho e edificando-se uma ermida sob a mesma evocação.
Dos edifícios criados nesse período, prova do efectivo crescimento do aglomerado, destaca-se, em 1502, a Igreja de São Francisco, feita sob risco do arquitecto Rodrigo Esteves, e o Convento de S. Francisco.
Também nos alvores de Quinhentos, em 1505, é erguido o complexo da Misericórdia,
que incluía "igreja pequena, mas notavelmente adornada de talha e ouro, pedra
fingida e fino azulejo".
Poderão ainda datar dos primeiros anos do século XVI as ermidas de São Pedro,
São Sebastião, Nossa Senhora de Guadalupe e São Roque, edifícios característicos
da interpretação regional da linguagem manuelina.
Nos finais da centúria ergue-se, no lugar de uma capela dedicada a Santo André,
a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, que reflecte a arquitectura do maneirismo
pós-tridentino regionalmente implantada. A marcada austeridade exterior
contrasta com a sumptuosidade do barroco que se descobre no seu interior, na
azulejaria polícroma e no retábulo de talha dourada de 1681-1683.
Sobre o pano Este da muralha medieval, nos últimos anos do século XVI, Francisco
de Melo, alcaide-mor de Serpa, manda construir o edifício que dá hoje pelo nome
de Palácio dos Condes de Ficalho, construção onde é patente uma grande
austeridade e a continuação de soluções maneiristas, depuradas, que caracterizam
o designado estilo chão, mas onde se sente o espírito barroco na relação com o
tecido urbano.
Para levar água em exclusivo ao palácio foi levantado sobre o mesmo pano da
muralha um aqueduto sobre arcada de vão redondo que continua até à extremidade
Sul, onde remata numa gigantesca nora apoiada no bocal de um poço.
Depois dos conturbados anos que se seguiram à Restauração, anos de guerra e de
consolidação da independência, a vila de Serpa é palco de novo surto construtivo
marcado, naturalmente, por preocupações de defesa, mas não só.
No século XVII tem lugar a reconstrução, concebida em solução maneirista, das
igrejas de São Salvador e de Santa Maria, edifícios cuja construção remontava ao
século XIV, pois há a certeza de já existirem em 1406, mas que conservam dessa
época vestígios esparsos.
Construções de raiz deste ciclo tardo-maneirista, a Igreja e Convento de São
Paulo foram iniciados nos finais de Seiscentos a expensas do benfeitor Manuel
Fialho, um natural da vila que "mandou das Índias de Castela, onde era muito
rico, um donativo tão grande para a obra do convento, que se erigiu formoso
templo pelo risco da igreja dos Paulistas da Corte, ainda que menos grande e
menos sumptuoso". As obras prolongar-se-iam pela centúria seguinte.
Nesse final de século ergueu-se ainda o Calvário, edifício de planta circular e
cobertura em cúpula, com pedras irregulares incrustadas nas paredes exteriores,
de marcado pendor vernacular, e a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em
estilo chã, que possuía "capela-mor cheia toda de agradável e custosa talha
dourada".
Como resultado da participação de Portugal na Guerra da Sucessão de Espanha, a
vila foi tomada em 1707 pelos espanhóis, que se retiraram no ano seguinte não
sem antes provocarem grandes danos, sobretudo no castelo e na cerca urbana.
Aliás, a explosão da torre de menagem produziu umas belas e surpreendentes
ruínas.
Ao contrário do resto do país, a população da vila não aumentou ao longo de
Setecentos, talvez devido à excessiva sensibilidade da economia local às
flutuações da produção de trigo, que criaram inúmeras situações de crise,
sobretudo na segunda metade do século.
Apesar de tudo, a urbe não perdeu importância social. Em 1758 eram registados
5576 habitantes,e via-se ser vila "notável e de avultado crédito" pelas "casas
das pessoas de primeira grandeza".
O surto construtivo parece ter esmorecido nesta época e, ao contrário do que
aconteceu em outras zonas do país, os danos provocados pelo terramoto de 1775
foram de pouca monta, não obrigando a obras de envergadura. No entanto, poderá
datar desta centúria a remodelação da igreja da Misericórdia e da igreja de
Santa Maria. Não se pode também esquecer que no final de Setecentos é construída
intramuros a igreja de Nossa Senhora do Carmo, conhecida por Santuário,
interessante testemunho da arquitectura neoclássica no Baixo Alentejo.
