SOMOS FILHOS DA MADRUGADA
Cedendo às emoções da jornada, a “tribo” da Orientação em terras de Nisa prepara-se para uma noite de sono retemperador. A pouco e pouco, uns e outros vão caindo “redondos” no mais confortável leito ou entregando-se pacificamente aos mistérios insondáveis do “solo duro”. A calma regressa à vila. Todos dormem profundamente, embalados numa toada surda que tudo envolve. Lá fora a chuva cai. Persistentemente! Pesadamente! Impiedosamente!

Com os primeiros alvores da madrugada vem a profunda decepção: o tempo amuou. “O avô cavernoso instituiu a chuva”. A forte ventania e as fortes bátegas de água levantam naturais reticências ao normal desenrolar da decisiva etapa do Norte Alentejano O’Meeting. Despeço-me de D. Gracinda e Zé d’Aldeia, o simpático casal que me acolheu na Vila da Amieira, e parto para as Termas da Fadagosa, na freguesia de Arez, a 12 kms da sede do Concelho. O edifício das Termas, em fase de remodelação, está provisoriamente transformado em Centro de Apoio. A afluência ao local da prova é enorme e todos buscam o melhor local para estacionar.

Às 9h30 tem início a derradeira etapa. O mapa das Termas da Fadagosa é idêntico ao da prova da véspera, em Arez: o mesmo tipo de terreno, típico de montado alentejano, com muitos pormenores rochosos. Só a distância varia, sendo de 6.100 metros para as elites masculinas e de 4.800 metros para as elites femininas. Saio para o terreno e elejo uma elevação para me instalar e acompanhar o desenrolar das provas. Quando dou por ela, estou rodeado de orientistas por todos os lados. A mesma emoção da véspera, a mesma energia e uma alegria redobrada, agora que as nuvens começam a dissipar-se e o sol abraça a campina. “Bendito seja o pão, bendita seja a flor.”

Não tenho mãos a medir. Aponto a máquina para todos os lados e disparo, disparo, disparo. De repente, à minha esquerda, dou com Maria Sá completamente “atascada” em busca do ponto pretendido. “Já fui a corda da lira a vibrar.” Terá deixado fugir aqui a grande hipótese de se abeirar decisivamente do pódio. “Perdi algum tempo em pontos muito fáceis e isso estragou muito a minha prova”, reconhece. Mas não desarma: “Para mim, é fundamental a Orientação. O meu curso é muito exigente e preciso da Orientação para descomprimir. Apesar de ter a noção de que é complicado conciliar as duas coisas e que acabo, por vezes, por prejudicar ambas.” No final, não pode deixar de se sentir orgulhosa, quer pela sua prestação quer pela dinâmica organizativa ao longo destes três dias. “Para mim, o Grupo Desportivo 4 Caminhos é uma família.”

O final do Norte Alentejano O’Meeting aproxima-se a passos largos. Mas com os orientistas ainda em prova, contas só mesmo no final. Abeiro-me de Fernando Costa, o homem sobre cujos ombros pende a maior quota-parte de responsabilidade nesta Organização sem reparos. Coloco-lhe a questão sacramental: Que balanço? “Presença serena que a tormenta amansa.” Responde-me com emoção: “A prova tem de acontecer sem haver necessidade de eu estar presente. E aqui senti isso. Esteve tudo de tal maneira bem montado que eu poderia ter desaparecido que a prova rolaria normalmente.” Daí que o balanço seja “extremamente positivo. Foi o concretizar de um sonho de há longos anos e hoje sinto-me particularmente feliz. Tivemos 20 países, cerca de 940 atletas inscritos no total, alguns escalões abertos com participantes que se estrearam na Orientação, provas de iniciação para as escolas da região no primeiro dia.”

O orientista por excelência é aquele que, antes de abordar o ponto, está já a antecipar o ponto seguinte, sem quebras, sem perdas desnecessárias de tempo. Com Fernando Costa e o Grupo Desportivo 4 Caminhos, passa-se o mesmo em termos organizativos. “Num terreno ao lado a palavra rompeu.” E vai levantando a ponta do véu: “Temos já atribuída a organização do Norte Alentejano O’Meeting 2008 para Castelo de Vide, onde vamos integrar nessa prova o Campeonato Nacional de Sprint e o Campeonato Nacional de Distância Média. E estamos já a tentar a candidatura para 2009, para Alter do Chão. Vamos procurar arrancar ao mais alto nível e ver até onde poderemos chegar.”

“Ficámos muito contentes por ter cá grandes nomes da Orientação mundial mas aquilo que nos enche de alegria é verificar que foram muitos aqueles que cumpriram o evento por completo, ao longo das 3 etapas. E ficamos com a certeza de que todos saem daqui agradados e com enorme vontade de regressar nos próximos anos.” É ainda Fernando Costa a assumir as despesas deste balanço final, sem esquecer uma palavra de apreço para com toda essa formidável equipa que o secundou. “Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita”. “Todos os elementos do Grupo Desportivo 4 Caminhos que estiveram empenhados na organização do evento são também praticantes. Evidentemente que alguns colocam a competição um nível acima das tarefas organizativas, mas acaba por haver uma simbiose perfeita entre todos os elementos do grupo. Se todos nós organizarmos bem, a modalidade vai crescer, vai adquirir maior valia técnica, vai atrair os apoiantes e patrocinadores. Daí que todos tenhamos que nos esforçar para sermos melhores organizadores pois isso reflectir-se-á na melhoria das nossas condições enquanto praticantes e no consequente crescimento da modalidade”, conclui.


JOAQUIM MARGARIDO