A terapêutica aplicada estava a surtir efeito.
Acordei com uma disposição excelente, preparado para “papar” os quilómetros que
fossem necessários, escalar as dunas mais movediças ou transpor a vegetação mais
agressiva. Desconfio que o alto astral, estava influenciado, por no dia
anterior, em Peniche, ter lutado arduamente com uma saborosa caldeirada de
peixe, enquanto assistia ao naufrágio do “glorioso” diante do “gipsy team”
nortenho.
Mal arranquei para a segunda fase do “tratamento”, caí na asneira de analisar as
pernadas (coisa que nunca faço), e fiquei apreensivo. “Valha-me Deus! Estes
tipos querem acabar com a espécie de orientista, seis ou sete pernadas com mais
de quinhentos metros!”. Engoli em seco, a pensar naquilo que tinha de correr
e…sofrer. Vou desde já confessar que não doeu nada, os meus receios eram
infundados. Tudo correu na paz do Senhor…ou quase.
Depressa me apercebi, que o terreno se apresentava mais limpo que no dia
anterior, o que só iria facilitar a vida aos roladores e me obrigaria a andar
nos limites, se não queria ter como oferta especial a tal lanterninha
avermelhada (ou rosa?). Ainda não tinha picado o terceiro ponto e já estava a
ser passado por um colega de escalão que tinha partido dois minutos depois. Não
liguei “pevide”, porque a sua cilindrada é muito superior à minha e quando assim
é, desejo-lhes boa viagem. No entanto, para me elevar o moral, acabei por
controlar o ponto cinco, simultaneamente com ele. Ou o meu andamento na pernada
mais longa (3/4) foi de “gritos” ou o meu camarada atascou (parece que sim). A
verdade é que só o voltei a encontrar no bar das bifanas, hehe.
Os pontos foram-se sucedendo, com maior ou menor tranquilidade, até que dei de
caras com uma zona pretensamente transponível, segundo o mapa (ponto 10), mas
que mal se tentava penetrar, éramos confrontados com uma “selva” cerrada. O
cartógrafo deve ter aversão ao verde-escuro. A solução foi fazer inversão de
marcha e seguir o limite de vegetação até um aceiro. Como era uma pernada das
“valentes” (cerca de setecentos metros), devem imaginar a minha consumição para
me desatolar da areia.
A prova continuava a desenrolar-se dentro duma normalidade exasperante, que para
o espécie não é nada bom, porque retira-lhe os níveis de concentração e fica
lerdo. Eu não disse? Arranco decidido para o ponto 14, mas uns metros à frente
páro como “tolo no meio da ponte”. Para que lado me hei-de virar, para contornar
aquela profusão de verde? A tomada de decisão não foi tão célere como desejaria,
mesmo depois de ter sido fustigado em plena face, por um ramo de silvas (seria
para levantar a adrenalina?). Foram-me prestados os “primeiros socorros” em
plena mata, por uma simpática “enfermeira” do CAOS, que me disponibilizou uns “kleenex”,
para limpar o sangue (e eu a apensar que era suor). Acho engraçado e de louvar,
que as nossas “damas” estejam preparadas para estas eventualidades (hehe). Neste
momento, tenho o apêndice nasal com uma autêntica pintura guerreira de índio
americano (considero isto as minhas medalhas).
Ao passar no ponto de água (14), dei uma lavadela ao arranhão e parti
desenfreado, para percorrer os derradeiros percursos. Não obstante ter visto
passar (ou sobrevoar?) os “campeões” do meu grupo, tinha a percepção que estava
a realizar uma boa prova e ainda não tido cometido nenhum deslize de espécie, o
que era motivo para levantar as mãos ao céu.
Mas a minha propensão para a asneira é realmente de fazer “chorar as pedras da
calçada”. Atacando o ponto 16, olho de soslaio para a sinalética e interpreto
“ruína”. No meio deste mapa? Bem, tudo é possível em orientação. Por mais que
mirasse o mapa, com ou sem lupa, não descortinava qualquer “ruína” (são o meu
ódio de estimação), mas continuei a progressão até ao momento que, ao passar
junto de um outro (?) ponto, notei que algo me “cheirava mal”. Onde raio pára a
dita cuja? O meu orgulho de espécie não me permitiu perguntar pela “ruína” (e
ainda bem, seria um vexame), a toda aquela malta que ia controlando aquele ponto
e que se situava no meu campo de visão. Após quatro minutos, perdi a paciência e
ao aproximar-me da baliza, reparo que se encontra entre duas pequenas cotas.
Volto a olhar para a sinalética, desta vez com toda a atenção e fico petrificado
de raiva. Qual “ruína” qual quê!!! O sinal era de área aberta seu…seu…seu…(não
há adjectivo pois não?). São as vicissitudes da espécie de orientista em todo o
seu esplendor.
Mesmo com este contratempo, finalizei em 1.24,50, que não destoa na carreira do
espécie, pois foi a pontuação mais alta conseguida em provas da taça, mas deixa
algum amargo de boca, porque passei ao lado de uma prova para ninguém “botar
defeito”. O mais importante tinha sido o tratamento de choque a que me tinha
proposto e, por este prisma, os objectivos tinham sido alcançados e estou em
crer que até foram ultrapassados.
Quem de certeza se pode sentir satisfeita, é a Organização. Foi brilhante a sua
prestação, merecem os 100 pontos. Como diria a minha “tia” Leonor – “A-do-rei!
Os “piquenos” do ATV são uns queridos!!!”. Claro, que quando se consegue
concentrar no mesmo local, a arena, as chegadas e partidas, a parte logística
fica facilitada e o ambiente desportivo sai melhorado, mas a sua preocupação com
o bem-estar dos participantes é de enaltecer (ainda arremessei duas setadas, mas
não tenho olho de Robin dos Bosques, hehe)…e os pastelinhos do primeiro dia? Um
deleite…
Trouxe uma frustração para casa. Não me deixaram adquirir um troféu, idêntico ao
que foi distribuído como prémio (seus maus!). Seria colocado em cima da TV e
sempre que me dessem os ataques de ansiedade, por falta de provas, bastava
dar-lhe uma piscadela de olho (o rabo de cavalo é mesmo giro). Mas a ideia de
criar em exclusivo este “boneco” alusivo à nossa modalidade, foi muito feliz e
merece um forte aplauso. Clap…clap…clap.
E pergunta a minha mulher com um sorriso maroto – “Já te sentes melhor?”. -
“Melhor? Estou completamente curado!!!”. Só que me ocorreu - “Ei pá, vamos
passar mais sete semanas sem provas…irei ter alguma recaída?”.