Como tínhamos assentado arraiais em Tavira, neste
segundo dia demos continuidade ao nosso corrupio por terras algarvias, dado que
a etapa ia ter lugar no Pontal, zona próxima do aeroporto de Faro. Dose a
repetir na jornada seguinte.
Para surpresa geral, ao chegarmos à arena, fomos confrontados com uma área
espectacular, nomeadamente na vertente logística. Sobressaía nos comentários dos
atletas mais viajados, mormente os estrangeiros, que este local de concentração
era dos melhores por onde já tinham passado. A coligação CIMO / Juventude
Fontainhas continuava a amealhar pontos, para somar aos que já tinha angariado
no dia anterior. A maioria estava um pouco na expectativa, sobre a capacidade
desta organização, em colocar de pé uma competição desta envergadura, mas a
partir daqui qualquer dúvida estava dissipada.
Pontal, por acaso até me dizia qualquer coisa. Local predilecto de dois eventos
de arromba. Um ligado aos amantes de cerveja e motas e outro a um festim
estival, conotado com uma determinada cor política. Bem vistas as coisas,
finalmente Pontal iria ter nos seus domínios um evento sério e responsável (hehe).
Depois da chuva impiedosa da tarde anterior, a manhã apresentou-se bem airosa e
a motivar a malta para uma prova a preceito. Convinha não esquecer que esta
etapa iria contar para o Ranking Mundial, portanto seria de esperar um mapa a
condizer com o nível dos concorrentes, que no global eram de superior qualidade.
Comecei a ter umas sensações esquisitas. Seria da responsabilidade? Estaria
constrangido com a proximidade de tantos craques? Nah!!! Cá para mim, a
vizinhança do mar, aliada à amena temperatura, estava a mexer comigo. Isto de
vir para o Algarve, só se for para banhos. O meu bio ritmo, nestas paragens, não
está preparado para outras solicitações.
Tentando abstrair-me dos fluidos de veraneio que pairavam no ar, iniciei os meus
8.100 metros, com 19 pontos para controlar e uns 200 de desnível, levando a
motivação possível para as circunstâncias. Mal olho para o mapa, apanho um susto
tal, que quase me espalhava num lamaçal. Primeira pernada com quase mil metros?
–“Ai mãezinha! Isto vai ser de loucos”. Correrias loucas quero eu dizer, mas de
preferência bem orientadas, senão é esforço em vão. Infelizmente eu sei do que
estou a falar (não me confundam com o outro).
Não sei se tomei a melhor opção, mas nove minutos depois estava na zona do
primeiro ponto, apenas tive uma “branca” e demorei mais onze para o picar. Eu
vou tentar explicar o que aconteceu. Lembram-se da zona verde, onde se situava
uma plantação de “bananeiras”, de “palmeiras”, “tamareiras”, “coqueiros” ou que
raio era aquelas árvores? Pois bem, seja o que for, era planta tropical. A tal
paisagem que leva um tipo a sonhar com férias. Assim sendo, dei uma de turista e
pus-me a “trabalhar para o bronze”. Está bem, eu sei que não tenho desculpa, o
ponto, apesar de escondido, estava na berma duma “auto-estrada”!!!
Após este contratempo, as hipóteses de uma prova razoável estavam completamente
hipotecadas. Ainda teria pela frente umas três pernadas bem mais extensas do que
esta. Ou continuava com a filosofia do ori-turista, ou fazia pela vida e corria
atrás do prejuízo. Esforcei-me para dar da perna, mas nem sempre com o melhor
proveito. A bússola, talvez influenciada pela proximidade dos radares do
aeroporto, arremessava-me constantemente ao lado das balizas (hehe). E por força
destes “campos magnéticos”, ia acumulando minutos de atraso.
No sexto percurso, de cerca de um quilómetro, em má hora decidi seguir um
caminho que passava junto a uma lagoa. Atacaram-me os calores e estive vai que
não vai para dar um refrescante mergulho. Se a minha prova mais parecia um “tour
do atascanço”, não viria mal nenhum ao mundo, se desse umas braçadas. No
entanto, como faltavam poucos metros para o ponto da verdadeira água, consegui
conter os impulsos banhistas.
Oh meus amigos!!! Então andei a assinar uma petição para quê? Onde paravam as
“minis” loiras, frescas e apetecíveis? Só havia água? Concordo, que a malta
vinda da Escandinávia é mais de leite, chás e limonadas, mas e nós…os latinos?
Daqui faço um apelo às futuras organizações de percursos mais longos. Passem a
chamar de “ponto-bar” estes locais, onde se possa também beber umas “bejecas”.
Ou em alternativa, para não chocar os mais sensíveis, de “ponto de abastecimento
líquido”, combinado? Obrigado.
Depois deste relevante parêntese, primordial ao desenvolvimento da modalidade,
regresso à minha luta com o mapa, mas o chocalhar que sentia na barriga, não
pressagiava nada de positivo. Comecei a ficar enjoado, provavelmente por falta
de alimento (ou água a mais), pois tinha partido à hora do almoço e os dois
biscoitos e banana, há muito que tinham sido digeridos pelo meu acelerado
metabolismo. Os roncos gástricos eram mesmo de fome. Não me faltava mais nada!
Após uns momentos aerofágicos e flatulentos, fiquei pronto para seguir viagem (hehe).
Desculpem a crueza da cena, mas quem já não passou por aflição semelhante? (que
atire a primeira bússola)
A prova ainda nem a meio tinha chegado e eu já me encontrava na reserva, mas os
sete pontos seguintes foram controlados dentro da normalidade, dando algum
moral, não obstante continuar a perder um minuto aqui, dois acolá, cinco além.
Nem me atrevia a olhar o relógio para não desmotivar. E bem precisava estar
concentrado, para dar conta da pernada mais longa (1.200 mts), que tinha de
percorrer para a baliza 14.
O terreno era a descer, caminhos não faltavam, mas seria necessário algum
cuidado nas opções a tomar. De repente avisto a “zona tropical”, por onde teria
de passar novamente e fiz um esforço para não cair na tentação de voltar ao
“passeio turístico”, até porque já tinha apanhado sol em demasia. Fechei os
olhos e corri o mais que pude! –“Arreda tentação do demónio, que isto não é hora
de ir a banhos!”
Uff!!! Safei-me à justa. Do que não me salvei foi de mais uma pastorícia. O
ponto 15 ficava a pouco mais de 200 metros. Como devo ter achado pouco, bateu-me
um último acesso de veraneante e andei à sua roda uns dez minutos (até ficar
tonto). Resolvi ir a azimute, quando só tinha de escolher o melhor caminho
(inventor!). Não desatinei, porque apareceu um companheiro de desgraça e tive de
me controlar, mas é preciso montes de paciência para aguentar tanta inépcia.
Devem estar a imaginar o tempo escandaloso que devo ter feito, mas por favor não
me peçam que o divulgue (foi mau, muito mau), basta de vexame. Tanto andei a
fugir da lanterna vermelha, que hoje tinha sido apanhado (pensei eu). Tinha de
me conformar com a realidade pura e dura, só que no lavar dos cestos, surgiu uma
alma caridosa dum clube amigo e arrebata-me este “troféu”.
No dia seguinte (se me conseguisse levantar) ia haver vingança, olá se ia!