Ao toque de alvorada, quase simultâneo com o
cantar do galo, pois tinha de aplicar mais meia hora de gelo, comecei a ter fé
que a situação se iria compor. A minha mulher não se queixava da sua lesão e eu
para não dar parte de fraco…também nãoJ. O joelho tinha desinchado qualquer
coisa, mas doía-me “pra caraças” (ia gemendo baixinho). Abreviando…dose de
antibióticos, mais analgésicos e sacos de gelo com fartura, resultaram num
paliativo a meio gás. –“Vambora qu`está na hora e mainada”.
Procedi a um ligeiro aquecimento com toda a cautela e apercebi-me que o joelho
estava preso por arames, mas se a dor se mantivesse com aquela intensidade, ia
dar para partir…só não sabia se daria para chegar. A prova no mapa de Rovisco
Pais, era de distância longa (7.100 mts) o que não vinha ajudar nada, mas o meu
espírito de sacrifício iria vencer (ai dele!). A verdadeira e irremediável dor
iria ser outra.
Fui dos primeiros a partir, com a função de desbravar terreno, tendo todo o
cuidado de deixar os carreiros bem abertos, para a rapaziada que viria a seguir
não se perder. Sou de um altruísmo sem limites (hehe). Com a preocupação de me
defender, a minha corrida toda desengonçada, devia ter alguma semelhança com a
do Mantorras (hehe).
Galvanizado com a prova do dia anterior, fui rangendo os dentes, para ir
aguentando a moedeira que me ia importunando. Com o evoluir do percurso, a
dobradiça aqueceu e quase esqueci a maleita. Tinha de tentar fazer uma prova o
mais limpa possível, porque estava convencido que poderia conseguir o melhor
resultado da “istória” do espécie.
As belas dunas não me iriam deixar ficar mal, mas eu também tinha de cumprir a
minha parte (e aqui residia o problema). As pernadas iam-se sucedendo a um ritmo
que me começava a preocupar. “Isto está a correr bem demais”, pensei com os meus
botões. Os pontos pareciam que tinham íman, de tal forma o meu SI os ia picando.
Pernadas longas, ou técnicas, mais fáceis ou mais exigentes, todas me correram
“demasiado” bem, facto que me ia deixando um tanto ou quanto desconfiado. Estava
de tal maneira empolgado, que parecia correr nas nuvens, -“é um sonho, não
acredito”. Creiam que não tenho nenhuma peripécia para relatar. Nunca tal me
tinha sucedido. Ia-me cobrir de glória! (hehe)
Com mais de três quartos da etapa percorrida, ainda não tinha sido alcançado por
nenhum parceiro de escalão (o que acontece normalmente) e o único que acabou por
me ultrapassar, tendo saído depois de mim uns vinte minutos, só o conseguiu nos
últimos três pontos (dos 18). Refiro-me a um craque, que em condições normais,
me ganharia uns quarenta e cinco minutos, - “mas hoje isso não vai acontecer”
(sonhava eu).
Tinha a moral nos píncaros, que mal entro na pista para controlar o 200 e sprint
final, vem-me à memória uns flashes dos sprints engraçados que fazia há uns anos
atrás. Dá-me um acesso de loucura (desfiz o resto do joelho) e cá vai disto…brrrruummmm…uma
curva e recta de se lhe “tirar o boné” e levantar o tartan. Os splits não deixam
que vos minta (Obikwelu onde estás tu?).
Quando terminei, a falta de ar era tanta que tive a sensação de que ia cair
redondo. Não é que estava tudo a “brincar” à minha volta? Não caí naquele
momento, mas fui ao tapete logo de seguida...mp?...mp?...
Este texto podia e devia terminar aqui. É impossível transmitir por palavras o
meu estado de espírito naquele momento. A água do balde que caiu por mim abaixo
era mais fria que o gelo, a que me tinha sujeitado longos períodos, para poder
ali estar presente. O sonho que eu julgava estar prestes a alcançar, num simples
“bip”, transformou-se no mais tenebroso pesadelo dos orientistas.
Incredulidade, desilusão, frustração, desespero, raiva, mas sobretudo um
sentimento de impotência e revolta, porque não havia nada que eu pudesse fazer.
A não ser voltar atrás e picar o ponto 9, tantas vezes até ele calar o pio. A
minha cor devia assustar (um cadáver teria melhor aspecto), pois de imediato
vieram indagar se me sentia bem, só que eu nem conseguia falar. A minha vontade
era chorar e gritar o mais alto possível, mas a malta podia ficar assustada (era
melhor não). Ao olhar o joelho, que estava mais inchado que a minha “cabeça”,
ainda fiquei mais abatido, a pensar no sacrifício que tinha feito para nada.
Isto é que tinha sido um bruxedo bem feito, hem? (hehe).
Quando recomecei a raciocinar, deu-me logo para a fantasia – “como fui dos
primeiros a passar, a baliza estava adormecida e não validou, ok foi isso”. O
António Amador ao reparar no meu desespero ainda me confortou – “vamos ver se
mais alguém se queixa, não desanimes”. Entretanto chegou o jovem Sayanda, que
tinha picado o mesmo ponto e a minha ténue esperança esfumou-se. Custa a engolir
estes “mp`s surprise”, ora se custa.
Se na altura eu quase podia jurar que tinha controlado o ponto, depois mais a
frio, ao rebobinar o filme das pernadas, assumi a grande asneira que tinha
cometido. A pernada para o ponto 9 tinha mais de 600 metros, com várias opções
para a progressão e não tendo feito a mais indicada, saí um pouco ao lado e
próximo de outro ponto, que confirmei ser o controlo seguinte (10), que nem era
grave, já que distava do 9 uns 150 metros, no máximo. O que aconteceu é que, num
momento fatal de desconcentração, piquei este ponto e segui para o 11, em vez de
me reorientar para o 9 e regressar novamente ao 10. Confuso? Não. Espécie de
orientista? Sim.
A traição de que fui alvo pelas minhas belas e adoradas dunas, fazem-me repensar
o meu futuro na Orientação. Provavelmente terei de fazer um interregno nesta
relação e equacionar a hipótese duma aproximação às monstruosas “pedrolas”. Quem
sabe se nos tempos mais próximos, não poderá germinar uma nova e profícua
amizade com o “espécie de orientista”, quando nos confrontarmos lá pelas bandas
das paisagens alentejanas?