NAU DE SONHO
Lancei ao mar um madeiro,
Espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
Medi a altura do Sol.
Após a imensa alegria da véspera, daquele final de dia em verdadeira apoteose, um Cine-Teatro de Castelo de Vide ao rubro vitoriando os heróis da jornada, não era normal tanto semblante fechado. Os ponteiros dos relógios caminhavam já para as oito da manhã daquele domingo e as salas de refeições de hotéis, albergues, pousadas, povoavam-se duma taciturna fauna. Não pelo desgaste físico acumulado. Tão pouco por uma noite mal dormida. Lá fora a chuva cai. Desconcertante e persistentemente.

Hora e meia volvida, no Vale da Silvana, tudo parece ser diferente. Ainda se deita um olhar desconfiado a uma ou outra nuvem que persiste no céu, mas percebe-se, como que por magia, que o mau tempo já lá vai. O espaço que nos rodeia é fantástico. Ali, no imenso e verdejante prado onde todos se vão agrupando, uma energia contagiante volta a invadir os espíritos. Não tardará a ter início a segunda jornada deste Norte Alentejano O’Meeting, com a disputa do Campeonato Nacional de Distância Média, e não se poderia esperar melhor cenário.


O orientista “puro e duro” não esconde a ansiedade nos momentos que antecedem a sua entrada em acção, mas a placidez do lugar convida mais ao recolhimento, à meditação. Para aqueles que amam verdadeiramente a natureza não existe modalidade mais apelativa do que a Orientação. Colocar à prova as capacidades físicas e o apuro dos sentidos, desfrutando do contacto íntimo com esta magnífica paisagem do Vale da Silvana, corresponde àquilo que, no mais íntimo de cada um de nós, se pode elevadamente aspirar. Mas chega de devaneio. O “cerimonial” altamente ritualizado já recomeçou com a deslocação da pré-partida para a partida, o “clear”, o “check”, a recolha da sinalética, o “start” para os OPT’s, os cinco sinais sonoros… Agora é cada um por si!

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
O mapa do Vale da Silvana mostrou-se particularmente desafiante face ao crescimento desenfreado duma vegetação constituída essencialmente por giestas, alimentada pelos solos ricos em água. A paisagem de sonho, marcada por profundas linhas de água e sinuosos regatos murmurejantes, encobria dificuldades insuspeitadas. Que o diga Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), sagrado na véspera Campeão Nacional de Sprint e que aqui, no 6º ponto dum total de 23, se “atascou” completamente – como se diz na gíria da Orientação – falhando-o e perdendo a possibilidade de discutir não apenas o título Nacional de Distância Média como o próprio Troféu Norte Alentejano. Quem não se fez rogado foi o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) que levou de vencida a etapa, com 34:51 para os 6.100 metros do percurso, contra os 37:58 do seu compatriota Johan Lindahl (Täby OK) e os 38:42 de Marco Póvoa (ADFA). Os 4º e 5º lugares viriam a ser ocupados, respectivamente, por Pedro Nogueira (ADFA) e Joaquim Sousa (COC).
Marco Póvoa não escondia a sua enorme satisfação por mais um título nacional: “Vim com o intuito de competir. As pessoas sabem que passei sete meses em Timor, estive praticamente dez meses sem treinar e competir, só este mês perdi cinco quilos e o meu intuito centrava-se em vir aqui para fazer o melhor possível.” Relativamente à sua prova, o atleta da ADFA confessa que “o mapa era exigente do ponto de vista técnico e é, seguramente, um dos melhores mapas que temos, a partir de agora, em Portugal. Mas o que eu gosto, acima de tudo, é de fazer Orientação e devo dizer que a prova não me correu muito bem. Cometi demasiados erros, mas os meus adversários cometeram mais erros ainda. Depois da desilusão no Nacional de Distância Média de 2007, em que fui quarto ou quinto, esta vitória acabou por ser muito moralizadora.” Relativamente ao que falta de provas na presente temporada, Marco Póvoa não esconde que estará no Nacional de Distância Longa, no Nacional Absoluto e no Nacional de Estafetas “para ganhar”.

Na elite feminina, a finlandesa Tiina Kivimäki (HS) repetiu o triunfo do sprint urbano, gastando 34:26 para os 4.800 metros do percurso (22 pontos de controlo). A distantes 4:25, Maria Sá (GD4 Caminhos) concluiria na 2ª posição enquanto outra finlandesa, Hanna Ruhanen (HS) seria 3ª classificada com 40:35. Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira) na 4ª posição e Emília Silveira (ADFA) no 6º lugar completariam o pódio Nacional de Distância Média.


Ainda a recuperar da imensa alegria de juntar o título de Sprint da véspera ao título de Distância Média, as primeiras observações de Maria Sá vão para o terreno em si: “Se me trouxessem aqui de helicóptero, com os olhos vendados e me deixassem, eu diria que estava no Gerês.” A abordagem foi cautelosa: “Comecei muito devagar. Percebi imediatamente que os pontos estavam muito próximos, numa zona extremamente complicada, mas comecei a ganhar confiança. Apesar de vir sempre à luta e acreditar na vitória, sabia que a Raquel Costa, que é cá do Alentejo, estaria mais talhada para este tipo de terrenos. Daí que esta vitória me deixa imensamente feliz, lutei até ao fim e valeu a pena.” Uma última referência para o mapa: “É daqueles mapas em que é preciso saber utilizar o semáforo. Quando pudemos correr, siga, é o máximo. Mas quando chegamos à zona técnica, ligamos o laranja ou o vermelho e andamos, se for preciso, a passo, para não falhar.”
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
JOAQUIM MARGARIDO
