NO TEMPO DOS HOMENS-RÃS

 

Sou feliz por ter nascido

no tempo dos homens-rãs

que descem ao mar perdido

na doçura das manhãs.

 

“É um sonhador?” A pergunta apanha-me desprevenido, como desprevenido me apanha a situação, aquele momento, aquele tempo e espaço. Sentados, num frente-a-frente apenas entrevisto como que em sonho, ali estamos os dois, o embaraçoso microfone a tolher-me as ideias, a embotar-me os sentidos, a roubar-me a palavra. Mas porque hei-de estar assim, coração a descompasso, o olhar vazio pousado sobre coisa nenhuma? Não sou eu um sonhador? Claro que sou um sonhador. Acima de tudo!

 

 

Fernando Correia é o meu interlocutor. Ali estamos, eu e ele, dois sonhadores entre o bucolismo duma ruralidade que nos entra pelos olhos adentro e a angústia de ser “mãe-mulher”, lavrada a sangue e tinta nas alvas paredes deste Salão Nobre da Câmara Municipal. Demandou Castelo de Vide ao encontro da indissociável tríade “Orientação - Norte Alentejano O’Meeting - Fernando Costa”. Trouxe consigo essa necessidade intrínseca de comunicar, de colher ideias e impressões, de as espalhar aos quatro ventos nos longos cabelos ondeados do Rádio Clube Português. E que bem que o faz.

 

 

Falo-lhe do sonho. Daquele que comanda a vida. Dessa absoluta necessidade, desse acreditar de que tudo vale a pena, dessa busca incessante de experiências feitas de vida, feitas de sonho. Falo-lhe do João, da contagiante alegria de ser criança, de caças ao tesouro, da célula familiar fortalecida por ideais e objectivos comuns, dos escolhos e dificuldades em trilhar o bom caminho, do tempo perdido, do ponto perdido, da constante necessidade de reorientarmos os nossos interesses e vontades, do sentido da vida, de vidas sem sentido. A palavra flui torrencialmente. Já consigo olhá-lo nos olhos. Vejo-o sorrir, sinto-o a sonhar. Obrigado, Fernando Correia, pela tua sensibilidade, por acreditares que é sempre possível revelar o rosto dos que não têm rosto, por teimares em dar voz às palavras.

 

 

Sob o luminoso feixe

correm de um lado para outro,

montam no lombo de um peixe

como no dorso de um potro.

 

A emissão aproxima-se do fim e a viagem prossegue com o Dr. António Pita ao encontro de saberes e sabores. Poiso o olhar no Fernando Costa. Adivinho no seu rosto sereno a tremenda contradição entre a emoção do momento presente e o caminho que se abre à sua frente, agora que se escoa todo um longo e árduo trabalho de preparação e é chegada a hora da verdade.

 

 

Deixo de estar ali, o pensamento atravessando na diagonal um ano recheado de explosões de alegria ou de angustiantes retrocessos. Procuro investir-me na sua pele mas a tarefa revela-se impossível. Quantos milhares de quilómetros vencidos entre Matosinhos e Castelo de Vide, quantos contactos, quanto emoção partilhada sob a forma de texto, quantas expectativas criadas, quanto desilusão pelo toldo que se perde, pelo camião que se avaria, pelas partidas que a informática nos prega, quanta tristeza pelo amigo que perdeu alguém que lhe é querido e não recuperou forças nem ânimo para uma solidária presença.

 

 

Mas são tantos os presentes. A Aida, a Céu, o Zé Mário, o Cabral, o Luís Faria, o Octávio, o Marcolino, o Manuel Martins, o Castro, o Moutinho, o Delgado, o João Alves, a Margarida, o João Teixeira, o Ricardo… Com uma família assim, nada há a recear.

 

 

O jantar estende-se noite dentro. Descubro um pouco mais de Castelo de Vide pelo saber de experiência feito de António Ribeiro e Carolino Tapadejo. Açorda, ensopado de borrego, plumas de porco alentejano, doçaria conventual e um Conventual Tinto 2006 de se lhe tirar o chapéu, são pretexto para duas horas de fraterno convívio e de aproximação entre todos. Unidos num ideal comum, brindamos a Castelo de Vide e à natureza, à Orientação e ao Norte Alentejano O’Meeting. É uma da manhã, hora de descansar!

 

 

Eu sou o homem. O Homem.

Desço ao mar e subo ao céu.

Não há temores que me domem.

É tudo meu, tudo meu.

 

JOAQUIM MARGARIDO