MINHA ALDEIA
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
O Sol vai alto e inunda a aldeia de luz e cor. Póvoa e Meadas é ponto de confluência de orientistas de todo o País. Plantado no centro da povoação, o Rossio vai acolhendo uma estranha, entusiástica, ruidosa, colorida multidão. Instalados nos pequenos bancos em torno do largo, sentados nos passeios que delimitam mimosos e floridos canteiros, conversando em animados grupos à volta do coreto, recolhendo a certificação junto ao Secretariado ou tomando café no “Comezainas”, todos aguardam tranquilamente pela chegada das onze horas.

Disputado em duas mangas, o Campeonato Nacional de Sprint terá o seu arranque num terreno típico de montado Alentejano. Gigantescos blocos graníticos e seculares sobreiros competem com marcos geodésicos, depósitos de água e um ou outro casebre, abrigo de pastores e do gado, pelo domínio da paisagem. Alheias a tudo, as giestas em flor estendem-se a perder de vista, explosão de pontinhos brancos, luminosos, delicioso fogo-de-artifício que se abre aos nossos pés, ao nosso olhar.

Mapa na escala de 1 / 4 000, distâncias, desníveis e controlos variáveis de acordo com cada um dos 32 escalões em prova, dos 1.100 metros (12 controlos) em Infantis, aos 2.700 metros (25 controlos) nos escalões H21Elite e H21A, são aspectos técnicos que não se dispensam e que geram as maiores expectativas em todos. Que já se vão concentrando junto ao pórtico da pré-partida, vão dando e nome e arrancando, cada um ao seu ritmo, rumo à partida real.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Ao longo deste escasso quilómetro, a animação persiste ainda. Mas quase se limita aos OPT’s, àqueles que estão aqui para absorver mais de perto as belezas naturais, olhar pela sua saúde através da prática do exercício físico e (porque não?) pôr à prova os seus conhecimentos, capacidades e sentido de orientação. Todavia, quem veio para competir, sabe bem que o espera uma prova muito rápida e onde talvez valha a pena arriscar tudo. Ou talvez não! Tem-se igualmente consciência de que qualquer pequeno deslize pode traduzir-se num resultado deveras aquém das expectativas. E com pouca margem de manobra para recuperar na segunda manga, da parte da tarde, no centro histórico da vila de Castelo de Vide.

O mapa revela-se simultaneamente técnico e muito rápido. E traiçoeiro, também. Na elite masculina, Paulo Franco (AA Mafra) arrancará um sensacional tempo de 15:31, sobrepondo-se aos favoritos Tiago Aires (SRSP Gafanhoeira), Joaquim Sousa (COC) e Marco Póvoa (ADFA), com o sueco Crister Nygren (Norbergs OK) de permeio. Separam-nos tempos inferiores a um minuto, o que deixa tudo em aberto para a segunda manga. Nas senhoras, uma Maria Sá (GD 4 Caminhos) ao seu melhor nível bate toda a concorrência, gastando 18:22 para os 2,4 km do percurso, abrindo as melhores perspectivas para levar de vencida este Campeonato Nacional de Sprint. Termina com praticamente dois minutos de vantagem sobre a sua mais directa opositora, Raquel Costa (SRSP Gafanhoeira), terceira classificada, e tem agora uma confortável margem de tempo para gerir. O segundo lugar é ocupado pela sueca Elin Pettersson (Täby OK).

No “Comezainas” não há mãos a medir. Entre dois dedos de conversa, prova-se sopinha caseira, umas bifanas no pão de se lhe tirar o chapéu, bola de carne, tartes, tortas, rolos e umas queijadas de ir às lágrimas. Delicioso lenitivo que permite recuperar o corpo e o espírito. De regresso à vila, apreciamos o alcantilado castelo e adivinha-se o branco casario na encosta sul. Para trás fica Póvoa e Meadas, muita alegria e satisfação. Mas também uma nota de contestação: “Não correu bem, as coisas não funcionaram.” Quem assim fala é José Mendes, Presidente da Junta de Freguesia, um homem que, depois de se ter reformado, assumiu os destinos da Junta, onde diz estar “por carolice”.
Vai no terceiro mandato, sempre com maioria absoluta, é um homem querido e respeitado por todos e ama a sua terra acima de tudo. Com total entrega, alegria e entusiasmo colaborou com a Organização, mas no final sente-se desgostoso: “Não queremos protagonismo mas faltou um ‘toque’, merecíamos um pouquinho mais de atenção. Os Governos não querem saber das Juntas de Freguesia rurais e acabamos sendo o parente pobre da Democracia. Daí que isto fosse importante para que nos mostrássemos pela positiva. Já pus um ponto final no assunto, mas o certo é que Póvoa e Meadas perdeu a sua oportunidade.” Não veremos José Mendes no Jantar. Tão pouco na Cerimónia de Entrega de Prémios, ao final da noite. Para ele, o Norte Alentejano O’Meeting terminou.

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
JOAQUIM MARGARIDO
