Canha do meu
desencanto
Anda um homem a preparar-se, durante uma época, para estar ao seu melhor nível
na altura do Campeonato Nacional Absoluto da sua “querida” modalidade, e quando
chega à hora da verdade, pura e simplesmente declara “falência”. Não fiquem
admirados, o termo é mesmo este. Falha em toda a linha: técnica, física e
anímica.
Toda esta tragédia foi “encenada” pelo Clube de Aventura e Orientação de Sintra
e decorreu no passado fim de semana, em Canha, uma recôndita freguesia do
Montijo.
A desilusão foi de tal ordem, que pensei meter baixa ao fim do primeiro dia
(baixa psíquica está-se a ver). Fiquei quase “knockout”. Então não querem lá ver
que eu tinha 23 pontos para controlar, e esbarrei com mais de “50”? Isto foi uma
deslealdade por parte da organização. E o mais engraçado é que encontrava sempre
primeiro os dos “outros”. Bom, a falar verdade, é que nem me dei assim a grandes
“pastorícias”, mas um minuto aqui, dois acolá…cinco além, a multiplicar por,
pelo menos, metade dos pontos, levei uma “remessa” de tal ordem, que fui atirado
para pertinho do “carro vassoura”. E eu que cheguei tão bem ao ponto da lagoa!
Desde esse local (aquático), até ao ponto de água, foi um desenrolar de
“patetices” e “atascanços”, que nem necessitei de beber, com a “água” que já
tinha metido.
Quanto mais tempo perdia, mais fatigado me sentia (se calhar nem estava). O
lamaçal do ponto 15 parecia que tinha cola (os tipos da tv devem ter gozado á
brava ). Mas a psique é uma coisa dos diabos. Fazia um ponto bem, dois mal.
Quando comecei a encarrilar, resolveram “esconder” o ponto 19 (o tal do buraco
no cimo do fosso), e eu para “facilitar”, resolvi descer à vedação e quando
acertei com o fosso, olhei lá para cima, ia tendo um “fanico”, que deu vontade
de me sentar (estava nas lonas ou com “ouras”, já nem sei). Foi um momento de
verdadeiro “alpinismo” (autêntico João Garcia). Se posso complicar porque hei-de
facilitar? Estive ao melhor nível do espécie de orientista.
Mas o meu desencanto tem, também, outros contornos. Reconheço, que não é uma
tarefa fácil levar a “bom porto”, uma prova desta envergadura. Faço a minha
“vénia” a todos os clubes que metem ombros a estes trabalhos. Mas não ficaria
bem com a minha consciência (bem boazinha por sinal) se não fizesse um pequeno
reparo.
Até posso “fechar os olhos” ao “esquecimento” de insufláveis, do patrocinador
das águas, nas partidas e chegadas (água já havia muita). O arrastar das
partidas por mais de cinco horas, quando houve atletas a partir sozinhos (mais
vale só?), posso considerar uma prerrogativa da organização. A não existência de
“casinhas” para as nossas “urgências” (questão ecológica?), é compreensível. O
atirar dos “veteranos” para o fim da prova, entendo que terá sido para os
“proteger” da força do calor. O terem colocado o ponto 19 naquele local tãaao
alto, posso igualmente desculpar (hehe). Agora, o que eu considero imperdoável é
a falha “gastronómica”. Não disponibilizarem um bar junto à arena, para o
pessoal dar ao dente, poder beber umas “surbias” (ou bejecas como preferirem) ou
simplesmente estar na “cavaqueira”, é pecado que não tem penitência!
Imputo á organização a total responsabilidade pela minha ineficácia desportiva.
A minha “fraqueza”, por nítida falta de abastecimento, foi-se acentuando
gradualmente (até tive miragens duns bolinhos de bacalhau!), que o resultado só
poderia ser desastroso (o contrário teria de ser classificado no capítulo dos
milagres). “Estava a ver que não encontrava um bode expiatório para a minha
incompetência! ”.(sussurrem…)
Claro que compreendo a atitude da organização, ao “decidir” relegar-me para os
escalões abertos, usando todos aqueles “subterfúgios”. Afinal um campeonato
nacional, não deve dar acesso a estas “espécies”.
Sentia tamanha frustração (estava mesmo “cabeçudo”), que me recusava a
participar no domingo. Então eu passei uma época, para tomar a angustiante
decisão de “fugir” dos OPT´s e agora ia ter uma recaída? (nem há comprimidos
para isto)
Mas a minha mulher, num acto de pura chantagem, olhou-me nos olhos (bem de
frente brrrr….): “Vais participar na prova, ouviste? Senão…….”. Nem consigo
imaginar o que me estaria destinado (talvez me cortasse no caldo). Baixo a
cabeça e “ok eu vou, contrariado mas vou!!!”.
Como sou um rapaz de fortes decisões, assumi que esta seria uma prova para
“castigar o corpinho”. Os erros do dia anterior teriam de ser expiados. E se bem
pensei, pior o fiz. Estou a brincar! O percurso correu bastante bem, só dei
conta dos “meus” pontos, corri que me esfalfei, não poderia ter muito melhor
prestação (o ponto da “natação” foi espectacular). Agora, não sou ingénuo. Este
mapa era bem mais acessível que o do dia anterior. Portanto, se foi bom para
mim, foi óptimo para a concorrência. E lá fui arremessado para o meio da tabela
dos “perdedores”. Pelo menos fiquei de consciência limpa e pronto para outra.