EMBALAR A TROUXA E ZARPAR
E a festa chega ao fim. Agora que a longa maratona terminou, olho em frente e vejo um futuro de esperança. Um futuro de enorme crescimento para a Orientação, alicerçado nos seus inegáveis fundamentos como desporto para todos e na sua vocação intrínseca de aliar a competição ao lazer. Convicção reforçada ao perceber de que forma os seus mais directos intervenientes vivem e sentem a modalidade: Intensamente! Apaixonadamente! Orientadamente!

“Vai terminar esta prosa, estamos na década de Salomé.” A confirmação chegou pouco após o último orientista ter terminado a sua prova. Ionut Zinca (Grupo Desportivo 4 Caminhos) sagrou-se vencedor deste Norte Alentejano O’Meeting. O seu 11.º lugar na última etapa, a prova de distância média, bastou para garantir o triunfo. O britânico Oli Johnson (VSOK), seu adversário mais directo, não conseguiu melhor que a 9.ª posição na etapa, o que se revelou insuficiente para arrebatar o troféu ao orientista da turma de Matosinhos. Mas a diferença de 18 pontos entre ambos (2828 contra 2810) dá bem a ideia da intensa luta disputada ao segundo.

Outro britânico, Neil Northrop (SYO) viria a segurar a 3.ª posição no Meeting, apesar duma prestação menos bem sucedida nesta etapa que lhe valeu apenas a 18.º lugar. Repetindo a vitória da véspera na prova de “sprint”, o norueguês Oystein Osterbo foi o grande vencedor da prova de distância média acabando por se guindar ao 5.º lugar da Geral. Tiago Aires (CPOC) voltou a ser o melhor português na etapa e o seu 6.º lugar no Meeting é um resultado excelente face à qualidade dos orientistas presentes. “Vejam bem que não há só gaivotas em terra.”

Com esta vitória, Ionut Zinca alcança um dos triunfos mais saborosos da sua carreira e oferece ao Grupo Desportivo 4 Caminhos a possibilidade de ver o seu emblema subir bem alto, tanto no aspecto organizativo como na vertente competitiva. “Agora a vinha é doce em vinha d’alhos.” “Foi uma bela prova e gostei muito”, começou por referir o orientista romeno, para logo prosseguir: “Apesar de uma ou de outra falha, estou muito contente com a minha prestação. Senti-me a cem por cento e consegui um bom resultado para o Grupo Desportivo 4 Caminhos, pelo que o balanço final não podia ser mais positivo.” Quanto ao futuro, é taxativo: “Faço provas de Montanha e provas de Orientação. Só comecei com a Montanha há cerca de 4 anos mas faço Orientação desde os 11 anos. Não vou deixar nunca a Orientação. Sair a correr para a floresta com um mapa na mão é algo que faz parte integrante de mim. A Orientação é a minha vida.”

Nas senhoras, a nota de destaque vai para a vitória de Riina Kuuselo nesta derradeira etapa e que lhe garantiu igualmente o triunfo no Norte Alentejano O’Meeting com um total de 2892 pontos. “Feiticeira, mãe de todos nós, flor da espiga.” A distantes 82 pontos, a britânica Jenny Johnson (VSOK) viria a concluir na 2.ª posição, após o seu 5.º lugar na etapa. Quanto à 3.ª classificada, a também britânica Aisslin Austin (CLOK), foi incapaz de anular a desvantagem para as primeiras, apesar do 1.º lugar na prova de “sprint” e do 2.º posto nesta última etapa. A melhor atleta portuguesa viria a ser Maria Sá, igualmente do Grupo Desportivo 4 Caminhos, na 8.ª posição. O seu 13.º lugar na prova de distância média não deu para mais.

À cerimónia de entrega de prémios assistiu uma vasta e participativa plateia de atletas e acompanhantes. Havia que “espremer” a festa até “à última gota”. Vitoriados os vencedores, aplaudidos os apoiantes – Câmara Municipal de Nisa, Inijovem e Ternisa – e ouvidos os discursos da praxe, agora sim, chega ao final este Norte Alentejano O’Meeting. Que para mim se prolongou por mais “onze dias, onze textos”, num saboroso exercício de apelo às memórias dum fim-de-semana inesquecível. E o tanto que ficou ainda por dizer…“Depois da festa, menina, muita gente se amofina.”

Esta foi também a minha forma de homenagear essa genial figura da música portuguesa, cumpridos precisamente 20 anos que nos deixou, no primeiro dia deste Norte Alentejano O’Meeting. José Afonso, com a riqueza e modernidade das suas composições, soube rasgar caminhos e traçar percursos, qual orientista pioneiro de novos sons e novos ritmos da música portuguesa. Falando do proibido, cantando o mundo dos renegados e aflitos - “menino do mal trajar, um novo dia lá vem” -, ao Zeca devemos, também, esta forma de estar e de viver em liberdade. Como livre me senti, nesse Alentejo de sonho.



“Até um dia destes, numa floresta perto de si!”
JOAQUIM MARGARIDO