Atendendo ao longo hiato competitivo, tive tempo
de sobra para preparar a “psique”, para um novo confronto com as “pedrolas” (o
“naufrágio” da Coelheira continua presente), desta vez em pleno Parque Nacional
do Alvão. Estava disposto a afastar definitivamente os meus fantasmas, que me
aterrorizavam sempre que tinha pela frente terrenos onde imperassem as
“culturas” rochosas (e se elas proliferam por estas bandas!).
A imagem de marca do mapa de Muas, zona da primeira etapa do Troféu Caminhos do
Alvão, é a infinita quantidade de pedra cinzenta, “estorvada” aqui e acolá por
tapetes de carqueja, assim pró durinhos (experimentem cair de costas hehe),
salpicada por meia dúzia de pinheiros e uma enorme quantidade de linhas de água,
que nos permite contemplar uma paisagem, que tem tanto de agreste como de bela.
Mas para todo este discurso ter algum significado, as condições climatéricas
devem ser excelentes. Porque se depararmos com um nevoeiro de “cortar à faca”,
valha-nos “Santa Maria das Espécies”, esta beleza transforma-se num cenário
pouco menos que aterrador e o medo…muito medo, apodera-se completamente das
mentes menos precavidas e “a tragédia, o drama, o horror”, fica eminente. Não
fiquem apreensivos, porque a única mente que fica verdadeiramente transtornada é
a do “espécie”.
Debaixo dum nevoeiro intenso, batendo o dente como castanholas (de frio, não de
medo hehe), dei início a mais uma cena dum filme, para mim já bem conhecido, que
dá pelo original título de “Espécies na Bruma” (qualquer semelhança com alguma
realidade é a mais pura das coincidências). Para o quadro ficar completo, há que
acrescentar o facto, que daqueles 400 atletas, apenas uns 20 partiriam depois de
mim. – “Irra!!! Que está tudo contra o espécie!”
A minha preocupação era tanta, que me atrofiou por completo o raciocínio. Entrei
logo no mapa com o pé esquerdo (como sou dextro, não funcionou). Para controlar
o primeiro ponto, quase fui ao segundo. Só parei quando bati num caminho, o que
me fez voltar atrás uns vinte metros... e era vê-lo (o malandro) a rir-se para
mim. Dei com o segundo nas calmas e a partir daqui, conforme se ia acentuando o
nevoeiro, os meus receios iam-se avolumando. Se estava frio (cerca de 5º), nunca
mais o senti, com os calores que me assaltaram, tal era a ansiedade de querer
sair dali o mais depressa possível.
O ponto 3 assemelhou-se a uma miragem, dado que vi uns três pontos, antes de
finalmente o encontrar, bem “recostado” na sua escarpa. E eu que já tinha estado
bem por cima dele! -“Meia hora de prova e três pontos?” Comecei a “magicar” o
pior e a sensação de que aquilo ia acabar mal, não me largava. Num assomo de
alguma técnica e muita sorte à mistura, consegui chegar à primeira metade dos
pontos (7), ao fim de mais vinte minutos, de progressão difícil, mas sem
pastorícia. Já tinha mais tempo gasto nesta altura, que dois dos meus parceiros,
no final da prova (hehe). Antes do ponto sete, fiquei com outro problema, ao
alcançar a minha mulher, que tendo saído antes de mim uma hora, estava
completamente atascada. Deixei-a para trás, com o coração apertadinho, a
imaginar o que ela teria ainda que penar (sou um sentimentalão, que hei-de
fazer?). Puro engano. Quem iria sofrer e bem, seria eu.
A pernada mais longa (7/8), resultou num acréscimo de penalização, na mais que
deficiente prova que vinha a efectuar. Tentando não me afastar do azimute, fui
tomando opções na progressão, que me pareceram correctas, até chegar à zona que,
julgava eu, ser a do controlo. Por acaso até era, mas encontrava-me num nível
abaixo do ponto uns cem metros. Dez minutos para a progressão e outros tantos
para dar com a baliza.
Entretanto, fui-me apercebendo que iam rareando os atletas em prova. -“Se caio e
me aleijo ou atasco, vou ficar aqui perdido”. E estes pensamentos pessimistas
não vinham ajudar em nada, em virtude do nevoeiro continuar a baixar, reduzindo
os níveis de visibilidade para uns vinte ou trinta metros.
