Tenho plena consciência que vou desagradar a uma
meia dúzia de amigos, mas vendo a questão por outra perspectiva, devo obter o
apoio de pelo menos uns seis milhões, que são os sessenta por cento de
portugueses, que preferem o vinho maduro ao verde (se estavam noutra “onda”,
esqueçam).
O fim-de-semana foi todo ele em tons de verde. Dado que me tinha de dirigir para
Alcochete, localidade onde pontifica uma exacerbada “aficion” pela festa brava e
se homenageia a figura do forcado, na célebre romaria do “barrete verde”,
necessitei de ingerir umas pastilhas (por sinal encarnadas), para servir de
antídoto ao imenso verde que se avizinhava. Por favor não tirem conclusões
precipitadas, destas minhas palavras, pois não tenho qualquer aversão ao verde
(então se for fresquinho…), mas que esta cor me preencheu completamente o
fim-de-semana, é verdade.
Na viagem para o Campo de Tiro de Alcochete, onde os Amigos de Mafra nos iriam
receber para mais uma prova nacional, procedi a um ligeiro desvio, para colocar
uma velinha em Fátima, no sentido de “Alguém” estar atenta, ao que se iria
passar nos dias seguintes. No regresso, fui obrigado a comprar uma resma de
círios, para pagar a benesse concedida. Terra abençoada que só me dá alegrias (hehe).
Quero esclarecer que em termos de orientação, o pedido não surtiu qualquer
efeito. “Se queres resultados, não te armes em pastor e corre”. Quando me
apercebi da comissão de boas vindas, logo na entrada do perímetro militar,
composta por umas “trezentas e vinte e quatro ovelhas” ou mais, comentei para a
minha mulher: - “Isto cheira-me a agoiro”. Ou então os “Amigos”, com alguma dose
de humor negro, quiseram deixar a mensagem “Pastores sejam bem-vindos, os
rebanhos já cá estão”. Eles lá sabiam o que nos tinham reservado.
A abrir as hostilidades, na margem da albufeira da barragem de Vale de Michões,
fui confrontado com um percurso de distância média, com características
diferentes do habitual, composto por três “loops”, ou pétalas, ou borboleta, ou
“vou ali e venho já” ou simplesmente voltas. O ponto 131 foi o centro das
atenções, e também resultou num grande “trinta e um “ para umas dezenas de
concorrentes. O caos de “trânsito” que se gerou em cada volta, com o chegar,
picar, beber água, sair e daqui a pouco tornar a vir, deixou muita gente à beira
de um ataque de nervos, quando no final lhes foi apresentado um “mp” de
distracção.
Apesar de ser um “cabeça no ar”, não me apanharam nessa ratoeira. O que apanhei
foi um agressivo “enxame” de ouriços (picavam à brava), que se me agarraram ao
“uniforme”, na travessia de uma qualquer imensa zona “verde” e para não perder
mais tempo, tive de carregá-los até à chegada. Claro que o peso acrescido destes
espécimes, fez atrasar a passada do “espécie”, senão nunca teria sido
cronometrado com aquele tempo vergonhoso, a rondar os 58 minutos. Bem vistas as
coisas, o que me deve ter penalizado foram os dois encontros com a minha mulher,
em outras tantas pernadas. Não posso passar por ela e fazer de conta, não é?
Acresce ainda o facto de termos os mesmos percursos (coincidência do “arco da
velha”). Mas o “matar saudades” fez-me perder a concentração e levei um “abono”
de dez preciosos minutos. Já na parte final, para picar o ponto 19, junto a uma
árvore (provavelmente o mais fácil do percurso, mas enganador), tive necessidade
de “controlar” outras duas (nem um canídeo em hora de aflição), resultando num
acréscimo de três minutos ao pecúlio das “pastorícias”.
Sonhei que no dia seguinte a prova me iria correr melhor (imperava o verde
esperança). Os terrenos eram os mesmos, com a variante desta vez, de
percorrermos quase todo o perímetro da albufeira, que para o meu escalão
correspondia a uns 6.000 metros e que a somar aos quase cinco do dia anterior,
pressupunha alguma gestão de esforço, o que em termos pessoais se traduzia em
gerir as canseiras acumuladas (sonhar não custa).
Entrei no mapa com o pé esquerdo. Dei logo de caras com mais um imenso verde,
isto é, uma enervante vegetação rasteira, que não sendo intransponível, tinha
características de “gola alta”. O ponto situava-se nas cercanias duma árvore,
que tinha tal porte, que a dita vegetação a tapava por completo. Mas ela estava
lá! (pertencia à família das Bonsai, hehe) E com este percalço foram cinco
minutos “à vida”.
Se em condições normais, a minha progressão se rege por níveis de velocidade,
assim para o “Dona Elvira”, façam ideia do esforço que despendi para ultrapassar
o listado verde do mapa. O “espécie” decidiu fazer orientação em azimute puro e
duro, portanto não deveria haver arbusto que me atrapalhasse (nem os de tamanho
XL). Atendendo à quase inexistência de relevo e de caminhos, e à distância longa
de várias pernadas, a táctica parecia ser a mais adequada. E seria, se não
estivéssemos em presença da “espécie de orientista”.
O raio dos azimutes nos pontos 3 e 6 estavam “fora de prazo”. Bem, no ponto 6,
por sinal uma clareira bem pertinho do final dum caminho, pastei para cima de
sete minutos. Inadmissível! Baixei o mapa (erro de maçarico), tendo conseguido
encontrar (antes da minha, note-se), pelo menos umas dezassete clareiras num
raio de cem metros (ainda entro para o Guinness). Entretanto já tinha alcançado
a minha mulher, que para castigo de ter atascado, deixei-a vir de boleia dois
pontos (ficou nas lonas). Um beijo de despedida (virtual…não pensem coisas) e
“tchau” que a gente vê-se no final. As minhas “diabruras”, felizmente terminaram
no ponto oito, que coincidiu com a diminuição da distância das pernadas, onde me
adapto melhor, vindo a originar um final de prova, mais próprio de um orientista
do que de um “espécie”.
Sinto uma certa relutância em abordar aspectos de ordem organizativa ou técnica,
costumo deixar essas análises aos “experts”, e até já manifestei publicamente a
minha admiração, por quem mete ombros a essas tarefas, mas houve dois pormenores
que me deixaram com a “pedra no sapato”. O facto do triângulo, na etapa de
sábado, ao ser colocado a escassos cinco metros das partidas, ter originado uma
tremenda confusão, mas por outro lado, permitir uma visibilidade à passagem dos
concorrentes nos loops, que não é habitual. A ideia parece positiva, o resultado
deixa-me dúvidas. A outra situação tem a ver com os pontos de água do segundo
dia. No meu escalão, o mapa assinalava dois locais, mas que distavam do trajecto
ideal uma centena de metros, que obrigava quem necessitasse de se hidratar, a
fazer duas pernadas extra. Como já levava nas pernas metros suficientes, resolvi
não me desviar, e finalizei mais sequinho que a albufeira da barragem vizinha.
Irra…que sufoco!!!
PS: Vou proceder a um acto de contrição. Confesso que a percentagem vinícola
inicial é falsa. Era mesmo sobre aquilo que estavam a pensar (somos mesmo
muitos!). Foi só um estratagema, para a malta afecta à “minoria” não terminar,
logo no início, com a leitura do texto, hehehe.