O’Porto Park Race

 

OPT - OUTRA PARTE DO TRABALHO

Eram quatro, tinham vindo de Coimbra bem cedo e acabavam de tirar o bilhete. No interior do Museu de Arte Contemporânea, aguardava-as o grandiloquente “aquário” de Bruce Nauman. Mas hesitavam em entrar, entretidas a comentar aquilo que viam. Informais, de mapa na mão, a sós ou em pequenos grupos, correndo velozmente ou em passo tranquilo, “gente como elas” cruzava a espaços o verdejante relvado. A Orientação tomava conta de Serralves e, naquele instante, a arte era ali mesmo.


Começam a ser preocupantes estas “brancas” no meu sentido de orientação. A tal ponto que, uma vez mais, falhei a entrada à primeira e penetrei no espaço de Serralves pelo sítio oposto. Adquiri o bilhete e comecei a vê-los, surgindo de todos os lados, invadindo os nobres espaços ajardinados e prendendo a atenção de quem passava, de quem estava. No rosto dos participantes, a indizível emoção e uma enorme satisfação traduziam fielmente a noção adquirida do privilégio que constituía deambular por um lugar tão belo e delicado, tão admiravelmente propício à descoberta. Que para os estreantes era redobrada, já que extensível à modalidade em si.
 


Este primeiro e marcante impacto com a realidade de Serralves fez-me esquecer tudo o resto. Procurando centrar as atenções no “público-alvo” de mais esta iniciativa do Grupo Desportivo 4 Caminhos, “alheie-me” dos atletas e fui ao encontro daqueles que estariam a tomar um primeiro contacto com a modalidade. Abrigado da chuva que, entretanto, começou a cair, procurei refazer todo um caminho que poderá ter levado a Serralves gente de todas as idades à procura do desconhecido.

 


Espreitei para lá do gesto firme dum pai que aponta a direcção a tomar, do brilhozinho nos olhos da criança quando avista ao longe um novo ponto, das interrogações daqueles que sentem nunca ser tarde para aprender, dos braços elevados ao céu num grito de vitória, do jeito compassado dos que, por força de muitas experiências de vida, sabem que o caminho se faz… a caminhar! E, no fim do caminho, avistei-os. O Grupo Desportivo 4 Caminhos e todos os “Grupos Desportivos 4 Caminhos” deste Portugal que teimam em avivar o fogo da paixão pela modalidade que os anima e em fazê-lo alastrar numa fogueira de verdades e vontades incontrolável. Que a Serralves nos trouxe e nos mostrou, de novo, o Caminho.

 



Acompanhado ou só, o futuro o dirá! Em Serralves, pareceu-me muito só. A falta de um simples cartaz afixado é revelador de alguma desconfiança, duma certa dose de desconhecimento e da relativa incapacidade em gerir ou assumir riscos nesta área por parte dos responsáveis da Fundação. E contudo...

 


A dinamização de eventuais culturais na área da modernidade encerra em si grandes apostas e uma arrojada e firme vontade de abanar as consciências, desinstalar preconceitos, remoer juízos pré-concebidos. Agitar, revolucionar, chocar! Para com os responsáveis da Fundação de Serralves, tem o País essa enorme dívida de gratidão de poder contar com uma entidade que continua firmemente apostada em apontar novos caminhos. Mas esse mérito não pode, apenas, confinar-se à arte. Até porque a valorização dum património natural vocacionado para a educação e animação ambientais é um dos contextos programáticos da própria Fundação. Que poderá encontrar na Orientação um aliado preferencial, por força das suas características intrínsecas como modalidade desportiva.

 

 

Saibam os responsáveis da instituição fazer um adequado balanço de toda esta envolvência chamada O’Porto Park Race e lancem mão das suas enormes potencialidades para, em parceria, continuar a levar por diante este evento. E para que, no mais belo dos palcos, a Orientação possa continuar a mostrar-se como paradigma de modernidade, inteligência e crescimento, vectores fundamentais numa sociedade que se pretende justa, próspera e aberta a todos.

 

 

Saudações orientistas.

 

JOAQUIM MARGARIDO