Todo o ser humano é dotado dum instinto de sobrevivência, que o obriga a reagir,
quando confrontado com situações adversas. Mas c´um raio, onde parava o meu?
Também como é que o queria encontrar no meio daquele nevoeiro, que mal dava para
ver onde colocar os pés?
Tentando contrariar esta tendência para a asneira, lá arranjei motivação para
continuar (seria o tal instinto?), conseguindo alcançar o ponto 12, à custa de
mais vinte minutos no “cabedal”. Apesar de tudo, foram quatro percursos bem
orientados, sem qualquer hesitação, numa caminhada solitária pelo labirinto das
“pedrolas”, com cuidados extremos para não dar qualquer queda e sobretudo numa
tentativa desesperada para concluir a prova.
Ao analisar o trajecto para o ponto 13 (o penúltimo), respirei fundo, ao
verificar que havia pormenores que bastassem, para não me atascar novamente.
Fios de alta tensão, caminhos, progressão na mesma curva de nível e ponto junto
a uma árvore, que mais precisava eu para acabar aquela odisseia? –“Estou safo,
vou conseguir dar conta do recado”. Se calhar foi este baixar de adrenalina que
me tramou. Começo a correr (ainda tinha forças para isso), passo os fios, o
afloramento rochoso, os caminhos, avisto uns pinheiros dispersos em zona de
reentrâncias, tal qual a sinalética e…o 77 não estava lá (será que já tinham
levantado os pontos? hehe). Na orientação, a desconcentração e os excessos de
confiança são fatais.
Nem queria acreditar que ia “morrer na praia”. -“Não é aqui?” Até usei a técnica
do polegar e errei? Claro que mal distinguia o que me rodeava e o ponto poderia
estar ali a meia dúzia de passos que eu não o veria. Ou tinha acertado à
primeira ou estava perdido. E não é que estava mesmo?
Meus amigos, naquele momento a vontade de desistir passou a ser obsessiva.
Sentia um desespero de arrancar cabelos e a desilusão era total. Ainda bati
todas as reentrâncias que tivessem árvores, num raio bem alargado, mas quanto
mais procurava, mais desorientado ficava. Os fios deixaram de ser visíveis, os
caminhos “varreram-se-me” da ideia, o mapa só estorvava e aquela geringonça que
tinha no polegar, já nem sabia bem qual a sua função. Bloqueei por completo e
logo num ponto de baixa dificuldade. O tempo passava e nem vivalma. –“Que faço
aqui no meio destes montes, quanto toda a gente já acabou?”. E para meu desgosto
e grande frustração, “atirei a toalha ao tapete”; tinham passado uns
inacreditáveis noventa e quatro minutos, desde o bip bip inicial.
Ainda havia outro problema a resolver. Tinha de procurar a direcção da arena,
mas já não conseguia raciocinar. Deambulei durante uns minutos ao acaso, até que
finalmente dei com um ponto, que não era meu (54), mas onde tinha estado no
início da prova. Valeu a minha memorização. Localizei-o no mapa e ainda fiquei
mais arreliado. O que eu me tinha afastado! A estrada era perto, tinha de descer
o monte quase na totalidade e com aquele nevoeiro não ia ser tarefa fácil, mas
para minha fortuna, o tal instinto sempre apareceu. A hipótese que eu já
equacionava, de dormir num belo colchão de carqueja, na companhia de lobos e dum
ou outro rastejante, foi literalmente rejeitada.
O que não se tornou fácil, foi digerir tanta incompetência (esgotei os sais de
fruto). O filme das “pedrolas” com nevoeiro repetiu-se e com o mesmo desfecho
vergonhoso. O terreno era difícil…o nevoeiro estava bem denso…fui dos últimos a
partir…ainda padecia duma entorse num pé…afinal sou só uma espécie de orientista…mas
por mais que tentasse arranjar desculpas para o fracasso, nada me iria levantar
o moral para o dia seguinte e…a minha mulher conseguiu terminar!!!
Praticar orientação no Alvão, é um privilégio para qualquer atleta…com
nevoeiro…não, obrigado.