Com o necessário distanciamento, regresso ao Porto e a Gaia, regresso à I Meia-Maratona Sportzone. À minha I Meia-Maratona Sportzone.
 

 


ANTES…

Viajo de carro para o Porto. Apanho o autocarro, posto pela Organização ao serviço dos participantes, e desembarco no Freixo. Venço, a pé, cerca de mil metros até à zona da partida. Gente, pouca; animação, nenhuma. Pelo menos por agora, quando os ponteiros do relógio caminham a passos largos para as nove.

Jorge Teixeira acaba de chegar. Aceno-lhe. Reconhece-me, corresponde com um gesto frouxo ao meu aceno, não me estende a mão. Fico desconcertado. Estamos a três metros um do outro. Eu a olhar para ele, tentando adivinhar o que lhe vai na cabeça. Ele fixando o vazio, numa “ausência” difícil de entender. Difícil ainda hoje.

Mãos atrás das costas, sigo lentamente ao longo da marginal, no sentido da Foz. Imponente, a Ponte do Freixo apenas se adivinha, envolta num denso manto de nevoeiro. Junto ao rio, o ar é morno. Enormes tainhas vislumbram-se junto às margens de preto e lama vestidas. Uma gaivota tenta “abocanhar” uma delas que, de barriga para o ar, jaz inerte, descendo o rio ao sabor da corrente. Ideias contraditórias entrechocam-se no mais profundo de mim. Que faço ali?

A chegada da Ana Pereira é providencial, colocando um ponto final no depressivo monólogo interior e dando lugar a um sereno diálogo, sobre tudo e sobre nada, simultaneamente aprendizagem e catarse. Damos um longuíssimo passeio, entregues à tagarelice, só entrecortada de quando em vez por um ou outro conhecido que nos saúda. Quando damos por ela faltam cinco minutos para o início da prova. Uns alongamentos “envergonhados” e logo o tiro de partida. A conversa agora é outra.

… DURANTE…


Saio, ainda e sempre, na companhia da Ana Pereira e agora, também, do Fonseca Santos, que descobrimos casualmente no cerne da multidão. O primeiro quilómetro é vencido ao sabor dos caprichos duma fila que se vai alongando rapidamente. Não há um corredor livre, custa a encontrar o ritmo, coordenar passada e respiração, obrigados que somos a constantes “slalons” para contornar grupos mais ou menos compactos, seguramente mais lentos.

A ferroviária ponte de S. João, a desactivada ponte D. Maria Pia, a novíssima ponte do Infante, a ponte D. Luiz I, com o seu tabuleiro superior adaptado para receber o Metro de superfície e o tabuleiro inferior hoje sem trânsito, recebendo esta imensa mole maioritariamente de laranja vestida. Não descortino a placa dos 3 kms… nem a dos 4 km… Fico baralhado mas, pelas minhas contas, vamos abaixo dos 5’30’’ por quilómetro. Partilho com a Ana e o Fonseca Santos as minhas “desconfianças”. O Fonseca Santos fala logo em “estoiro”, lembrando-se da recente experiência na Meia da Vasco da Gama. A Ana parece não estar também particularmente entusiasmada com a “performance”. Conto-lhes aquele episódio do filme do Kassowitz, “O ódio” (“La Haine”, 1995), quando um indivíduo se atira do alto dum prédio e, à medida que vai caindo, vai dizendo “até aqui, tudo bem; até aqui, tudo bem.” O resultado é contrário às minhas expectativas, eu a viver o momento presente, eles já com o pensamento no final da viagem (ou será “da queda”?).

Mas ali, em Gaia, viver o momento presente é um imperativo de ordem moral. O rufar dos bombos dos Mareantes do Rio Douro, a “correria” do Grupo de Andas de S. Félix da Marinha, aquele grupo que, correndo, vai cantando, afinado, “José Mourinho, José Mourinho, olé… José Mourinho…”, o enorme entusiasmo com que somos todos saudados pelos homens e mulheres – sobretudo, pelas mulheres! – da Afurada. E ainda aquela retribuição única e irrepetível que uma “equipa” de estudantes, auto-intitulada “Os Cansados”, prestou à assistência, na pessoa duma bela cicerone duma das muitas Caves de Vinho do Porto, mal pôs um pé fora de portas.

À vista da ponte da Arrábida, cruzamo-nos com os primeiros. O andamento é diabólico. Cumpriram já nove quilómetros com o relógio do carro-cronómetro a assinalar 25:56. “Vamos melhor que eles”, afirma o Fonseca Santos, apesar de tudo. Tenho a firme certeza que sim. Que prazer é que um atleta de alta competição retirará do que de bom uma prova pode ter? Da paisagem, por exemplo, desta paisagem que se abre na outro margem, deste “belo casario que se estende até ao mar”, desta Ribeira multifacetada, multicolorida, “cascata sanjoanina, erigida sobre um monte”?