Capelas, igrejas e conventos não faltam, pois, não só na cidade e seus
arrabaldes como em toda a dimensão do termo do concelho. Espalhados pelo
território encontram-se vários exemplares de arquitectura religiosa popular de
feição regional datados do século XVI. Há que referir, assim, a Ermida de Santa
Luzia, a cerca de 2 km de Pias, na estrada para Moura, a Ermida de Santana, que
conserva praticamente íntegra a sua estrutura original de inícios de Quinhentos,
a Igreja Paroquial de Santa Iria, pequeno templo paroquial que apresenta
pinturas murais maneiristas atribuídas a mestres eborenses, a Ermida de São
Jorge e a Ermida de Nossa Senhora das Pazes, em Vila Verde de Ficalho, a Capela
de Nossa Senhora da Consolação, em Brinches, templo mariano quinhentista
remodelado no século XVIII, e a Igreja Matriz de Brinches, construção
tardo-medieval onde se destaca um excelente portal maneirista, a Ermida de São
Brás, na estrada Serpa-Pulo do Lobo, a Igreja de São Sebastião, em Vale de Vargo,
edifício manuelino que sofreu obras no século XVII, e, apesar de muito
arruinada, a Igreja de Santo Estevão.
Mais tarde, no século XVIII, edifica-se em Vila Nova de S. Bento uma Igreja
Matriz, templo barroco reconstruído nos inícios do século XX, e, sobre vestígios
de uma igreja manuelina, junto ao cemitério da vila, a também barroca Igreja de
São Bento.
A Igreja Matriz de Vila Verde de Ficalho, cuja construção arranca nos finais da
centúria de Setecentos, apresenta pontos de contacto estilístico com a igreja de
Nossa Senhora do Carmo, em Serpa,
Não ficaria bem rematar o rol monumental do concelho sem uma menção aos moinhos
de corrente do Guadiana, Chança e Enxoé, jóias da arquitectura popular, bem como
às ruínas das velhas torres de vigia ou atalaias e à Torre Sineira de Pias,
erguida no século XIX, e que pertencia a uma igreja que nunca chegou a ser
concluída.

No concelho de Serpa, a chegada da Primavera é celebrada, de forma especial, com
a festa em honra de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira oficial do concelho a
partir de meados do século XX. O seu culto nestas paragens deverá remontar ao
século XIV. A ermida que lhe é dedicada, no ponto mais alto da povoação, a cerca
de um quilómetro para sul da cidade, data do início da centúria de Quinhentos.
Noutros tempos, os festejos em honra de Nossa Senhora de Guadalupe realizavam-se
na ermida e compreendiam duas festas: a "dos homens", por ocasião da Páscoa, e a
"das mulheres", pela época das vindimas. Isso porque, segundo se pensa, só
indivíduos do mesmo sexo podiam agrupar-se em confraria.
Provavelmente em 1870, as duas irmandades fundiram-se e, desde então, celebra-se uma só festividade em cada ano, a da Páscoa.
Existem relatos e ex-votos que dão conta de inúmeras graças atribuídas à
intercessão de Nossa Senhora de Guadalupe, por quem o povo nutria especial
devoção e a quem recorria em momentos de aflição. Por exemplo, perante o flagelo
da seca e da fome, como aconteceu em 1868.
As festas de Serpa revestem-se, assim, de antiquíssimos rituais e compreendem
manifestações importantes de carácter religioso e etnográfico. Iniciam-se no
Domingo de Páscoa, à tarde, com a procissão de recepção à imagem de Nossa
Senhora de Guadalupe, que desce da sua ermida até à igreja do Salvador.
Nesse dia, um dos pontos altos da festa é o participado cortejo histórico-etnográfico, desfile em que centenas de figurantes a pé e em carros alegóricos recriam a evolução histórica do concelho e mostram os usos e costumes locais.


Na segunda-feira, de manhã, celebra-se a missa solene em honra da padroeira e, à
tarde, tem lugar a procissão magna que percorre o costumado itinerário pelas
ruas da cidade, previamente atapetadas de rosmaninho, e recolhe à igreja do
Salvador.
Na terça-feira, em majestosa procissão, a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe é
reconduzida à sua ermida no Alto de S. Gens.
Nos três dias de festa, a cidade, engalanada para receber os muitos forasteiros
que a procuram, é também palco de um vasto programa de actividades culturais.
Fonte: Câmara Municipal de Serpa
Fotos: CVR (AMMA)
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