O PASTOR DE BENSAFRIM

Há muitos termos que são específicos da Orientação e com os quais não é fácil familiarizarmo-nos. Palavras roubadas às ciências, umas mais exactas do que outras. E alguns neologismos também, nomeadamente esse formidável “orientista”. Mas a Orientação também tem a sua gíria. Aqui, aquele que anda às voltas e não dá com o ponto é um “pastor”. Automática e assumidamente. Em Bensafrim como no Mindelo, na Freita como em Cantanhede, em Palmela como em Arez.
Para um “rookie” da Orientação, há algo que perturba, que mexe com os sentidos, que leva a equacionar naturais e legítimas aspirações. Nada pode ser mais “dilacerante” do que ver um orientista perdido, desesperado face à sua total incapacidade em encontrar o ponto pretendido. “Naquele lugar sem nome para qualquer fim.” Fazendo apelo a todas as capacidades e conhecimentos, desconstrói o percurso, procura reorientar-se e… nada! Cede à tentação de seguir outro orientista, na esperança de ser “guiado” até à “terra prometida”. Todavia, não raramente, volta a fracassar nos seus intentos e a angústia apodera-se completamente de si. Daí ao desânimo e à desistência vai um pequeno passo.

É frequente perceber entre os orientistas uma louvável relação de entreajuda. Haverá sempre aquele que, desperdiçando alguns preciosos segundos, não hesita em parar, inteirar-se da situação e procurar ajudar o colega. “Amigo, maior que o pensamento, por esta estrada, amigo, vem”. É uma postura que tem raízes no “espírito de corpo”, já que cada atleta se considera como parte integrante dum todo. Ao longo da prova, exemplos destes são observáveis com frequência e, no final, lá estarão à espera uns dos outros, satisfeitos por terem podido ser úteis. O diálogo é então aceso. Traçam-se nos mapas os percursos acabados de efectuar, estabelecem-se comparações e retiram-se as necessárias ilações na perspectiva de não repetir os mesmos erros em futuras oportunidades. Temos ali conversa para horas e horas…

“Havia uma hora que havia uma vida”. Olho para o relógio e os ponteiros atingiram já o zénite. O calor aperta. Imagino-me a elevar-me no ar, a pairar sobre aquela mole imensa de atletas que, de mapa em punho, procuram levar a bom termo a exigente empreitada. Do centro da aldeia que se divisa ao longe, chegam-me os ecos da festa, agora que os primeiros a partir terminam já a prova. Trazida nas asas do vento, a música espalha-se no ar, entrecortada a espaços pelos gritos de incitamento de Francesco Isella, saudando estes verdadeiros campeões.

O Francesco é um dos convidados especiais da Organização. Veio de Milão e é, também ele, orientista. Tem um conhecimento profundo dos meandros da modalidade, identifica ao pormenor as qualidades técnicas dos melhores atletas, estabelece comparações entre o nível das provas que se realizam um pouco por todo o lado. E vai dizendo que é nos países do Sul, nomeadamente em Portugal, que mais se vive e sente a Orientação. Aqui, as provas, para além do elevado nível qualitativo, atingem uma dimensão de festa e de convívio. Os aspectos meramente competitivos são frequentemente relegados para segundo plano. “Ailé! Ailé!” É o carácter latino a sobrepor-se à rigidez e formalidade dos nórdicos.

O crescimento da modalidade e a sua popularidade levam os responsáveis máximos da Orientação a ambicionar o estatuto de modalidade olímpica. Francesco reconhece que a sua singularidade constitui o grande entrave às naturais e legítimas aspirações: “Não é fácil convencer o Comité Olímpico, quando é praticamente impossível padronizar percursos e distâncias, quando é inviável para o espectador acompanhar o desenrolar das provas, quando a emoção dos duelos só se verifica a posteriori após a chegada e as contas feitas”. Duvida desse salto que, a verificar-se, seria determinante para catapultar a modalidade, conferindo-lhe visibilidade, generalizando a sua prática e guindando-a ao ponto que realmente merece. “Se o gageiro de outras eras subisse de novo à gávea”.

O terreno fervilha de energia e emoção. Não preciso de me esforçar em demasia para adivinhar quem são os atletas de elite, os mais jovens, os mais idosos e, naturalmente, os “pastores”. “A formiga no carreiro ía em sentido contrário”. Esta dispersão advém da multiplicidade de opções que cada orientista tem à sua disposição entre dois pontos, aqui residindo o fascínio da Orientação. As encruzilhadas vão-se sucedendo e são necessárias certezas, é imperioso ser firme e decidido para trilhar o caminho certo rumo à vitória. Que mesmo sendo apenas pessoal, não deixará de ter menos valor por isso. Como em tudo na vida!


JOAQUIM MARGARIDO