“Ena!...está nevoeiro até à janela!”- exclama a minha mulher. Dei um salto da cama. Não podia acordar mais estremunhado. Depois de um sábado com sol radioso, que deve ter influenciado positivamente as minhas provas, nasce um dia nebuloso, cinzentão e ainda por cima com chuva miudinha. Logo hoje, que tinha reencontro marcado com as “pedrolas” no Vale da Silvana.

Nevoeiro, pedras, chuva…oh diabo! Aonde é que eu já vi este filme? Medo…muito medo…

“Dói-me as costas…o joelho parece que está inchado…tenho o tornozelo com uma moedeira…torcicolo no pescoço…”. De repente entrei em estado quase comatoso. “Não volto a fazer mais nenhuma prova em terreno pedregoso se estiver nevoeiro, ponto final”. A minha mulher, deixou-me desabafar e evidenciando uma insensibilidade de profissional – “deixa de pieguices e vê lá se te equipas que está a ficar tarde”. Nem se incomodou com os meus males…e eu que estava todo tolhido. Sinto-me um incompreendido…

Completamente desanimado, arrastei-me até ao carro e o mais lento possível, fui dirigindo para o local onde se iria disputar o Campeonato Nacional de Distância Média. Enquanto ia percorrendo os dez quilómetros que distam do Vale da Silvana, fui pedindo a todos os santos que conheço, que intercedessem junto de quem manda nestas coisas dos nevoeiros.

Oh milagre dos milagres!!! As minhas preces foram ouvidas.

Ainda não tínhamos chegado, o nevoeiro já tinha levantado e quando estacionamos junto à arena, a chuva tinha-se ausentado. E o sol? Esse timidamente ia arrumando com a nebulosidade. Estou salvo!

Efectivamente, as condições climatéricas melhoraram, ficando até uma manhã agradável. O cenário era simplesmente magnífico e estimulante para grandes façanhas do “espécie”. A partir daqui, estava por minha conta para desenvolver a minha nova e promissora relação com as “pedrolas”.

Não via a hora de iniciar o meu percurso. A minha mulher, que nem foi das primeiras a partir, já tinha quase uma hora de prova e eu ainda andava a bufar de ansiedade, junto às pré-partidas. E por falar nelas. Andei a meditar no objectivo principal desta longa pré-pernada (1.300 mts), porque o marginal todos nós sabemos qual é: cansar o “povo” (hehe). O verdadeiro intuito é muito mais nobre e até denota alguma preocupação da organização com o bem-estar dos atletas, nomeadamente os que passam meteoricamente pelos terrenos da prova. Assim, enquanto se dirigem sem stress para as partidas, vão desfrutando da soberba paisagem. Não é bem visto? Claro que no meu caso, aproveitei a dobrar (hehe). Só vos digo que a “Silvana” é inefável, mesmo de cortar a respiração (será parente da “Conceição”?). Perante estes panoramas espectaculares, como é que um homem pode fazer bons tempos?

Apesar de ser um “espécie”, vou tendo a percepção de um bom mapa, quando confrontado com ele. Faltava saber, se tinha a capacidade técnica para descobrir as melhores opções, para levar a prova a “bom porto” e não deixar ficar mal os amigos dos Quatro Caminhos, que tanto diligenciaram na elaboração destes percursos.

Miríades de elementos pedregosos, mas bem disseminados por extensas áreas abertas, com uma miscelânea de arbustos médios, um razoável número de muros e relevo não muito exigente, poderia ser esta a fórmula encontrada para eu fortalecer a minha recente amizade com as aterradoras “pedrolas”. Teria pela frente 4.800 metros, para decidir se esta nova relação tinha ou não pernas para andar. Dos vinte (?) “pontos de encontro”, dezasseis seriam bem “íntimos” com os pormenores rochosos, fossem eles pedras, escarpas, falésias, penedos ou simplesmente calhaus (para todos os gostos e feitios).

