Se bem me lembro, há uns tempos atrás, confessei
a minha “alergia” a corridas. Isto é, não sou rapaz para grandes correrias,
estou mais vocacionado para andamentos do género “tudo em paz do Senhor”. Mas,
lá diz o povinho e a sua sabedoria que “há sempre uma primeira vez para tudo”.
A oportunidade para fazer o meu baptismo em provas de atletismo surgiu (os
corta-mato dos tempos de escola não contam). “23 de Setembro de 2007”. Fixem bem
esta data, porque vai fazer parte da “istória” da espécie de orientista. Dia da
Meia Maratona Sportzone, no Porto, que por coincidência, oferecia também um
percurso “popular” de seis quilómetros, que se enquadrava na perfeição nas
minhas modestas capacidades físicas.
Esta iniciativa tinha um cariz especial, porque para além da competição, estava
associada a um objectivo de solidariedade social, dado que cada inscrição fazia
reverter cinquenta cêntimos para a Casa do Caminho, instituição de acolhimento
de crianças em perigo. Para completar, o trajecto era pela marginal do rio
Douro, que transformava a prova num excelente passeio turístico. Por insistência
da minha mulher, fui inscrito conjuntamente com mais cerca de 12.500 “almas”.
Cheguei bem cedo, quase madrugada (atitudes de maçarico), ao Jardim do Cálem,
onde estava instalada a meta e donde seriam disponibilizados autocarros para
transportar os atletas para a partida. Constatei de imediato que era mesmo
“muito cedo”, ainda se encontrava tudo meio ensonado, poucos atletas deambulavam
por ali e só as conversas dos motoristas dos autocarros, davam um pouco de
ambiente ao local. Situação passageira, num ápice, a zona foi inundada por uma
multidão, que lhe emprestou um movimento em tons laranja, cor das camisolas
oferecidas pela organização. Era hora de apanhar a minha “boleia” para a
partida.
Freixo, 8,50 hrs, 16º e um nevoeiro bem intenso (mal se via o rio), capaz de
arrefecer até aos ossos. Mas as adversidades climáticas, não são coisa que
preocupe malta oriunda da orientação. O tempo era o ideal para a minha primeira
experiência numa prova de atletismo. Comecei a ficar com “nervoso miudinho” e só
queria mesmo era correr. “Terei apanhado algum vírus? Eu nem gosto de correr!”.
Respirava-se atletismo por todos os poros e, de certeza, este ar que pairava,
entranhou-se bem fundo no meu aparelho respiratório. Olá se entrou!!!
A massa de atletas ia aumentando à medida que se aproximavam as 10,00 horas.
Jovens, menos jovens, crianças, bebés, um canídeo (o Jack) equipado a rigor com
o respectivo dorsal, famílias inteiras, uma imensa multidão onde pontificavam
alguns parceiros da orientação. Até o sol já dava um ar da sua graça. Esta prova
adequava-se às “mil maravilhas”, ao treininho dominical de preparação para
Sintra, próxima prova do nacional de Orientação. Entretanto iam-se tirando os
“bonecos” da praxe, para documentar esta visita ao “maravilhoso” mundo do
atletismo.
Tiro de partida!!! Só me apercebi, porque soou um gigantesco “bruá” e deu-se
início ao “com licença”, “faz favor”, “oh senhor, não empurre!”, “desculpe se o
pisei”, “não vi o Vítor Baía”, “chega-te para lá ao morcão”, alguns dos
argumentos para deslassar a amálgama humana e podermos finalmente “dar corda às
sapatilhas”. O meu objectivo era o de nunca parar (e que vontade me deu verter
uma “aguinha”), seguir o meu ritmo e chegar antes da armada queniana (hehe). Não
liguem! Também não ando assim tão mal. A minha previsão atirava para um tempo na
ordem dos 39/40 minutos.
Nos metros iniciais, limitei-me a tentar não ser atropelado, pelos velocistas
que tinham partido mais atrás, mas passando igualmente por muita e boa gente,
que só ia fazer o seu passeio matinal. Os primeiros dois quilómetros percorri-os
dentro do que tinha estipulado, mas a partir daí, não mais vi as placas
informativas (o suor atrapalhou-me a visão, hehe) e comecei a “perder o fio à
meada”. Depois do túnel da Ribeira, passei pela malta do GD4C (a orientação
prestando a sua colaboração), que estavam no controlo das barreiras e ponto de
água, o que me deu mais ânimo, pois nessa altura já estava a precisar de uma
motivação extra.
A partir da Alfândega, o corpo começou a pedir descanso, mas como tinha
idealizado fazer uma prova o mais séria possível (sou um atleta ou quê?), decidi
não fazer a vontade às pernas, a cabeça é que manda. E mandou que não se
pensasse mais no assunto, até porque estava perto do Museu do Carro Eléctrico,
seguir-se-ia a Arrábida e o Fluvial e pronto! Mentalização não faltava…
Próximo do museu, fui alcançado por um grupo de orientistas (estamos em todas)
do Estarreja (Amador, Casal e Manuela), que me serviu de referência e me deu
mais uma forcinha para ultrapassar as derradeiras fraquezas e entrar na fase de
passar os mais desgastados (a minha corrida nas calmas estava a surtir efeito).
Na rotunda antes da meta, surgiu um grito de incentivo, da sempre presente
Aurora Cunha – “Ninguém pára, só faltam 400 metros!” – Era o que eu necessitava
(deu cá uma “pica”) para aumentar ligeiramente de ritmo e terminar em pleno.
Fica para os anais, o distinto tempo de 41,22!!! (quem se rir leva…). E afinal
nem estava assim tão cansado.
Enquanto aguardava pelo grupo da minha mulher, a torrente humana não parava, o
que significava haver muitos milhares de “passeantes”, em condições bem piores
que as minhas. Claro que esta realidade fez levantar o moral do “espécie de
orientista”, após esta sua incursão ao mundo do atletismo. A experiência foi
bastante agradável, a prestação nem por isso, mas vai ficar a promessa, de que
mal haja nova oportunidade, voltarei.