ESTRELA DA MANHÃ

 

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,

vindo de qualquer pai,

acorda e vai.

Vai.

Como se cumprisse um dever.

 

O Sol inunda a terra de cor e vida nesta Primavera antecipada. A cálida manhã espraia-se à minha frente, apontando-me caminhos do Sul. Esse mesmo iniciático Sul que marcou a minha estreia nas lides da Orientação. Um Sul que me espera e que se chama Norte: o Norte Alentejano O’Meeting.

 

 

 

Em marcha. Algures, do mais profundo de mim, começam a brotar memórias. Pequenos farrapos que se vão tecendo, modelando, ganhando forma, ganhando corpo. Qual poderoso quebra-gelos, avanço ao encontro do Ártico e vejo os pequenos blocos compactarem-se, agigantarem-se, até me envolverem dum branco-azul irreal, que tudo cega, que tudo ilumina.

 

 

 

Devoção, encanto, deslumbramento, emoção, recordação! Saudade!... Turbilhão dos sentidos, razões que a razão desconhece. Sou Ícaro sonhador que se aproxima perigosamente do sol para depois cair, lentamente, apaixonadamente. Não no mar Egeu, mas em Nisa, onde tudo começou.

 

 

 

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;

nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.

E em seu impessoal desejo latejam todos os restos

de quantos desejos ficaram antes por desejar

 

Abre os olhos e vai.

 

Impossível resistir. Volto a percorrer as estreitas ruas, as pequeninas praças. Andorinhas saúdam-me num gorjeio dobrado. Bebo com emoção cada pedrinha incrustada naquela bilha centenária. Vou ao encontro do caminho para Montalvão, do 28 sobre uma porta, dum rosto vivo de pedra feito. Um deus desconhecido, Correio de Portugal, um cão que ladra, rendas de bilros, frisos amarelos, azuis, ocres. E candeeiros, e ninhos, e azulejos. E velhos à conversa na quietude do tempo…

 

 

 

Transfundiste em mim a alma sem te pedir autorização, sem te dar nada em troca, ó Nisa. Salteador dos sentidos, mercenário de sonhos, tenho agora um único objectivo. Não quero, não posso olhar para trás. A estrada alonga-se, as margens estreitam-se. Atrás duma lomba, outra lomba e mais outra, ainda. Improvável rato, aceito entrar na brincadeira onde o gato é o destino.

 

 

 

Espectadores atentos na voragem do tempo, os arredondados blocos graníticos tudo vêem, tudo avaliam. Só é quietude na aparência. O cheiro acre da giesta queimada, ninhos de cegonhas, uma vaca que atravessa o campo em correria, o Bastinhas que vai lidar em Alpalhão no domingo de Páscoa, um cruzeiro na berma da estrada onde alguns, alguns dias, deixam parte de si por aquele que, num só dia, num só momento, se permitiu dizer adeus…

 

 

 

E de súbito… Castelo de Vide. Um sol que beija com enlevo o branco casario. Um castelo que se oferece ao olhar. Lá dentro, a vila a ressumar de vida, a alma à espera de se dar. É urgente chegar.

 

 

 

Segue o teu meridiano, esse,

o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;

o plano de barro que nunca endurece,

onde a memória da espécie

grava os sonos imortais.

 

Vai.

 

JOAQUIM MARGARIDO