- Momentos – norte, sul…uma lágrima
O calendário apontava para aquele dia, prova
na Praia da Vagueira, sob a égide do Ori-Estarreja. Durante a viagem para o
local, as condições climatéricas não eram famosas, com o céu dum cinzento
carregado, ventos quase ciclónicos, o que nos fez equacionar a hipótese de
voltarmos para trás. Prevaleceu a nossa paixão pela modalidade, ainda que de
namoro recente.
Enquanto fazíamos uns exercícios de
aquecimento, preparando as partidas, o tempo foi piorando assustadoramente e só
faltava mesmo a descarga pluviosa, que me levou a propor à minha mulher levarmos
um guarda-chuva “clandestinamente”. “Nem penses, vais sozinho”. Afinal ia ser a
nossa primeira prova debaixo de chuva. Foi cá um baptismo!
O percurso iniciava-se num aceiro (tipo
avenida), apareceu o triângulo e “cuida-te” ponto 1, que estamos a chegar. Qual
quê? Houve foi despiste completo, porque logo a chuva começou a cair e o ponto a
“fugir”, quanto mais chovia mais o ponto desaparecia e disse eu: “Assim a chover
o ponto não vai aparecer”. Esta afirmação ditou como que uma sentença.
Claro que fomos “esbarrando” com dois ou três
pontos, mas não constavam do nosso cardápio. E o tempo degradava-se a olhos
vistos, uma escuridão quase total e o vento a complicar, atirando-nos para cima
com toda a espécie de vegetação menos resistente. A situação começava a ficar
crítica, mas num golpe do destino, demos finalmente com um ponto do nosso mapa.
A nossa alegria, depressa esmoreceu ao verificarmos que este ponto era o 9!
Nem queríamos acreditar, mas que voltas
teríamos dado, para nos encontrarmos precisamente, do lado oposto ao ponto 1?
Azelhice e da grossa. Decidimos voltar ao triângulo e constatamos o que já era
evidente, orientamos mal o mapa, e o norte passou a sul e vice-versa, o que
originou que tivéssemos virado à esquerda em vez de tornarmos à direita.
Confusões de espécie de orientista.
Com este novo alento, nem sentíamos que a
chuva se tinha intensificado e o vento tornava o cenário ameaçador, levando tudo
à sua frente (imaginem tudo isto em plena mata). A floresta apresentava-se
medonha e começámos a pensar seriamente em desistir.
De repente, pregando-nos um susto de morte,
do meio dos arbustos, surge um vulto, esbaforido, com um boné que lhe escondia
as feições, tão encharcado como nós e atira-nos de supetão: “Sabem onde estão?”
– “Por acaso neste momento até sabemos” respondemos com um sorriso amarelo. “Eh
pá, mas vocês são dos escalões abertos não é?” diz um pouco desalentado. “Tudo
bem, mas descanse que acabámos de deixar o triângulo, portanto… ainda não
controlamos o nosso primeiro ponto e já temos, deixa lá ver…40 minutos nas
pernas, que se calhar vamos desistir”. O nosso interlocutor ficou desesperado:
“Triângulo? Mas o que ando aqui a fazer? Esqueci-me dos limpa pára-brisas e
tramei-me, pois não vejo “puto” para o mapa”. Brincando pelo facto de usar
óculos. E logo retorquiu: “Nem pensem em desistir. Esta chuva não molha
orientista”. (ele não conhecia a “espécie”)
O próximo ponto deste amigo ficava a caminho
do nosso terceiro. Deu-nos boleia, com a firme promessa de tudo fazermos para
chegarmos ao final. “Olhem que eu depois vou confirmar”. Seguimos o “comboio”
até um “apeadeiro” perto do segundo ponto e mais orientaditos, conseguimos dar
com o primeiro controlo e começámos tudo de novo.
À medida que avançávamos no percurso, o
temporal ia acalmando, parecia um prémio pela nossa perseverança, de tal maneira
que quando finalmente atingimos as chegadas, o sol dava um ar da sua graça, por
entre o arvoredo.
A promessa feita a Sálvio Nora tinha sido
cumprida, apesar das 2.07,49, para os cinco mil metros da etapa. O erro de
palmatória, ao trocarmos o norte pelo sul (jamais!), ia-nos saindo caro, mas
este episódio com o saudoso Sálvio foi decisivo para a nossa continuidade na
prova. No final veio ter connosco a indagar se tudo tinha terminado bem, mas com
ele nem por isso, dado que uns finlandeses “velhinhos”, que se preparavam para o
POM2006, lhe tinham dado um “recital”.
Reconheço, que não consigo recordar-me deste
momento, sem uma pontinha de emoção. Mas da recordação que perdura, para além da
tempestade, a confusão com a “rosa dos ventos” e de toda aquela água que nos
fustigou impiedosamente, não resta mais que…uma lágrima.
Obrigado Sálvio.