-Pai… Pai…
Um sussurro invadiu o escuro quarto onde o pai dormia ainda. Deu meia-volta na cama:
- O que foi, João?
- Acorda, pai!...
O pai estendeu o braço e acendeu a luz na mesinha de cabeceira. Olhou para o relógio: sete e um quarto. A ténue luz que entrava pela janela fê-lo perceber que era ainda noite e lembrou-se que mudara a hora. O pequenito continuava ali, ao alto. De relance notou no seu olhar a mesma pergunta que nos últimos dias tinha sido repetida até à exaustão. Levantou-se, afastou as cortinas e espreitou para o céu onde morriam as últimas estrelas e os alvores avermelhados duma manhã esplendorosa se firmavam já a nascente. Sentou-se então na beira da cama, tomou o João nos braços e, numa voz plena de entusiasmo, exclamou:
- Vamos à Corrida do Dia do Pai!

O meu pai levou-me pela mão enquanto subíamos a Avenida. Fez-me ver que esta era uma corrida diferente das outras, onde o importante era estarmos presentes. E quantos mais, melhor, disse… Disse-me que por cada pessoa que participasse, os organizadores davam um euro para uma causa solidária. Eu não entendo bem o que quer dizer causa solidária mas o meu pai explicou-me que é para melhorar a forma de tratar pessoas doentes e isso eu acho bem. E também me disse que se tinham angariado quase 17.000 euros e eu também não sabia o que era angariar nem quanto eram 17.000 euros, mas o pai disse-me que era muito dinheiro e que isso correspondia a estarem ali muitas pessoas.

Quando chegámos ao sítio da partida, depressa compreendi o que era isso de muitas pessoas. É que eram mesmo muitas pessoas. Mais ainda do que aquelas que estavam no Dragão quando o meu pai me levou para ver o Beira-Mar que é o clube dele. Depois o meu pai pôs-me às cavalitas dele e aí é que eu vi como era bonita a Corrida do Dia do Pai. Que isto de ser pequenito também tem as suas vantagens, o que é que julgam?

E depois vimos o Carlos Lopes, e o meu pai contou-me que, quando era Alferes na tropa, a Companhia dele esteve toda a noite acordada a ver a Maratona que o Carlos Lopes ganhou nos Jogos Olímpicos e, depois, foram todos marchar e correr até ser manhã e foi uma das noites mais bonitas da vida do meu pai (só não sei se para os soldados da Companhia também foi). E vimos pessoas de todas as idades e muitos pais, e avós, e tios, e muitas crianças, algumas em carrinhos de bebés, ainda, e também pessoas velhinhas em cadeiras de rodas. E havia muita música e umas meninas e meninos que, dentro dum camião muito bonito, dançavam e nós também começámos a dançar.

E depois foi a partida e eu e o meu pai corremos um ao lado do outro. Mas depois eu fiquei cansado e tivemos que ir um bocadinho a passo e outro bocadinho a correr. E havia muitas senhoras também a correr, e algumas muito gordas e também corriam. E também havia homens muito gordos e que também corriam, e o meu pai disse-me que esta corrida também era muito importante porque as pessoas que corriam eram mais saudáveis e o nosso país podia ser um país rico em saúde e as pessoas não gastarem tanto dinheiro em remédios se corressem um bocadinho todos os dias.

E quando chegámos vi o meu pai muito feliz a conversar com muitas pessoas que não conhecia de lado nenhum, mas também elas estavam muito felizes. E depois vimos os que ganharam a receber os prémios e um senhor, com uma fala muito esquisita, a receber um cheque enorme e a dizer “obrigado” duma forma muito esquisita também, e vi que os olhos do senhor brilhavam muito e olhei para os olhos do meu pai e eles brilhavam da mesma maneira. E depois viemos embora, a descer a avenida, os dois de mãos dadas.

- Pai… Pai… Quero-te dizer uma coisa.
O pai baixou-se e olhou o João nos olhos. O pequenito hesitou. Olhou para o chão, olhou outra vez para o pai e, com uma imensa ternura, afinal com a ternura de que só as crianças são capazes, disse na sua voz de menino:
- Amo-te, pai. És o melhor pai do mundo!

JOAQUIM MARGARIDO