INSTANTE
Ali, em certa tarde,
ia um homem no acto de quem anda
e vai continuar.
O pé direito atrás, mal tocando no chão,
o esquerdo mais à frente, levantado.
O centro histórico de Castelo de Vide, “notável vila do Norte Alentejano”, recebeu a segunda manga do Campeonato Nacional de Sprint de Orientação Pedestre. A jornada matinal não pareceu afectar fisicamente os atletas, atendendo à energia e ao entusiasmo com que se foram apresentando na Praça D. Pedro V, num solarengo e acolhedor início de tarde. Enquanto se procedia ao aquecimento e se aguardava pacientemente pela entrada em acção, Póvoa e Meadas era, ainda e sempre, o denominador comum de todas as conversas.

À medida que a prova se desenrola, percebe-se que está atingido um dos grandes objectivos da Organização. Com efeito, aos muitos populares que, das escadas dos Paços do Concelho ou do varandim da Igreja Matriz, assistem às partidas e chegadas, juntam-se agora os habitantes do centro histórico que, pacatamente instalados à soleira das portas ou das janelas das suas casas, seguem atentamente o desenrolar dos acontecimentos. Estamos perante uma autêntica “operação de charme” na qual a Orientação se dá a conhecer, levantando interrogações, suscitando comentários, despertando a curiosidade, chamando a atenção.

Na vertente competitiva, a prestação vespertina acabou por ser determinante no escalonamento final dos atletas. Apesar de ligeiramente mais curtos e com menos controlos, os percursos apresentavam elevado grau de dificuldade técnica, como que a provar que a simplicidade dos mapas urbanos é mais aparente do que real. A este facto acresce uma enorme exigência do ponto de vista físico, num desgastante sobe e desce por entre uma malha urbana tecida aos sabores dum relevo com tanto de belo como de caprichoso.

Todo o corpo do homem se inclinava
obliquamente em relação ao solo.
Na prova destinada à elite masculina, o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) levou de vencida a concorrência ao completar os 2500 metros do percurso em 16:33. Os três atletas seguintes – Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), Marco Póvoa (ADFA) e Joaquim Sousa (COC) - viriam a conquistar o pódio nacional de Sprint por esta ordem, com o vencedor da manhã, Paulo Franco (AA Mafra), a ter um desempenho menos conseguido e a não ir além do 15º posto, que o atiraria para o 8º lugar no Nacional.

Ao repetir o segundo lugar da manhã, Tiago Aires alcança um título com um sabor muito especial, como o próprio admite: “É sempre importante um título nacional, mas este é-o em particular já que nunca tinha ganho o Campeonato Nacional de Sprint como sénior.” Relativamente ao conjunto das duas provas, Tiago Aires foi de opinião que “os locais onde se desenrolaram eram ideais pelas suas características, o de floresta com muitos detalhes rochosos mas de fácil progressão e o urbano num local fantástico, seguramente um dos melhores mapas de sprint urbano no nosso País”. E destaca ainda as vantagens deste figurino em duas mangas, “conciliando a floresta com a parte urbana e proporcionando às pessoas uma segunda prova, já que é muito desmotivador fazer uma deslocação tão grande para um quarto de hora de prova.”

A elite feminina viu a finlandesa Tiina Kivimaki (HS) alcançar uma vitória de sabor amargo, depois desse desastroso “missing point” da manhã que a afastou irremediavelmente dos lugares cimeiros do Troféu Norte Alentejano. Maria Sá (GD4 Caminhos) confirmou a excelente prestação da primeira manga e, graças ao segundo posto, repete o título nacional alcançado em Pavia (Mora), em Abril do ano passado. Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira) e Paula Nóbrega (OriMarão) ocuparam os lugares imediatos do pódio.

Para Maria Sá, “esta vitória é muito importante e corresponde a um objectivo que tinha traçado, já que foi nesta distância que apostei este ano e para a qual estou a trabalhar.” Mas a vitória teve um sabor especial também porque foi conseguida “numa prova organizada pelo ‘4 Caminhos’ – claro! -, e por ter corrido com a adversária mais forte, que é a Raquel Costa”. Para Maria Sá a chave da vitória esteve na parte da tarde, “embora não tenha entrado tão rápido no mapa como de manhã. Apesar de ser em percurso urbano, havia muitas escadas, calçada portuguesa, muitas subidas e foi complicado. Mas tecnicamente estive muito bem, praticamente não cometi erros e penso que foi isso que me deu a vitória.”

Desde o princípio do mundo
que tudo estava orientado naquele exacto sentido.
Naquele instante
aquele homem
teria aquele pé levantado do solo,
o esquerdo,
e o outro, o pé direito, levemente pousado.
JOAQUIM MARGARIDO
