NESTA ENVOLVENTE SOLIDÃO COMPACTA
Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.
Nasci na noite dos tempos, do magma solidificado das profundas do manto. Vi abrir-se a terra à minha volta, escalavrada em vómitos de lava e golfadas de cinza, ante o riso aterrador de Zeus e Vulcano. Torrentes de lama, ventos ciclónicos, chuvas diluvianas, marés geladas, arrancaram-me camadas e camadas de pele, espalhando-a aos quatro ventos e modelando-me naquilo que sou: Redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca, inerte.

Sou pedra, sim! Sou pedra-mãe, orgulhosamente transformada neste bloco granítico plantado no ponto mais alto da colina mais alta. Os meus filhos são todos os pequenos grãos de quartzo, feldspato e mica que se estendem à minha volta, se agarram às frágeis raízes das papoilas, revolteiam com o vento sul ou se comprimem debaixo de mim. E se tenho um coração de pedra, se o sangue há muito que me estagnou nas veias, isto não significa que não tenha alma. Redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca e inerte como eu mas, ainda assim, alma. Que tudo vê, que tudo sente, que tudo sofre.


Agora que vos vejo aqui, correndo em redor de mim, compreendo o porquê de me terem plantado à ilharga uma estaca, com um número bem desenhado e na qual baloiça ao vento um belo prisma alaranjado e branco. Foram dois de vós que aqui a deixaram, ainda mal se anunciava a alvorada. Quando a águia-real passou e, como todos os dias, me trouxe notícias do Norte, da Ribeira de Figueiró e da lagoa da Fadagosa, quis saber a sua opinião. “Estão a preparar-te alguma”, ouvi-a gritar, toda elevada no majestático voo, a caminho de Alpalhão. Elevei os olhos para a pequena aldeia e, por três vezes, repeti baixinho o seu nome: Nossa Senhora da Graça de Póvoa e Meadas.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Porque teimais em correr, correr sempre? Convido-vos a trepar no meu dorso. Retende-vos por momentos e contemplai a paisagem. Sabei que aqui, neste preciso lugar onde vos encontrais, outros olhares perscrutantes sondaram o horizonte há vinte mil anos atrás. Aqui se fixaram na manada de esquivos e imponentes auroques que lá em baixo pastavam. Aqui os aguardaram pacientemente, os embuscaram e mataram, aqui comeram a sua carne ainda morna e, com as mãos tintas de sangue, sobre a minha pele fremente gravaram o relato dos seus feitos. E gritando, daqui partiram com um dos seus, estropiado e já sem vida, para o enterrar lá para a Melriça, algures além da terceira colina.

Pulsa em mim uma energia transbordante quando vejo os mais pequenos, também eles em alegre correria. Sei bem o quão inútil seria pedir-lhes para se quedarem um pouco comigo, crianças que são, irrequietas por natureza, fugidias por virtude. Contar-lhes-ía a história de Búcia, filha de Câmalo, de como viveu em plenitude a vida que deveria ter vivido, de como encheu os seus anos, de como partiu há dois milénios atrás. O quanto gostava de mim e da minha sombra, da minha solidez e austeridade. De como em mim se refugiava. Do quanto sofri quando aos meus olhos a sua estela ricamente lavraram e à cabeceira da sua campa a depositaram. De como ainda mais sofri quando a sua tumba vandalizaram e daqui a lápide levaram para servir de esteio a uma das casas da aldeia.

Póvoa e Meadas, Póvoa e Meadas, que nada escondes e tanto tens para contar. Porque não dizes de como foste fundada pelos Templários? Terás ainda vergonha dos irmãos Cáceres, castelhanos de má memória? Ou desse terrível assassino e usurpador de direitos que foi Fernão de Macedo? Porque não lhes falas da doação que D. Afonso V fez a Pedro de Moura? Ou do Alferes de Ordenanças João de Almeida e do seu heróico gesto de restauração da Bandeira, em 1642, durante a longa guerra com Castela? Ou do triste episódio do ferreiro Miguel Dias, vítima da Inquisição, que em Évora experimentou o potro e recebeu tratos de polé? Ou da tua Barragem, da Romaria de S. Silvestre, do Madeiro pela Nossa Senhora da Conceição, do Carnaval e do S. Martinho, das Festas de Verão? Ou…


Bem sei que não adianta olhar para trás. Mas que queres? O meu tempo não é igual ao teu. Passa tão devagar. Aqui onde me encontro sou redonda, rugosa, enegrecida, gigantesca e inerte pedra que mais não tem que memórias, perdidas no tempo dos tempos para passar o tempo. O meu tempo, nesta envolvente solidão compacta! E se o meu coração é de pedra, se há muito que o sangue me estagnou nas veias, ainda me sobra esta alma que vive o tempo presente. Na apatia da Catarina Fernandes, nas certezas da Olga Pirrolas, nas precauções do Ataíde Rosa, na confiança do João Filipe, na esperança do José Oliveira, na indecisão da Sophie Sampaio… No coração e no olhar de todos vós. E na alma deste Norte Alentejano O’Meeting.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém.
JOAQUIM MARGARIDO
