FURA-FURA

 

Ponto… Ponto… Ponto… Ponto… Ponto… Traço. Onze horas da manhã no Continente e Madeira; dez horas nos Açores! Ao longo de mais de três horas, o sinal soará rigorosamente a cada minuto, dando início à etapa 1, a prova de Distância Longa. No final, serão 746 os orientistas de todos os escalões e ambos os sexos a concluir a prova, enquanto 39 ficarão pelo caminho. É a vida!

 

Sábado, 9 da manhã. Um espesso manto de nevoeiro estende-se desde o Vale do Tejo e cobre esta parte norte do Distrito de Portalegre. Zé d’Aldeia sossega-me, “não tarda nada teremos sol”. Chego cedo à concentração, junto à Praça de Touros de Arez. A azáfama habitual, muita gente jovem e menos jovem, um espírito de festa indescritível. “Quanto é doce, quanto é bom, no mundo encontrar alguém”. No núcleo duro da Organização, José Moutinho foi dos últimos a chegar, trazendo com ele muitos dos preciosos mapas e a sinalética. Duas horas de sono e aí o temos, que a hora é de trabalho.

  

O tempo voa. Devemos arrancar para o terreno quanto antes. Na companhia de um dos responsáveis pela cobertura televisiva da prova, seguimos com José Mário Batista, mais um apaixonado pela Orientação e uma das “peças” importantes na dinâmica organizativa do Grupo Desportivo dos 4 Caminhos. Seguimos na carrinha do Clube até meio caminho, pegamos depois nas “trouxas” e toca a palmilhar por montes e vales. “Vá de folia, que há sete anos me não mexia”.

  

José Mário Batista conhece bem o terreno e busca os pontos onde passará o grosso dos atletas. Vai-se orientando pelo mapa, aqui e ali faz apelo à bússola em busca da “baliza” com o número 122. Pulamos aqui uma cerca, contornamos ali a linha de água, atravessamos mais além uma zona encharcada. A paisagem é fantástica e adquire mais cor e mais vida, agora que os primeiros raios de sol vencem o nevoeiro. “Recolhi sombras onde vira luzes de orvalho ao meio-dia”. Sobreiros e azinheiras concorrem com as giestas nas muitas abertas do terreno. Imponentes, as fragas graníticas pontuam o todo, tomando conta dos sentidos.

  

As onze horas aproximam-se rapidamente e está para breve a partida dos primeiros concorrentes ao Norte Alentejano O’Meeting. Enquanto aguardamos, vou conversando com José Mário Batista e sabendo do seu apego à modalidade. “Veio lá da terra um homem tentar a ventura”. Professor de Matemática, pegou na Orientação “para que as coisas não morressem”. Fala no trabalho fantástico desenvolvido pela Professora Maria de Belém, no empenho necessário para levar por diante um projecto desta natureza: “Não podemos pegar nos miúdos para fazer Orientação como quem faz ginástica ou vólei. Necessitamos de tempo para nos deslocarmos para o terreno. Acaba por ser tudo feito ao sábado, o que implica disponibilidade, tanto da parte de professores como de alunos.” Refere-se à articulação dos Desporto Federado com o Desporto Escolar como “a verdadeira mola impulsionadora da modalidade” e lamenta que o Desporto Escolar não leve em linha de conta os calendários da Orientação, fazendo coincidir alguns dos seus eventos com outros já agendados e inviabilizando elevados níveis de participação. Mesmo assim, quando fala em 400 miúdos a disputar uma prova de Orientação ao nível do Desporto Escolar, fico com a certeza de que se está no bom caminho.

 

No horizonte começam a surgir os primeiros concorrentes. “Achégate a mim, Maruxa”. Não tarda nada, todo o terreno – mas mesmo todo! – estará tomado. Ali, em campo aberto, as condições são ideais para a prática de Orientação pelos jovens. Fazem-no em absoluta liberdade, sem constrangimentos ou medos de qualquer espécie. “Por vezes deparamo-nos com percursos muito fechados e sombrios. E aí não deixamos os miúdos sozinhos”, explica José Mário Batista, referindo-se aos tais percursos como “terreno do lobo-mau”. E percebo o importante trabalho de acompanhamento dos mais novos, um conhecimento adequado da psicologia infantil. Existe a preocupação em evitar traumas desnecessários quando o objectivo é cativar novos praticantes e não “atirá-los” para experiências negativas, que os levem a desinteressar-se pela modalidade.

  

À medida que vão surgindo os orientistas vou apreciando a sua postura, a conduta de uns e de outros, as opções que se revelam desadequadas, já que os vejo regressar por vezes ao ponto intermédio onde me encontro. Fascina-me a postura dos mais idosos, com os quais procuro instintivamente identificar-me. “Um velho voltou e disse-me adeus, cantando e dançando debaixo do céu”. Será o seu porte sereno, simultaneamente empenhado e descomprometido, que me atrai? Ou estarei, instintivamente, a construir já uma projecção mental do meu futuro como orientista?

  

 

JOAQUIM MARGARIDO