- Pavia em dois dias (1)


Não rima, mas é verdade. E se para Roma e Pavia não chegou um dia, imaginem os trabalhos que tive para “fazer” Pavia em dois.

Claro que me estou a referir aos Campeonatos Nacionais de Orientação, na vertente de Sprint e Distância Média, que decorreram no último fim de semana, nessa bela região alentejana.


Aproveitando para “queimar” mais um dia de férias (eles agora são tantos!!!), saí na sexta feira, para poder desfrutar um pouco desta viagem e poder juntar o agradável ao agradável (não, não é engano). Para mim, disputar uma prova de orientação, dá-me tanto gozo, quanto uma deliciosa sopa de tomate, forrada com umas migas, um belo dum borrego assado, regado com um qualquer tinto do “esporão” e a encerrar um sericaia (ou sericá?, mas tem de ser com ameixa). Pois é, já entenderam, isto da orientação é só um motivo para se fazer trezentos e tal quilómetros, para ir colocar os “joelhinhos debaixo da mesa”. Estou a brincar. A orientação é que justifica estas “tournés“ (ou é o contrário?). Ok! Estou a ficar baralhado (será que estou de ressaca?).

Foram dois dias ao mais alto nível! Esta espécie de orientista, em compita com a fina flor da modalidade (faz bem ao ego)!. Não esqueçam que faço parte dos escalões dos mais antigos (eles teimam em apelidar-nos de veteranos). Mas cuidado, isto é gente que, apesar da idade, anda a ritmos diabólicos (por vezes tenho de me desviar para não ser “atropelado”).

Na manhã de sábado, por sinal, bem quentinha, a organização presenteou-nos com um sprint urbano em pleno centro de Pavia. Esta pacata localidade coloriu-se com as cerca de oito centenas de concorrentes, vindos de norte a sul do país, que durante três horas calcorrearam as suas vias estreitas (alguns em nítido excesso de velocidade ), procurando os já célebres prismas laranjas. Ah! E tudo isto em contra relógio! Um autêntico rodopio vertiginoso, que para os mais desatentos dava a sensação de toda a gente andar desorientada. “Eles andam uns para cada lado, ninguém se entende!” Puro engano. Todos terminam no mesmo ponto. Isto é um milagre!

Agora vejam aqui o rapaz a partir na força do calor (12,29), para percorrer uns desgastantes mil e oitocentos metros (hehe). E foi esse calor (26º) que me deve ter atrofiado, para logo no primeiro percurso, fazer asneira (não é que a vedação parecia um muro?) . Surpresa!! Quando dei por mim, estava todo suadinho, a correr como um desalmado, e que ninguém me pedisse para parar (nem a BT). A coisa é para ser levada a sério, isto é um campeonato nacional, não podia fazer feio. Mas fiz (ohhhhhhh). Pudera, depressa e bem…. Mas do mal o menos, acabei a prova, dei conta dos pontinhos todos, e ainda consegui arranjar uns quantos para ficarem com um tempo pior que o meu (isto é um “must”). Mas deu-me cá uma “secura”! E à tarde ia haver nova dose, mas em pleno montado alentejano. Que os santinhos me ajudem. Ai deles!

 

 

- Pavia em dos dias (2)


Depois da prova “supersónica” que tinha feito de manhã, o prémio para o descanso do guerreiro, não poderia ser melhor que a verdadeira “sesta alentejana”. Mas nem sempre o que merecemos acabamos por ter (é uma injustiça). Há que seguir para o local da próxima prova, que dista de Pavia, uns cinco quilómetros. Aí, tive direito a uma sopinha (bem boa por sinal), acompanhada de “sandocha” de carne (um pitéu neste monte), regado com água (nós os profissionais somos assim ). O que me fez falta foi o meu querido “cimbalino”, é que nem a “bica” estava disponível. A parte logística nem sempre é fácil neste Alentejo profundo.

Bom….agora era a hora da sesta. Aqueles sobreiros davam cá uma sombra…! zzzzz…

De repente, alguém me abana: “Arranja-te, que temos de fazer o mapa de aquecimento”. Parecia a voz da minha mulher. Uops!!! Isto não é sonho, aquecimento??? Com quase trinta graus? Quem inventou esta? Mas a vida duma espécie de orientista tem altos e...baixos (carradas). Se me queria identificar com o terreno, convinha dar uma volta pelo mapa que nos foi facultado. O local era a “paredes meias” com a área da prova, portanto com características similares.

Gostei do que vi. Terreno quase plano, com um verde “prado” uniforme, com zonas um pouco pantanosas, salpicado de sobreiros (e de alguns “sólidos” de origem bovina), pouca vegetação rasteira e uma pedrita aqui e ali. Uma delícia para os nossos sprinters. A dura realidade veio depois.

17,30. Hora de partida para a minha segunda manga de sprint (uns míseros mil e setecentos metros). O que se passou nos cerca de 24 minutos seguintes, foi a constatação de que fui enganado! Então não querem lá ver que o belo do terreno se transformou por completo? Os prados e os sobreiros foram aparecendo, mas a organização reservou-nos uma surpresa. “Semearam” (enquanto eu fazia a sesta…só pode) umas milharadas de pedras, pedrinhas, rochas, penedos e restantes familiares, e tudo isto para facilitar a vida aos concorrentes!!! E não contentes, ainda nos arranjaram uma “agradável” vegetação quase intransponível, também para facilitar (ah malvado Tiago Aires!). Disseram os entendidos que foi para a rapaziada não se pôr para ali a correr a torto e a direito. Ai sim? Então que raio de percurso fez o Rui Antunes para gastar cerca de 12 minutos?

