COM OS OLHOS CERRADOS
Estendido sobre o leito,
hirto, e de olhos fechados,
exactamente como se tivesse morrido,
fiquei à espera de uma coisa qualquer.
Silêncio.
Impossível descrever esta força. Uma estranha, enorme força que me prende à terra, me oprime o peito, me aniquila o querer e a vontade. Sinto-me como que curarizada por um qualquer dardo envenenado soprado da zarabatana certeira dum astuto índio nos confins da selva amazónica. Mas não há árvores, nem pássaros coloridos com os seus gritos estridentes, nem a humidade sufocante que se desprende do rio. Apenas este imenso terreiro e o sol que me cega. E gente… toda esta gente à minha volta, alheada, indiferente, falando animadamente ou disparada em todas as direcções numa alegre correria. O coração bate-me a descompasso, tenho a testa perlada de suor. Que faço aqui deitada? E aquele velho, no alto da escadaria, porque olha para mim daquela maneira? De que ri? Porque não me vem socorrer?

O peito esvazia-se como um balão que se desinsufla. Corro. Corro sempre, levada para lá da imaginação por um qualquer impulso indecifrável. As pedras irregulares da calçada magoam-me os pés nus, mas corro, corro o mais que posso. Cruzo-me com outros que, também eles, correm, trazendo nas mãos estranhos objectos e não menos estranhos mapas, de verde e cinzento coloridos. Olho para as minhas próprias mãos e também eu tenho um mapa igual. Rodo-o em todos os sentidos, tentando decifrá-lo. Nem o nome duma praça, duma avenida, duma rua. Tão pouco sinais dum “H” ou dum “i”. Apenas aquele verde e cinzento, umas estranhas linhas castanhas, uns pequenos pontos pretos… E números, muitos e grandes números a vermelho, no centro de círculos igualmente vermelhos. Levanto os olhos do mapa, contemplo a imponente abertura na muralha à minha frente e leio baixinho: “ERA SENHOR O MUI NOBRE REI D. AFONSO DE PORTUGAL FILHO DO MUI NOBRE REI D. DINIS”.

Recuo um passo… dois… três… Continuo a recuar, mais depressa, mais depressa, até perder o equilíbrio. Mas não há queda. Um estrado de cristal de rocha suporta agora o meu corpo. No seu interior, debruada a ouro e esmeraldas, uma gigantesca rosa-dos-ventos indica-me os pontos cardeais à medida que me elevo numa espiral de sonho e de vertigem. Agora vejo-a, pequenina vila de branco caiada, profundamente, imensamente bela. Dominada pelo altivo castelo, rasgada por serpenteantes ruas e ruinhas e pontuada de pequeninas torres sineiras, cujos nomes passam diante de mim como que por magia: Santo Amaro, S. Roque, S. Francisco, S. João Batista, S. Tiago, Nossa Senhora da Alegria.

Um rumor brando,
vagamente sibilante
como um gás que se escoa sem ruído,
penetrou-me os ouvidos
e foi-se ocupando do cérebro, manhosamente,
como coisa sua,
nível após nível, milímetro a milímetro,
num alargamento insidioso
que tudo ocupa e tudo inutiliza.
Sou atraída para uma rua estreita onde brinca o frio vento norte por entre estas duas portas geminadas da casa da esquina. Lá dentro, uma voz cava entoa um cântico sagrado. Entro. As costas estão geladas e tenho a blusa empapada em suor. Homens de fato escuro e camisa branca, imaculada, acotovelam-se na acanhada sala, o olhar preso na criança entregue pelos pais aos cuidados dum casal. É um bebé, ainda. Tem apenas oito dias. A mulher deposita sobre o colo do homem a criança, que rompe num choro agudo, penetrante. Todos sorriem. Estranhas palavras bailam na minha cabeça: “Brit Milá”, “Kvater”, “Sandec”. “Mitzvah”. É então que, de todas as bocas, sai um sussurrado “Mohel”. Reparo no homem, na sua longa barba branca, no pequeno bisturi que segura firmemente na mão direita enquanto se aproxima da criança. Que parou de chorar…

Corro agora o mais que posso. A rua inclina-se abruptamente e desço a uma velocidade vertiginosa. Enormes floreiras nas entradas das portas, um gato que recebe os raios de sol de final de tarde, mulheres a varrerem um pátio, heras esculpidas num portal granítico, pessegueiros em flor, varadins de ferro forjado, uma fonte. “Água da Fonte da Vila”, lê-se sobre uma porta ao fundo da pequenina praça. Mergulho as mãos até aos cotovelos e deixo-me assim ficar. Observo a fonte, o seu mármore polido, a forma de candelabro, o menino esculpido numa das faces, agachado e com um joelho em terra, parecendo ajudar a segurar a coroa que encima o escudo real. Passou muito tempo, pouco tempo, quem sabe?… Tenho as mãos geladas e dormentes, uma dor fina atravessa-me a axila esquerda. Num repente, retiro os braços da água, molhando tudo à minha volta.

É tarde e tenho de regressar. Os candeeiros emitem uma luz fantasmagórica e a noite enche-se de sombras irreais, perturbadoras. Caminho sem destino, o inútil mapa ainda e sempre cerrado entre as minhas mãos. Olho para o fundo da estreita rua e sou atraída por um intenso clarão. Apesar de permanecer imóvel, a luz vai aumentando e o seu brilho quase me cega. Percebo, pelo tremendo ruído, que uma multidão se aproxima, entra na rua e vem ao meu encontro. Impossível resistir àquela maré de gente que toca efusivamente campainhas e chocalhos no meio duma imensa alegria. Pergunto ao homem que trás uma criança pela mão onde vão todos. “Vamos ver aparecer aleluia”, diz, quase sem me olhar.

“Pi… pi… pi…” Estou novamente no terreiro e aqueles sons agudos, ritmados, parecem querer perfurar-me os tímpanos. Todos olham para mim com impaciência. Tenho o mapa na mão mas não sei o que fazer dele. E aquele interminável “pi… pi… pi…” a martelar-me aos ouvidos. Tenho de fazer algo, mas o quê? Impossível suportar mais esta angústia. Perco-me em mim mesma, liquefaço-me por dentro, caio no abismo… Dou um salto da cama! O despertador não pára de emitir um sincopado e monótono “pi… pi… pi…”. Tropeço na roupa espalhada pelo chão e aproximo-me da janela. Está ainda escuro. Olho para o relógio: 06:51. Lá fora a chuva cai, impiedosa morrinha “molha-tolos”. Sento-me na cama. Aos meus pés, amarrotado, um mapa. Verde e cinzento. Na penumbra, consigo ler: “CASTELO DE VIDE”.

Agora eram acenos, mãos veladas
que me chamavam,
como se além de nós houvesse mais alguma coisa,
como se na paisagem esvaziada da morte
caber pudesse a memória de um sorriso,
aquele sorriso branco, profundamente interior,
que é suporte da vida
e dela o único bálsamo.
Permaneci esperando,
hirto, e de olhos fechados.
Esperei.
Esperei.
E como nada mais acontecesse
levantei-me, e fui fazer o pequeno-almoço.
JOAQUIM MARGARIDO
