Se algumas dúvidas houvessem quanto à capacidade
e formação dos orientistas, a prova deste fim de semana, na zona de Melres,
deve-as ter dissipado. O manuseamento de mapas e bússolas, com a consequente
leitura de cores, sinalética, curvas de nível, orientação por azimutes ou pelo
sol (para os experts), tudo isto faz parte do dia a dia do atleta de orientação,
mesmo dos “espécies”. Mas depois destas duas etapas, deve-se acrescentar ao
curriculum, informação na vertente geológica e biológica. É perante a
adversidade que se destaca o verdadeiro orientista.
Sábado, no Monte Santa Luzia (frente a Entre os Rios), senti-me um autêntico
explorador, quer no que toca ao estudo de rochas e “familiares”, quer na área
mais floral, nomeadamente o combate titânico, que tive de travar, com o
denominado “tojo transgénico” e que dá pelo pomposo nome de ulex europaeus.
Planta por nós (as vítimas) descoberta, bastante agressiva, diria até violenta,
com características “carnívoras”, só mesmo possível por modificação genética.
O trivial numa prova de orientação é a “luta” com o mapa e o terreno, mas aqui
apareceu uma nova componente, o tojo (ulex para os amigos). E neste aspecto, a
“guerra” foi desleal, as nossas armas mostraram-se pouco menos que inofensivas
perante este “predador”. De porte idêntico ao de um ser humano, este arbusto
leguminoso, “deliciou-se” com os milhares de espinhos que distribuiu, pelos
incautos atletas que por ele iam se iam roçando. Diria alguém no final da etapa
- “nem me atrevo a beber água porque vou perdê-la toda, de tal maneira estou
furado!”.
Excepcionalmente usei perneiras, que só me protegiam até aos joelhos, o mais
eficaz teria sido uma “armadura à D. Afonso”. Resultou que estivesse até altas
horas, de pinça na mão, a procurar minorar o meu sofrimento. Como a minha
destreza não é muita, tenho de dar mais valor às nossas mulheres, na arte da
depilação. Não sei se estou dorido dos picos ou dos pêlos que arranquei.
Na realidade, o tojo demasiado seco, duro e desenvolvido, foi um contratempo. Só
que esta dificuldade foi de grau idêntico, para todos os participantes. O
terreno já não era muito acessível e com este factor acrescido, as pastorícias e
atascanços foram comuns a muita e boa gente. O que mais ecoava pelo monte, eram
os “ais” e “uis” (e outros vocábulos não mencionáveis) da malta a ser atacada
por aqueles “espinhos vorazes”. Na progressão para certos pontos, a vegetação
estava tão alta, que o aconselhável seria trocar a lupa por um periscópio.
Incrivelmente, apesar de todas as contrariedades, fiz um percurso digno de
figurar nos anais da “istória” da espécie. Não pelas cenas caricatas ou de baixo
recorte físico, mas sim porque consegui efectuá-lo, dentro de parâmetros
técnicos bastante aceitáveis. Finalmente reconciliei-me com a bússola. Apesar
duma ou outra opção, não ter sido a mais indicada (os detalhes rochosos
continuam a ser um sério problema para o “espécie”), os azimutes estiveram de
tal modo certinhos, que cheguei a assustar-me, ao “esbarrar” com algumas das
balizas. Quando marquei o controlo final, tive uma sensação indescritível, como
que um clímax e desabafei – “Yes!!! sou o herói do ulex (digo, tojo) ”. Mas não
pensem que foi tudo limpo, ainda não, mas que foi moralizador, lá isso… (e
tornaram a atirar-me para os finais das partidas!).
A alvorada foi demasiado cedo para quem passou parte da noite na “espinhosa”
tarefa, mas estava motivado e levantei-me todo fresco e pronto para me digladiar
novamente com o malfadado “ulex”. Talvez por ser domingo, o nosso arbusto de
estimação mal apareceu. Quem pensava que ia ser uma jornada de descanso,
equivocou-se. Na segunda etapa, o tema central do mapa de Moreira, girou em
torno de pinheiros, eucaliptos, carvalhos e vegetação rasteira a preceito, tudo
bem circundado por imensos muros e caminhos. Para ser um percurso completo,
foram adicionadas umas rampas de excelente inclinação. Tecnicamente estávamos
perante um traçado perfeito (para orientistas, leia-se).
“O caldo entornou”. Muitos caminhos, sinónimo de loucas correrias e para o
“espécie” isto não é nada bom. Não tive tempo para a prática da pastorícia, mas
as boas opções que se impunham, num traçado com este perfil, não foram as mais
apropriadas. É costume dizer-se que tudo o que sobe...desce. Desculpem que
contradiga, tudo o que sobe, sobe ainda mais. As subidas que eram necessárias
fazer e, as outras que fui obrigado a efectuar por azelhice, roubaram-me o
fôlego Não tive dificuldade em encontrar os pontos, o problema era chegar lá. Eu
bem tinha vontade de correr, mas as rampas constantes (apelidadas de “rampings”
pelos mais radicais), sobretudo na parte final, deixaram-me todo roto.
Nos últimos dois pontos senti-me na obrigação de “rebocar”, encosta acima, uma
das mais promissoras jovens dos TST, que estando lesionada e sentindo-se
desorientada (cá para mim olhou demasiadas vezes para o relógio), fez menção de
desistir. Ora ninguém desiste à beira do “espécie” (só com nevoeiro). “Oh
rapariga, tu não vais desistir, nem que eu tenha de te levar às cavaleiras!” –
dito num tom de quem tem idade para ser seu pai. Não me passou pela cabeça que
ela pudesse desobedecer, senão lá teria eu de fazer aquela última subida com um
peso a dobrar (desistíamos os dois). Foi-me muito grato, momentos depois, vê-la
a subir ao pódio. A minha prova estava ganha.
Agora preparem-se para a surpresa. Aconteceu o que eu tinha previsto como
inevitável: *o “espécie de orientista” foi chamado ao pódio*. Acho que pouca
gente se apercebeu do “ridículo” da situação, o campeão Costa Leite, o
experiente Fernando André, juntos no pódio, com a “fina-flor” da espécie de
orientista (momento devidamente registado para a posteridade). Para cerca de
cento e quarenta participantes, devem ter sido distribuídas umas setenta
medalhas. Algo deve ser feito a favor da reposição da verdade desportiva ou a
subida ao pódio deixa de ter qualquer significado. Deixem que lhes diga, são
escalões a mais!
Quero deixar uma palavra de apreço à pequena “família” (poucos mas bons) do Luz
Verde, que contra tudo e todos, conseguiu colocar de pé uma prova, que só pecou
por não ter tomado em consideração o previsível ataque do “ulex tojo europaeus”
e o surpreendente prémio a um “espécie” (neste aspecto estão desculpados).
Para encerramento das festas, recebi um simpático convite, para estar presente
numa “etapa extra”, na quinta das “melancias biológicas” (donde se desfruta um
panorama soberbo), propriedade duma nossa colega da modalidade, que revelou, no
seu papel de anfitriã, ter tanta qualidade, como no de orientista. O engraçado é
que não ouvi, no decorrer desta “duríssima” prova, nenhuma queixa de atascanços
e olhem que alguns não se mexeram um bom par de horas (hehe). Pudera!!!