Cheguei completamente derreado. Mas ainda tive que fazer um esforço suplementar (para não ser castigado). Fui dar moral à minha mulher, que entretanto passava no ponto dos espectadores, que acabou por terminar ainda mais desgastada do que eu. Coitadita!

Quero dizer-vos que esta prova foi simplesmente espectacular! Adorei! O percurso foi técnico, com alguma exigência, mas isto é para os verdadeiros orientistas e não para totós (espécie de…), afinal sempre era um campeonato nacional. Parabéns ao CPOC.

Amanhã há mais e no mesmo local.

 

 

 

- Pavia em dois dias(3)


Quando nos deitámos, tanto eu como a minha mulher, sentiamo-nos satisfeitos, com aquela sensação do dever cumprido, porque apesar de não termos feito grandes “performances” desportivas, as provas tinham corrido dentro do esperado. E assim, cansados (um cansaço “bom”), mas felizes, atirámo-nos para os braços de “Morfeu”.

Ring…ring…ring…7,00. Já?

Que remédio. Hoje também estava disponível um mapa de aquecimento e as provas iniciavam-se ás 9,30. Claro que, com o orvalho da noite a temperatura estava baixa. Ia saber bem aquele passeio de desentorpecimento, quanto mais não fosse para “ligar os motores”. De resto, o terreno era o mesmo, só que a uma escala diferente (de 4000 para 7500).

A azáfama era enorme, estacionar, equipar, aquecer, rever resultados do dia anterior, confirmar partidas, comer uma “bucha”, comentários de circunstância, o convívio normal de pessoas que se sentem como uma única família.

Hoje ia ter pela frente um percurso de mais de quatro quilómetros. A distância não me preocupava (já levei com muito mais), mas tinha algum receio que o meu físico ficasse preguiçoso (dormi pouquinho) e como tecnicamente a coisa ia ser idêntica a sábado, tinha de ter alguma concentração. Ideias tinha eu.

O planeamento ruiu quase logo de imediato. Na primeira pernada, que até era de progressão fácil, resolvi fazer um azimute e fui ter ao monte de pedras ao lado, que é como quem diz, uns 30 metros. Só que pareceram quilómetros (vendo o tempo que demorei a dar com o ponto). Mas a “culpa” foi da bússola, que me foi emprestada pelo José Moutinho, devia estar sabotada ! São as “tonices” do verdadeiro “espécie de orientista”. Um percalço destes faria cair por terra, o moral mais elevado. Mas este “espécime” verga nas não cai (onde já ouvi isto?).

Fiz doze pontos de seguida, sem cometer grandes erros. E esta era a parte mais técnica. Mas no melhor pano cai a nódoa. O meu cavalheirismo (coisas do século passado) traiu-me. Ao sair do ponto 13 tive de socorrer uma senhora, que estava na lua (palavras dela). Fiz a minha boa acção e ala que se faz tarde, que agora eram meia dúzia de pernadas para correr, o que não é o meu forte. Que voltas dei ao mapa, que a vedação que eu ia passar, desapareceu-me da vista e de repente estava novamente no ponto 13? Sei que perceberam. Asneira e da grossa!!!

Os últimos pontos foram de sacrifício. Tinha de correr, mas o corpo não ajudava nadinha (a tentativa de recuperar as asneiras esgotou-me o depósito). E eu a vê-los passar!!! A raiva que me dá ver esta gente a correr daquela maneira. Mas já descobri a causa. São orientistas do novo milénio, que já vêm com GPS incorporado. A certa altura passam por mim, dois “bólides”, que com a deslocação de ar até temi apanhar uma pneumonia. Afastei-me e fiquei admirar o Mário Duarte e o José Fernandes numa disputa, que decididamente não é a minha (são do meu escalão, mas parecem juvenis). O Mário levou a melhor.

Lá consegui fazer menos de uma hora, que comparado com os 25 minutos do vencedor, parecem uma eternidade. Mas a minha competição estava ganha. Conclui mais uma prova sem fazer “mp” e tinha a sensação de que podia ter corrido muito pior. A coisa esteve “preta”.

Entretanto começa a minha (longa) espera pelo final da prova da minha mulher. Saiu cerca de uma hora e um quarto depois de mim, mas atendendo que tinha pela frente 3700 metros, eram bem horas de chegar. Se eu cometi erros, ela abusou. De repente dei por mim, quase sozinho, junto á meta, com mais dois companheiros de infortúnio. “As nossa mulheres perderam-se ou estão a pôr a conversa em dia?”

Quando estavam para sair as “equipas de salvamento”, ei-las que chegam frescas como alfaces. “Ainda anda pessoal lá dentro!” E aqui os desgraçados dos maridos a temerem o pior. Homem sofre!!!

A viagem de regresso é feita debaixo de um clima nostálgico, tipo fim de festa. Mas animem-se as hostes, no próximo fim de semana há uma “brincadeira” (para matar o vicio) do GD4C no Palácio Cristal, no Porto e logo de seguida, “Canha ai vamos nós!!!”