
Foi a prova mais bonita e animada em que
participei.
Mesmo antes da partida, ainda pensava que seria um feito impossível de
concretizar. Algo épico, correr X Milhas, digno de figurar entre as maiores
façanhas da minha vida...Não estava minimamente confiante nessa capacidade, não
me apetecia acreditar, nem tão pouco esforçar-me por conseguir.
Cheguei ao local da partida, onde todos já estavam em pleno período de
aquecimento, havia algum tempo.
Muita gente na rua em Vila Real de Santo António. Uma banda animava o ambiente e
o aquecimento fez-se ao som da música.

Com o equipamento do Clube do Sargento da Armada e o dorsal 450, alinhei junto
dos meus amigos e colegas de equipa que me iriam acompanhar durante toda a
prova. A nossa "chefe" tinha repetido vezes sem conta "Vais com eles. Não
desistes. Não avanças demais. Nem ficas para trás. Sempre com eles." E assim
foi. Eu com eles e eles sempre comigo. Foram o meu apoio e o meu ânimo. As
minhas forças e as minhas pernas. O físico e o psíquico numa tentativa de
equilíbrio. Eles sempre comigo, sempre lado a lado. Sempre de mãos dadas.
Obrigada Isabelinha e Pacheco.

11 horas, soou o tiro de partida. Não sei ao certo quantos foram os
participantes, mas talvez mais de meio milhar.

O percurso é lindo. Sentindo o mar por perto corremos ao lado dos terrenos
pantanosos e alagados do Guadiana. Cegonhas e gaivotas. Pombos e outras aves
eram uma mostra da riqueza da vida por aquelas paragens.

O sol brilhava num céu imaculadamente azul. Forte demais neste Novembro mais
primaveril que outonal. Recorremos a todos os abastecimentos de água,
estrategicamente colocados de 4 em 4 Km.
Ao longo de todo o percurso muita gente a assistir. Alguns parados por
condiconamento de trânsito, mas todos bem dispostos, gritavam palavras de
incentivo em espanhol e em português...batiam palmas e sorriam.
Reinava um clima de companheirismo e alegria nos corredores. Gracejos e risadas
tornaram os quilómetros da prova diminutos, a distância pareceu desvanecer-se e
o relógio ter avançado demasiado depressa.
Via-se o rigor com que a prova tinha sido organizada: no policiamento, na
abundância de água, na cobertura televisiva e fotográfica, nas centenas de
placas nos coletes onde se lia "Organização".

Chegámos à ponte ao minuto 45. Aí o Daniel deixou-nos. Era o quilómetro oitavo e
o ritmo do nosso grupo era vagaroso demais para a sua juventude vigorosa.
Comecei a vê-lo distanciar-se naquela subida...Orgulhosa da sua capacidade
respondi ao Pacheco quando ele me perguntou : "O miúdo?". "O miúdo já
lá vai. Corre muito"...

Continuámos no nosso passo lento, conversando, acenando aos carros que passavam
e contando pequenas histórias.
Os quilómetros sucediam-se. Chegámos a Espanha e já as nossas amigas e colegas
de equipa, Adelaide e Magnífica (que por estarem lesionadas não participaram)
nos aguardavam na rotunda que antecede aquele que era o meu "papão" da corrida:
a subida até Ayamonte. Tinha ouvido cobras e lagartos. "Não vou
conseguir, pensava. Ainda se fosse ao início..."
Mas consegui.

Cá em baixo estendia-se um maravilhoso cenário de ilhotas pantanosas e pequenos
nichos de canaviais. O rio era mais azul que o céu. Dei graças por aquela
beleza. Por poder ver e por ter subido. Por estar a descer uma avenida ladeada
de maravilhosas rosas vermelhas que fazem lembrar o amor e aquecem ainda mais o
coração. Por estar viva. Por poder correr. Agarrei a minha estrelinha de cristal
azul e pensei que quando chegasse ao fim, me atiraria para o chão a chorar. Que
iria desfalecer de saudade e de angústia por não poder telefonar para um número
a dizer "Cheguei". Mas não. Nada disso aconteceu.
Entrei no estádio e recebi um saco com duas sanduíches, uma maçã, uma água, uma
t-shirt e uma medalha. Com a medalha ao pescoço, beijei os meus colegas e disse
apenas "Obrigada".
Voltei e telefonei ao meu filho. Agora é só a ele, mas sei que ela sorriu o
tempo todo.
"Cheguei".
"Boa, mãe. Quanto tempo?"
1 hora e 31 minutos.
Foram, sem dúvida os melhores tempos dos últimos tempos da minha vida.
Quando não imaginava ser possível...

X Milhas do Guadiana a lembrar X Motivos para viver...
A Vida. A Família. Os Amigos. O Céu. O Sol. O Mar. As Gaivotas. A Música. A
Corrida. A minha Estrelinha Azul.
ANA PAULA PINTO