Tive logo uma escalada para o primeiro ponto. Uma reentrância que parecia não acabar mais. Que mania de colocarem os pontos bem no lá no cimo, arre! Aquilo custou a trepar, mas o facto de apanhar um parceiro que tinha partido dois minutos antes, deu-me asas (tipo red bull). Se tinha passado um companheiro na primeira baliza, no ponto seis já estava eu a ser ultrapassado por quem saíra oito minutos (!) depois de mim. Mas este velocista, no final veio a ser medalhado, portanto nem foi muito desanimador.

Ia tendo algumas dificuldades na progressão, mais pelas incorrectas opções (fartei-me de subir penedias desnecessariamente), do que pelos desentendimentos com os pontos. O meu percurso teve alguma semelhança com uma prova de barreiras, porque e para que conste, vi-me obrigado a passar e saltar uma dúzia de muros. Os pulos constantes e algo arrojados (continuo na faceta radical), não deram nenhuma saúde às minhas “molas”, já com pouca elasticidade. Cada transposição declarou-se um duro obstáculo e é bom não esquecer que sou um atleta pesadote, com pés e joelhos frágeis (de barro antigo!). Observar colegas de escalão a “sobrevoar” aquelas paredes, faz-me pensar que raio de BI é o deles ou o meu “prazo de validade” está mais apertado? (hehe)

Com o decorrer da prova, fui perdendo o respeito e o medo pelas “pedrolas”; pontos houve que tive vontade de dar uns bons yupis!, tal a aparente facilidade com que dei conta deles (excepção feita ao ponto 6, bem rodeado de rochas e vegetação). Na parte final, comecei a gerir o esforço, porque a ressaca dos sprints começou a fazer-se sentir. O meu “combustível” aproximava-se perigosamente da reserva, que fruto de um lapso de “espécie”, teve de ser utilizada mesmo até à última gota.

Ao picar o ponto 19, o penúltimo (?), amachuquei o mapa com a satisfação de ter conseguido derrotar as malfadadas pedras e preparei-me para uma derradeira corrida até ao 200 e consequente sprint final. Entretanto passo por uma concorrente OPT, que me chama a atenção – “olhe que estão aí dois pontos, um de cada lado da linha de água!” – “esses já não são meus, mas obrigado”- respondo quase sem fôlego. Quando me aprestava para controlar o 200, olho de relance o mapa e leio “21”. Estaquei e de imediato me apercebo que tinha 21 e não 20 pontos para controlar (a caridosa senhora tinha razão). Voltar a ligar o motor, dar meia volta, percorrer os duzentos metros e retornar, foi o maior sacrifício de todo o NAOM.

Estive a segundos de cometer novo mp, mas desta vez as culpas tinham de ser repartidas, porque o édito oficial da prova mencionava para o meu escalão: 4.800 metros, 20 pontos com 145 de desnível (números que confirmei no final). Certamente houve algum acerto técnico à posteriori e eu deveria estar atento à sinalética, mas esta “traição” de quem eu considero meu amigo é imperdoável. Como não sou de guardar rancores, este detalhe passou ao rol do esquecimento, quando verifiquei a honrosa classificação obtida e após ter sido “subornado” com um saboroso (e não dourado) esparguete à bolonhesa (hehe).

O Norte Alentejano vai marcar de forma indelével a “istória” do espécie de orientista, pois à pontuação mais alta obtida em provas da Taça, no sábado, veio juntar-se no domingo a melhor classificação jamais conseguida num percurso. Já vos estou a ver com uma cara de espanto – “Querem ver que ele foi campeão? Ou terá subido ao pódio? Bateu o Rui Antunes?”. (hehe) Frio…muito frio, mas se sentirem uma pontinha de curiosidade, aconselho-os a visitar o site do NAOM (ou não).

Agora num aspecto estou firmemente convicto, mesmo que o nevoeiro persistisse, a chuva desabasse impiedosamente, me atascasse nos granitos de Póvoa e Meadas, ficasse zonzo nas ruelas de Castelo de Vide, ou se porventura tivesse sido atirado para os confins classificativos por um qualquer mp traiçoeiro, nenhuma destas contrariedades alteraria a opinião que o “nosso” Alentejo continua lindo.