TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM
Apuramos o sentido da responsabilidade, cultivamos o sentido estético, relevamos o sentido crítico, louvamos o sentido de Estado, transgredimos o sentido obrigatório e confiamos no sentido de orientação. Confiamos ou desconfiamos, que isto de “nem sempre nem nunca” tem muito que se lhe diga.

Algures, entre Nisa e Arez, estou prestes a iniciar-me no terreno. “Raiava o sol lá no Sul”. A chuva da manhã deu lugar a uma bela tarde e um céu intensamente azul, matizado de nuvens de fantásticas formas, empresta à paisagem as cores e o encanto só possíveis no Alentejo. Um verde, intenso, imenso manto de erva, estende-se aos meus pés, pontuado por milhões de delicadas flores. Contrastando na paisagem, as gigantescas rochas graníticas, de faces lisas e arredondadas, inertes, irrompem nas colinas. Ali, no meio do mais belo cenário, sinto-me um cavaleiro prestes a encetar uma formidável “caça ao tesouro”. Porém, não estou sozinho. Comigo está um grupo de alunos da EB 2,3 Sebastião da Gama (Estremoz), também eles fascinados com este primeiro contacto com a modalidade. A “comandar as tropas”, Carlos Cabral será o nosso monitor ao longo dos nove pontos que constituem o percurso, numa distância aproximada de 1700 metros.

Elemento do Grupo Desportivo 4 Caminhos, também ele orientista, Carlos Cabral sente e vive apaixonadamente a Orientação. As suas explicações técnicas prendem a atenção de todos. Aborda os tipos de terreno, que podem ir da mais esconsa floresta ao simples parque urbano ou às ruas duma qualquer povoação. Fala dos mapas e das suas escalas e ensina como são importantes os pontos de referência. Ajuda a orientar o mapa, indo ao pormenor da dobragem que facilita a sua consulta e ao acompanhamento do percurso com o polegar sobre a carta. Dispensa a bússola, referindo que numa fase de iniciação devemos simplificar ao máximo. E dá a possibilidade a cada um dos membros do grupo, alternadamente, ser o guia entre dois pontos. “Venham mais cinco…”

Enquanto avanço, usufruindo duma forma privilegiada de lazer em íntima comunhão com a natureza, acompanho Carlos Cabral que vai revelando como nasceu a Orientação, há mais de 150 anos, nos meios militares escandinavos, e a forma como evoluiu para se transformar hoje numa das modalidades que mais tem crescido nos últimos anos no nosso País. “Agora sabe bem este sossego”. Compreendo que a preservação dum meio ambiente saudável passa por constituir um princípio fundamental da Orientação e que qualquer orientista prima por manter a natureza isenta de lixo e por tomar as medidas adequadas para evitar toda e qualquer forma de poluição. E fico fascinado com as potencialidades da modalidade como “desporto de família”, onde pais e filhos orientam atenções e esforços num mesmo sentido, comungando dum mesmo ideal, num mesmo espaço, ao mesmo tempo.

“No centro da Avenida, no cruzamento da rua”. Terminada a fase “rural”, segue-se a fase “urbana”. Pela vila da Amieira do Tejo passaram ao longo do dia, treinando, alguns dos melhores orientistas da actualidade. E na Amieira confirmei o que já suspeitava: não há melhor forma de esquadrinharmos uma aldeia, vila ou cidade, do que com um mapa na mão, orientando os nossos interesses para aquilo que ela tem de melhor. O nosso monitor é agora o Marçal Guilherme e tenho a companhia da Carolina e do Rodrigo, ela com 7 anos, ele com 5. Fazem o percurso completo, prova provada que a Orientação é de todos e para todos.

Chegada a hora de me instalar, Gracinda e Zé d’Aldeia abrem-me as portas da sua casa. “Em terras, em todas as fronteiras, seja bem-vindo quem vier por bem”. A hospitalidade e a simpatia do casal são comoventes. Após uma noite bem dormida, acordo com um cheirinho delicioso, que me faz lembrar algo mas que não consigo identificar com precisão. A Dona Gracinda fez questão de oferecer o pequeno-almoço. Sobre a mesa, entre iguarias da sua própria lavra - um doce de murtonho “do outro mundo” - o objecto da minha indefinição: rabanadas. Diz-me que ali lhe dão o nome de “fatias paridas”. E explica: “Nos tempos mais difíceis, quando alguém acabava de dar à luz, à falta de algo mais avultado, levava-se à jovem mãe aquilo que havia, precisamente as fatias paridas, que pãozinho, graças a Deus, foi coisa que nunca faltou”. Antes de sair para Arez e para o primeiro dia de competição, agradeço-lhe do fundo do coração mas “que não era necessário estar com esse incómodo”. “Qual incómodo”, responde-me com uma voz muito doce, quase velada. “Se não fosse assim, acabávamos por nem nos conhecermos”.


Graça Carrapatoso, D. Gracinda e o Pai do grande dinamizador Fernando Costa
Na segunda fila o speaker da prova Francesco Isella e Zé d'Aldeia
JOAQUIM MARGARIDO