Pouco após o retorno, na Afurada, deixo para trás a Ana e o Fonseca Santos. Estipulei duas horas para a minha prova e gostava de cumprir. Bem sei, bem sei… Duas horas é uma tragédia! Mas é o que se pode arranjar, “nesta altura do campeonato”. (E noutras alturas, também). Apanho a boleia do Moisés Peixeiro e falamos de Ovar, da Meia onde promete estar “se o joelho deixar”, da cultura de muito do nosso povo que ainda não vê com bons olhos isto de andar alguém “a perder tempo com corridas”. Quando volto a cruzar a ponte D. Luiz I penso com os meus botões: “Até aqui, tudo bem!”

… DURANTE (PARTE II)…


Do desgaste físico, começa a acercar-se agora o desgaste psicológico. Sigo sozinho, entregue a mim próprio. Um “velho amigo” recorda-me as fragilidades da minha coluna e instala-se na perna esquerda, retirando-lhe parte da acção. O movimento da corrida é quase mecânico, como se tivesse adormecido todo o membro. “Isto vai passar”, asseguro-me, baseado nas recorrentes experiências anteriores. Mas vai manter-se mais 200 metros, 500 metros, quatro quilómetros? E depois, irá voltar? Isto é terrível para o meu abalado ânimo. Isto e o retorno ao Freixo, um troço só animado “a páginas tantas” por um batalhão de pescadores que, com um olho na cana e outro na estrada, lá vai dando um “empurrão” e diminuindo a penosidade da minha Meia.

O retorno no Freixo lembra-me que estão cumpridos dois terços de prova. Agora, espera-me uma longa recta de sete quilómetros até ao Fluvial. Vou olhando para o cronómetro a cada quilómetro e percebendo que é ainda possível bater as duas horas. Mas não me posso descuidar. Rolo a 5’50’’ e tenho alguma margem de manobra, mas é imperioso não baixar dos 6 minutos por quilómetro.

O sol vai alto e sabem bem as sombras proporcionadas por uma ou outra árvore e pelas pontes, essas mesmas pontes por onde já passei e voltei a passar. À entrada do Túnel da Ribeira, numa tarja da Sportzone pode ler-se: “Aqui podes dar voz à tua emoção”. Imagino o que poderá ter sido o túnel repleto de gente há meia hora ou uma hora atrás, eu que sigo completamente sozinho. A agradável frescura do interior do túnel contrasta fortemente com um intenso odor a urina. É impressionante o cheiro nauseabundo no interior do túnel. Que vergonha, para tantos e tantas que se passeiam no coração dum centro classificado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade. E só penso no que terá redundado a gritaria daquela gente toda, perante tamanho desafio aos sentidos. Rui Rio bem tinha o dever de dar uma saltada cá abaixo, “de esfregona e líquedo berde” na mão.

Aos eflúveos “mortais” descritos anteriormente, segue-se um não menos “mortal” troço de irregular paralelo, que acabou de vez com os meus pobres e massacrados músculos. A partir daqui não há milagres. Qual verdugo, o cronómetro ali está para o confirmar. A parte final ainda contemplará uma passagem pela Via Panorâmica, o Rio Douro a correr mansamente sob os nossos pés, e por debaixo da Ponte da Arrábida, já com o Largo António Calem e a meta à vista. No final, medalha ao peito, um sorriso de orelha a orelha por ter conseguido superar mais uma prova e um tempo que, afinal, até nem está assim tão longe do preconizado: 2:01:13 de tempo oficial e um “tempo de chip” de 2:00:32.

... E DEPOIS

Assumo agora a minha segunda vertente e visto a pele de jornalista. Entrevisto alguns “atletas do pelotão”, falo com o Dr. Ricardo Lopes, da Sportzone, converso com o Jorge Teixeira. Aprecio, sobretudo, a sinceridade nas palavras do Dr. Ricardo Lopes. Vê-se que saboreia intensamente um momento muito bonito. E bem o merece. A prova, do meu ponto de vista, não tem reparos a apontar. Tem tudo para agradar a todos e é mesmo uma festa, como o deve ser qualquer prova de atletismo. Parabéns, pois, à Organização.

É tempo de regressar. Caminha para a uma da tarde mas a minha tarde, verdadeiramente, só agora vai começar. Sigo rumo ao Hospital onde uma tarde de trabalho me espera. No rádio do carro, os “Sitiados” parecem cantar-me assim: “Esta vida de enfermeiro, está a dar cabo de mim, pa, para, para, para, para, para, parim!”

Saudações atléticas.

JOAQUIM MARGARIDO