Mais uma vez a Orientação foi alvo de uma atitude
de deferência. Não é a primeira vez, que temos o privilégio de podermos utilizar
zonas, que são consideradas verdadeiros patrimónios naturais. Agora, foi-nos
franqueada a entrada na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de
Santo António, em pleno coração do sotavento algarvio, onde apenas têm
livre-trânsito certas espécies protegidas. Senti-me de imediato como peixe na
água, ou não pertença eu a uma espécie…em vias de extinção.
O teatro que nos foi posto à disposição, para o final da festa do POM 2008, não
poderia ser mais bem adequado. A possibilidade de nos podermos espraiar por todo
o complexo desportivo de Vila Real Santo António, tem de ser vista como uma
autêntica mordomia. Dava gosto presenciar a azáfama, uma “Babel” onde todos se
pareciam entender, nem que fosse por linguagem gestual, o colorido buliçoso, a
preocupação no bronzeado de última hora (era vê-las a besuntarem-se), todo um
afã que se ia desenrolando naquele aprazível espaço. A Organização conseguiu
atingir o clímax mesmo no final.
E se tudo estava excelente, em termos de arena, então no aspecto técnico, fomos
presenteados com o melhor mapa deste evento. A unanimidade quanto à qualidade do
terreno, não deixa margem para qualquer discussão (quem sou eu para questionar
seja o que for?). Mas no melhor pano cai a nódoa e um arreliante pormenor veio
quase manchar uma festa, que se pretendia imaculada.
Entrei na prova, convencido que ia ser canja. Dezassete pontos dispersos por
3.600 metros de percurso, para um quase inexistente desnível. Que dificuldades
poderia encontrar? Toda a gente sabe, que quando não há problemas eu tenho o dom
de os criar. A primeira pernada, que não tinha trezentos metros, deu-me logo
“sarna para coçar” . A vegetação, não sendo intransponível, apresentava-se
demasiado densa, dificultando a visibilidade para se poder avaliar o relevo.
Progredi em azimute, mas o ponto “nem vê-lo” e o cume (?) onde se situava, não
deu sinal de si. Bem me fartei de correr, mas o caminho que me podia ajudar,
parecia estar a milhas. Começou o meu problema que se manteve toda a etapa. -“Já
terei passado o ponto?” – “Corri demais?” –“Ainda não estou na zona?”. Bem, os
pontos pareciam que estavam a fugir de mim. Se calculava 200 metros, tinha de
fazer 300. Se atirava para 400, não chegava mais.
Este equívoco acompanhou-me até ao final. Só mais tarde, em conversa com um dos
nossos especialistas, tomei conhecimento que os mapas estavam numa escala
superior a 10.000. Tal hipótese, nem me passou pela cabeça. E este problema já
tinha acontecido em Muas. O tal detalhe que poderia ter estragado a festa. É
verdade que a situação foi igual para todos, só que os mais informados
imediatamente perceberam, os “espécies” fartaram-se de penar. Por acaso, não
pensaram que este erro pode ter sido intencional, no sentido de elevar o grau de
dificuldade do que parecia ser uma tarefa fácil? (assim obrigou a rapaziada a
desfrutar um pouco mais do “Sapal”) A Organização só pretendia o nosso
bem-estar.
Para além deste relevante detalhe, também nunca me adaptei muito bem à
vegetação, que camuflava nitidamente as balizas, transformando os pontos em
quase “camaleónicos”. Passei grande parte dos percursos, a “nadar” por entre
aqueles arbustos (halófilos de seu nome), pois tinha necessidade de os ir
afastando com os braços, sempre na esperança de me saltar do meio deles, um
pontinho para o “chip” ou um camaleão linguarudo, hehe. -“Com que então isto ia
ser acessível?” – “Põe-te mas é esperto, Luís…deixa de ser marafado!”
Depois de ter sido abonado com uma dúzia de minutos no primeiro ponto, só tinha
de respeitar o mapa, se pretendia um resultado com alguma dignidade. Sempre em
esforço, dado que os pontos ficavam sempre mais longe do que eu supunha, fui
conseguindo controlá-los, sem mais nenhuma tolice de monta, até que sou apanhado
por novo “atascanço”, na progressão para o ponto 12 (reentrância com vegetação).
Nem queiram saber a malta que andava à cata do “dito cujo”. Mais parecia um
grupo excursionista em passeio ecológico. Ainda hoje não percebo o motivo que me
fez perder mais de oito minutos naquela baliza. Ah! Descobri! Tive uma atitude
solidária com a minha mulher, que também andava lá nas suas buscas (hehe).
A partir daqui, dei início ao melhor período da minha prova. Apesar de não ter
atingido altas velocidades, tive o condão de ir “esbarrando” com os prismas, de
tal forma os azimutes estiveram atinados. Podia até me ter aleijado, não é? (hehe).
Nas imediações do ponto 14, fui interpelado por uma super-veterana, que
precisava de se localizar, mas o inglês dela era pouco perceptível e o meu
“finlandês” já passou por melhores dias. A sorte da senhora é que aponto bem no
mapa.
Quase sem dar por isso, tinha terminado a minha participação no POM 2008. Não
alcancei resultados de que me possa orgulhar, mas tive o prazer de ser mais um
protagonista da maior festa da Orientação, que decorre anualmente no nosso país.
Em 2006, apenas estive presente numa das etapas, no Pego. O ano transacto, em S.
Pedro do Sul, o temporal ofuscou por completo o evento. Finalmente consegui
usufruir do ambiente de festa que se vive nestas provas. Por mais que me tente
lembrar, não conheço nenhuma modalidade que traga tantos atletas estrangeiros ao
nosso país. Custa a entender a falta de interesse da comunicação social, não
sabem o que perdem.
Cinco dias antes, quando me preparava para iniciar a minha viagem para sul,
alguém me perguntou – “Para onde vais?”- ao que eu respondi – “ah!ah!ah! vou
para a festa”. No regresso – “Donde vens tu?” – “snif! snif! snif! venho da
festa…”.