SE VOARAS MAIS AO PERTO
Cinco são os sentidos, está nos manuais! Neles reside a possibilidade dum maior ou menor contacto da pessoa com aquilo que a rodeia. Há ainda o sexto sentido, aquela percepção extra-sensorial que parece ser mais propriedade das mulheres do que dos homens e que nas concepções ocultistas estará também sedeado num órgão do nosso corpo. Figurada ou objectivamente, é bom que todos eles – sem excepção! - estejam suficientemente desenvolvidos. Sem isso, não há sentido de orientação que aguente.
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“Já fui favo de mel, cajado de pastor.” O Norte Alentejano O’Meeting tem em Arez a competição de Distância Longa. Destinada a atletas de todos os escalões e ambos os sexos, com distâncias variáveis, a prova integra a Liga Mundial de Orientação Pedestre (WRE) da Federação Internacional de Orientação (IOF) para atletas de elite. O terreno é duma beleza ímpar, típico de montado alentejano, com pequenos ribeiros rumorejantes de quando em onde, enormes e espectaculares blocos rochosos e uma grande quantidade de cercas que condicionam as opções e colocam entraves de ordem vária à progressão dos atletas.

A distância é de 15.200 metros e 9.800 metros, respectivamente, para as elites masculinas e femininas. É necessário, porém, considerar que estes valores são enunciados em linha recta entre os vários pontos do percurso, não levando em conta quer as opções do orientista, quer os desníveis do terreno. “Mas quem vencer esta meta, que diga se é linha recta”. Na prática, a distância acabará por ser substancialmente superior.

Para aqueles que “gravitam” na esfera estrita do Atletismo, não pode deixar de constituir motivo de enorme admiração a “performance” dum orientista de elite. Trilhar terrenos irregulares, superar desníveis, transpor obstáculos e efectuar mudanças bruscas e constantes de velocidade e direcção, mantendo um olho na carta e outro no chão, implica um apuro dos sentidos muito para lá do comum. “Agora é que pinta o bago.” É que não basta ser um corredor talentoso ou um bom leitor de mapas: é necessário ter “olhinhos nos pés”.

Muitos destes orientistas de elite são atletas de nomeada, sobretudo no que às provas de Montanha diz respeito. Não devemos esquecer que é nos países nórdicos, bem como na Suiça e na Áustria, que encontramos praticamente todos os grandes talentos da actualidade. O seu treino diário é desenvolvido em áreas com elevado grau de inclinação e todo e qualquer orientista encontra na montanha o seu terreno de eleição. “Só o forte resiste ao combate.” Ionut Zinca, o melhor orientista romeno da actualidade e atleta do Grupo Desportivo 4 Caminhos é disso um bom exemplo. O seu 6.º lugar na Taça do Mundo de Montanha aí está para o comprovar.

Os fisiologistas do desporto relacionarão esta proximidade entre a Orientação e as provas de Montanha com a enorme capacidade do orientista em desenvolver as suas prestações acima do limiar aeróbico. Uma prova de Orientação faz particular apelo ao trabalho de força e os grupos musculares envolvidos são sujeitos a mudanças constantes de velocidade e de ritmo. Este tipo específico de exercícios toma o nome de “fartlek” e constitui uma base essencial da preparação dos atletas, na generalidade, como forma de melhorar as suas prestações em prova. O termo, de origem sueca, define variações no treino, combinando a corrida lenta e contínua com “sprints” rápidos e breves, como se de uma brincadeira se tratasse. Quem sabe, Gosta Holmer, o seu inventor, não terá sido também ele orientista? “Tu gitana que adivinhas, me lo digas, poes no lo sê.”

No terreno, sobre um imponente bloco granítico, surgem agora dois observadores especiais: Fernando Mamede e Fernando Costa, o Director da Prova. Vou ao seu encontro. “Agora sabe bem este sossego.” A paisagem é duma beleza surpreendente e somos espectadores privilegiados dum evento ímpar, pela energia, emoção e espectacularidade colocadas em prova por todos os participantes. Referindo-se aos atletas de elite, Fernando Costa faz uma observação curiosa e plena de significado: “À beira dos outros, parece que voam baixinho”. Quanto ao ex-recordista europeu e mundial de 10.000 metros, revela-se igualmente fascinado com o desenrolar dos acontecimentos e confessa que poderá mesmo vir a experimentar a Orientação. Mas com uma condição: “Só se for acompanhado!”


JOAQUIM MARGARIDO