“A orientação pratica-se onde um homem quiser”.
Uma frase que paga direitos de autor, mas que não me cansa relembrar.
Se havia a convicção de que tudo estava inventado nesta modalidade, vamos ter de
reformular algumas premissas, porque o Park Matosinhos Tour de 2008 veio
acrescentar mais uma variante, o denominado “Orient-Show” em praia.
Ah pois é! Agora também irá fazer parte da mochila de orientista, o protector
solar 50, o inevitável guarda-sol, a colorida toalha de praia e o belo do fato
de banho (ou tanga para os mais ousados). Pelo menos os “espécies” vão aderir em
força a esta nova modalidade ou não sejam exímios em tudo o que diga respeito a
“turismo” (hehe).
Já não será surpresa para ninguém, o arrojo demonstrado pelo GD4C, nestas provas
de âmbito local. Se bem me lembro, o ano transacto conseguiram a proeza
logística de realizar quatro etapas num só dia. Para não ser tão cansativo (?),
este ano baixaram a fasquia para três mapas, mas em contrapartida, idealizaram o
que pode ser considerado como uma autêntica “pedrada no charco”.
Tenho de tirar o chapéu (no meu caso, o boné), ao autor da genial ideia de
transformar um simples areal de praia, num local mais que improvável, para a
prática de orientação ou o que quer que “aquilo” se chame. Imaginação e
criatividade foram a tónica dominante. Todos os pontos estavam bem à vista,
associados aos mais variados elementos, como um eficiente pára-vento, a mesa da
merenda, as célebres covas da areia (buracos e depressões), os montes do tipo
“castelo” (cotas), insufláveis publicitários, várias grades, uma mini-duna na
chegada (sádicos), enfim, tudo serviu para elaborar diferentes percursos, que
colocaram cabeça, pernas e as vistas dos concorrentes numa roda-viva.
Mas a grande mais valia desta curiosa invenção, esteve na extraordinária
visibilidade proporcionada a um evento de orientação, funcionando tal qual uma
operação de charme. Quantas vezes lamentamos o facto de concentrarmos umas
largas centenas de atletas num dado local, mas que só os vizinhos ou
proprietários dos terrenos têm conhecimento? Passamos completamente
despercebidos.
Ora, neste caso, despercebidos é que não conseguimos passar. Cerca de três
centenas de praticantes, a maioria adolescentes extrovertidos, evoluindo na
praia dum lado para o outro, numa estranha coreografia perfeitamente
sincronizada, não podiam deixar de chamar a atenção a quem passava ou àqueles
que se encontravam nas esplanadas (os gigantes insufláveis e o “speaker todo o
terreno” deram uma valente ajuda). Até os surfistas se desentenderam com as
ondas ao prestarem atenção às nossas corridas ziguezagueantes.
Como divulgação da modalidade, foi a melhor acção que alguma vez se realizou por
estas bandas. Há quem vá mais longe e afirme, no que concerne à promoção da
orientação, terá sido a ideia mais conseguida a nível nacional. Vamos aproveitar
esta semente e fazê-la germinar. Claro que para isso, tem de haver alguma
concertação entre os clubes e federação, mas estou em crer que este conceito tem
pernas para andar, haja “vontade política”.
É verdade! Quase me esquecia que se desenrolaram outras duas etapas, estas em
mapas, mais condizentes com a orientação clássica. O dia começou com um
aquecimento técnico (1.500 mts) na magnífica Quinta da Conceição, para de
seguida irmos a banhos ao tal “show” em Leça (700 mts que valeram a dobrar, uff!!!)
e finalizarmos o “tour” deste ano, no bem conhecido Parque do Carriçal mais o
“labirinto” das vivendas das Sete Bicas (2.300 mts).
Sobre a Quinta e o Parque, sendo “amigos” de longa data do “espécie”, pouco há a
acrescentar; foram duas etapas percorridas sem sobressaltos (era só o que
faltava, pedia a reforma!), tendo até feito um “bonito” na primeira. Agora,
quanto ao entretenimento da beira-mar, o caso muda de figura.
Conseguem imaginar este quadro? O “espécie de orientista” calcorreando o imenso
areal, desfrutando a maresia, fazendo negaças às ondas que teimosamente lhe
vinham molhar as sapatilhas, procurando aqui e além conchas, búzios, pulgas da
areia…ah!...e prismas laranjas? Este cenário até seria sensacional, se a busca
se resumisse aos espécimes marinhos (onde param as sereias?). Mas quando toca a
seguir mapas e perseguir balizas, tudo deve ser executado com velocidade e
concentração. E correr na praia sem distracções, não é decididamente, tarefa
fácil.
Sendo a primeira experiência em orientação “turística”, não poderia deixar de
colocar a minha marca, nesta original prova. O ambiente de praia, mar,
esplanadas, esbeltas transeuntes e…o ponto “74” marcado a dobrar! Acabei os oito
minutos e uns “trocos” completamente fanado (com a língua pela areia) e
dizem-me, com a maior “cara de pau”, que não piquei o “70”? Estes tipos lá
porque organizam provas especiais, não têm o direito de esconder pontos aos
“espécies”, ou têm? Com que objectivo colocaram essas duas balizas tão próximas?
Assim zango-me…não vale enganar (hehe).
Na minha modesta opinião, tudo não passou de uma estratégia para dar
credibilidade ao “show” de orientação, porque nada valoriza mais uma prova, do
que uns “mp`s” bem apanhados. Mas porquê eu?
Pronto, já chega de brincadeira. Confesso a trama urdida entre o “espécie” e a
organização. Foi tudo combinado (espero não ser processado). Se outro atleta
qualquer fizesse mp, ninguém acreditaria, agora com o “espécie de orientista” é
outra conversa. O que eu não faço em benefício da minha modalidade! – “Eu
disse já chega de brincadeira!!!!!”