CANTARES DO ANDARILHO
O Tejo vai levando as águas, ora espraiando-se preguiçosamente, ora revolto, espartilhado entre escarpas de xisto. Nos campos verdejantes a perder de vista, intrigantes vestígios de outros povos e de outras eras, disputam o lugar aos imponentes blocos graníticos. Nas aldeias, cede-se ao ciciado chamamento do estreito casario de branco caiado, das singelas igrejas, dos imponentes castelos, da simpatia e carinho das suas gentes. Na mesa, servidos em decorativas loiças de barro vermelho incrustadas de pequenas pedrinhas brancas, degusta-se o afamado queijo, os maranhos e o sarapatel, os feijões das festas, os bolos dormidos ou os rebuçados de ovos. É Nisa, esta terra de sol, pedra e água que se impõe aos nossos olhos, se oferece em todo o seu esplendor e nos impressiona vivamente os sentidos. Sim, porque nisto de beleza, não basta parecê-lo…

Terminada que está a etapa 1 do Norte Alentejano O’Meeting, sossegado o estômago e postas as ideias em ordem, é hora de deitar contas à vida. Às 19 horas arrancará a prova de “sprint” nocturno e não há tempo a perder. “Chamaram-me um dia cigano e maltês.” Olho para o relógio: 16h20. Ainda tenho uma boa hora e meia de luz natural e esta é a minha grande hipótese de fazer um trecho do PR1 – Trilho das Jans, um dos 8 trilhos pedestres devidamente identificados e balizados que, espalhados pelo Concelho, estão ao dispor do visitante.

O sol vai caindo no horizonte e as cores de final de tarde definem com maior nitidez o recorte da paisagem, realçando a beleza da descida para a Barca da Amieira. “Ali está o rio.” Recupero a agradável conversa com a Eng.ª Maria Gabriela Tsukamoto, Presidente da Câmara Municipal de Nisa: “Acima de tudo, o que se reflete mais durante estes três dias do Norte Alentejano O’Meeting, é a grande promoção que estamos a fazer do nosso Concelho. É uma aposta em termos estratégicos daquilo que salientamos ao nível do turismo da natureza e do esforço de preservação do nosso património ambiental”

Apesar da Lei das Finanças Locais penalizar fortemente os municípios mais pequenos e do interior, Nisa não desiste das áreas de desenvolvimento que definiu, entre as quais o Termalismo e o Turismo de Natureza: “Julgo que este tipo de provas se enquadra muito naquilo que pensamos devem ser os nossos princípios orientadores. Pretendemos levar a cabo muitas iniciativas do género, não apenas ao nível da Orientação mas outro tipo de actividades no âmbito de Desporto de Natureza.” A aposta, claramente, é na promoção da saúde e da qualidade de vida. “Temos uma série de equipamentos ao ar livre que são fundamentais para a prática duma multiplicidade de desportos e com um público-alvo de todas as idades, temos o Rio Tejo aqui bem perto, temos trilhos pedestres.” “Se novos donos querem por tronos sobre o teu chão…”

Abeiro-me do Tejo e da Fonte dos Amores, junto à qual um painel identificativo aponta o caminho. Devo subir a margem esquerda do rio, calcorreando os três quilómetros do muro de Sirga que ligam a Barca da Amieira à Barragem do Fratel. As margens aproximam-se à medida que avanço. Das fragas no meio do rio, corvos-marinhos levantam-se pesadamente no voo, surpreendidos pela minha presença. Pelo lusco-fusco, vou percebendo que a minha demanda quedar-se-á antes de atingir o objectivo, mas insisto em prosseguir. Quero absorver mais daquela paz, daquela harmonia. “E o caminho é só um, é sempre em frente.” Atingida a foz do Rio Ocreza, compreendo que não tenho alternativa. Dou meia-volta e, apressadamente, enceto o regresso.

A única certeza que tenho neste momento é a de que voltarei a Nisa. E não virei sozinho. “Seremos muitos, seremos alguém”. Aqui voltarei com o propósito expresso de fazer na íntegra os Trilhos das Jans, essas fadas que teceram o fino vestido de linho com que foi a sepultar a Rainha Santa Isabel. Os Trilhos das Jans ou do Conhal, os trilhos do Moinho Branco ou a Rota das Azenhas. Ir à descoberta de S. Miguel, do Rio Tejo ou olhar sobre a Foz. Caminhando. Tal como o faz a Eng.ª Gabriela Tsukamoto: “Gosto muito de caminhar, caminhei durante muitos anos neste Concelho. Foi também graças a isso e à extraordinária equipa técnica da Câmara Municipal que temos todo este património classificado.” Quanto à Orientação, parece identificar-se particularmente bem com a modalidade: “Eu acho que tenho tido alguma orientação durante estes anos”, remata.


JOAQUIM MARGARIDO