O que mais as abnegadas organizações ainda terão para oferecer aos estóicos participantes de provas de orientação?

A frase que ouvi algures, de que a “orientação se pratica onde um homem quiser”, continua a ser uma máxima para a modalidade, contrariando no entanto, algumas ideias mais conservadoras, que defendem a orientação pura e dura nas florestas. Agora o que ninguém pode duvidar, é que a melhor forma de divulgar o “melhor desporto do mundo”, passa necessariamente pelas provas em parques ou zonas urbanas.

E esta foi a fórmula escolhida para o Troféu de Orientação do Porto e O`Porto Park Race. Três etapas percorridas noutros tantos parques, congregando umas largas centenas de atletas, uns provenientes do Desporto Escolar, os digníssimos orientistas e os não menos importantes “espécies”.

Uma jornada heróica, em condições diluvianas, que terá afugentado pelo menos um terço dos inscritos, mas o estoicismo da malta que marcou presença é de tal ordem, que se manteve impassível perante a falta de respeito do S. Pedro. Se julgavam que as provas “aquáticas” eram do foro exclusivo do Ori-Estarreja, esqueçam, pois o GD4C passa também a fazer parte desse grupo restrito. Podem escrever o que vos digo “chuva civil não molha orientista” (bem…ensopa um bocadinho, mas sabe tão bem).

Os locais onde se desenrolaram as provas, terão sido para a maioria uma agradável descoberta. Parque da Pasteleira, Palácio Cristal e o intocável e elitista Jardim de Serralves, constituíram o “triunvirato” em que a organização se baseou para estes memoráveis eventos.

Ninguém no Porto, poderia acreditar que alguma vez, se pudesse assistir a uma imensidade de orientistas espalhados pelos belos e bem tratados jardins de Serralves, a vasculhar tudo que fosse cor de laranja. Esta façanha só poderá ser comparável a uma futura prova nos jardins do Palácio de Belém, hehe (claro que não me esqueço da prova no Parque da Pena que foi também um feito extraordinário). Só mesmo a rapaziada da orientação consegue a proeza de levar os seus atletas ao coração de verdadeiros santuários.

Este género de provas, com característica de sprint, são normalmente de exigência técnica acessível, mas em termos físicos o nível é bem mais elevado. E depois sobressai outra “lei” que se aplica à orientação como uma luva, “depressa e bem há pouco quem…” que traduzido dá “correr bem, mas raciocinar melhor”.

O Parque da Pasteleira, com os seus relvados em sobe e desce (perigosamente escorregadios), várias zonas com equipamentos infantis, estátuas, arbustos dispersos, pontes e uma interminável rede de caminhos, complicou a vida aos menos precavidos e contrariou a tão propalada facilidade, dando origem aos aterradores “mp`s”.

O espécie “nadou” o melhor que pôde, mas a falta das barbatanas fez a sua mossa. Não queiram saber a quantidade de água a que estive sujeito. Senti até alguma dificuldade em respirar (se calhar pela falta de treino, não por afogamento). Uma ou outra hesitação com o raio dos caminhos…dos baloiços…dos chafarizes…e quase patinava no lamaçal inclinado do 45, mas não faltou aqui quem praticasse o “lama-board” (velhos tempos, hehe). As constantes mudanças de direcção, quase me provocaram ouras, que me iam fazendo perder o norte no emaranhado dos pontos 15 a 19.

Encharcado e feliz da vida (não fazia uma prova há seis semanas!), não consegui melhor que uns confrangedores 19 minutos, mas nem tive tempo para pensar muito no assunto, pois tínhamos de seguir de imediato para a etapa seguinte no Palácio Cristal. Quem irradiava felicidade era uma das minhas filhotas, que tinha acabado de fazer o seu baptismo na orientação, sem a muleta paterna. Teve uma prestação muito acima do esperado (não vai sair ao progenitor).


É sempre agradável voltar a um local onde se foi particularmente feliz. Portanto, este regresso aos jardins do Palácio, constituiu para mim um enorme prazer. Não estejam a imaginar situações embaraçosas, porque a minha excitação prende-se com a recordação da surpreendente prova do ano passado (suas mentes doentias).

Novamente a prova do Palácio foi simplesmente espectacular e arrasadora no aspecto físico. Um traçado que nos obrigou a percorrer todos os recantos do parque, assemelhando-se a uma verdadeira visita guiada. Apesar de já conhecer o mapa, o percurso apresentou-se completamente diferente e deu para constatar um fenómeno, no mínimo intrigante e de difícil explicação científica: as escadas reproduziram-se!!! Aquilo é que foi subir e descer; um nunca mais acabar de degraus. Não subi alguns de gatas por vergonha (hehe).

A chuva continuava a cair com tal intensidade, que no ponto 81 junto ao torreão, formou-se um lago, que para picar a baliza tive de molhar as canelas (que por acaso é uma coisa que me chateia, porque com pés frios desconcentro-me). Quando começava a aquecer, no ponto da ilha (84), atolo-me na lama e fico com aspecto de verdadeiro orientista (bem feito, não te armasses em fino!) e na sequência, por um triz era atacado por uma pata, que furiosamente defendia os seus domínios (mania a nossa de invadir propriedade alheia).

Mal completei a prova (27 minutos muito razoáveis), a bátega de água que me perseguiu todo o percurso e me deixou como um pintainho parou, e o sol aparece a dar um arzinho da sua graça (oh S. Pedro! estas malandrices não se fazem!). Para satisfação de “pai babado”, surge a minha filha toda eufórica, com um tempo superior ao da Pasteleira. Ai que a moça está a sair da casca! (vou esperar para ver)