TENHO MAIS DE MIL AMIGOS
Vão chegando a pouco e pouco. A ordeira e meticulosa partida dos orientistas contrasta agora com a sua chegada, ora isolados, ora em pequenos grupos de dois ou três. Para trás ficaram os preciosos minutos perdidos à procura “do ponto mais fácil”, o equipamento rasgado pelo arame farpado, o sapato preso na lama, o pé mal colocado e o consequente trambolhão. Mas tudo isto são males menores, a avaliar por aquele brilhozinho nos olhos, por aquele sorriso no rosto, por aquela expressão de felicidade. Todos sairão vencedores desta primeira batalha. Agora é hora de descansar, pois a guerra segue dentro de momentos.

A etapa 1 do Norte Alentejano O’Meeting abeira-se do fim. “O que faz falta é animar a malta.” De microfone em punho, Francesco Isella vai saudando a chegada dos vários participantes. Baseando-se nos seus enormes conhecimentos, vai-nos brindando com preciosos pedacinhos do historial de muitos dos atletas que agora terminam a prova. Tece considerações sobre uns e outros, compara tempos, procede a entrevistas. Tem uma energia transbordante, este italiano.

A sua preocupação vira-se agora para Marco Póvoa, um dos últimos a partir e, naturalmente, também um dos últimos a chegar. Mas a diferença de tempos começa a penalizar o orientista português que tarda em surgir no horizonte. “O homem cavava uma cova na vida.” Estranhamente, Francesco mostra-se radiante. Terá apostado que Marco Póvoa não seria o português melhor classificado no final desta prova de distância longa. Ganhou a aposta! Com efeito, Tiago Aires (CPOC) acabou por ser o nosso melhor representante, concluindo na 10.ª posição e desforrando-se da prestação desastrosa no Portugal O’Meeting de há uma semana, em S. Pedro do Sul.

Depois do britânico Oli Johnson (VSOK) ter liderado a prova durante largo tempo, até ser ultrapassado pelo representante da selecção norueguesa Anders Nordberg, tudo parecia resolvido. Mas no cair do pano, o búlgaro Kiril Nikolov (Al. Logistics Sofia), o último atleta de elite a partir, acabou por se intrometer entre ambos os contendores, arrebatando um surpreendente 2.º lugar. Já o grande favorito, o também norueguês Oystein Kvaal Osterbo, 9.º classificado do “ranking” mundial, rolou em ritmo de treino, como o próprio confessou, não indo além da 59.ª posição a 32 minutos (!) do vencedor. “Quem cai já não torna a cair.”

Nas senhoras, a finlandesa Maria Rantala (AngA) pulverizou praticamente todos os parciais, levando de vencida as suas rivais por larga margem. “Maria que eu tanto prezo.” Riina Kuuselo, da turma finlandesa Tampereen Pyrinto e a norueguesa Lene Moe, uma das mais credenciadas orientistas da actualidade, concluíram nas posições imediatas. Também nas senhoras, Portugal conseguiu colocar uma atleta no “top ten”, com Emília Silveira (ADFA) a alcançar um honroso 8.º lugar.

No “paddock”, passeio tranquilamente por entre o ruidoso aglomerado de gente. Muitos vão abandonando o recinto, não esperando sequer pela entrega de prémios. Os que ficam, consultam os resultados, conversam animadamente ou marcam encontro no pequeno restaurante de apoio montado pela organização. “Senhora do Bom Sucesso, diz-me onde irei almoçar, não quero sola de molho, tenho as tripas a estalar.” Ali, no “Comezainas Bar”, não há mãos a medir e as iguarias vão saindo a um ritmo alucinante. O destaque vai inteirinho para uma “bôla” caseira, recheada de fiambre e queijo derretido, absolutamente do outro mundo. Quem diz que o ar do campo não abre o apetite?

Na hora da consagração, os vencedores fitam extasiados ante os prémios que acabam de receber. “Quem tem farelos tem quintas.” Todos eles ostentam um precioso medalhão em estanho maciço, com 9 cm de diâmetro e 250 gramas de peso. São verdadeiras peças artísticas criadas pela Artestanho, um dos patrocinadores do Grupo Desportivo 4 Caminhos, com quem mantém uma parceria desde 1999. Também as tradicionais bilhas e pratos de barro vermelho com incrustações de pequenas pedrinhas brancas deixam os felizes contemplados de olhos arregalados e um sorriso de orelha a orelha.

Mas as homenagens estendem-se ainda a alguns apoiantes e a dois grandes nomes aqui presentes. “Por esses quintais adentro vamos às raparigas casadas”. Fernando Mamede é um dos convidados de honra da organização, numa inteligente “piscadela de olho” da Orientação aos “manos” do Atletismo. E se vão havendo estradistas ou montanhistas que, pelos mais diversos motivos, se sentem atraídos pela Orientação e decidem experimentar a modalidade, corro o risco de não errar ao afirmar que o contrário é tão ou mais válido ainda. Com efeito, a iniciação à Orientação comporta atractivos que a tornam irresistível a todas idades e tipos de pessoas. E começando, difícil será parar! Daí que não espante ver nas provas de estrada, corta-mato ou montanha um número considerável de participantes provenientes da esfera da Orientação.

A última figura homenageada será Peo Bengtsson, um dos homens que, através da companhia sueca WWOP (World Wide Orienteering Promotion), mais tem contribuído para o incremento da modalidade um pouco por todo o mundo. “Amei a minha amada com amor”. A sua acção junto das várias Federações Nacionais, numa fase ainda incipiente, auxiliando na elaboração dos essenciais mapas, tem sido fundamental para que a Orientação venha a crescer de forma exponencial, gerando interesses e vontades e mobilizando um número cada vez maior de entusiásticos e acérrimos praticantes.

JOAQUIM MARGARIDO