I Meia Maratona Sport Zone - a minha prova
Quando o autocarro se aproxima do local da partida, uma névoa misteriosa cobre o leito do rio, para se erguer lentamente e por fim se dissipar dando lugar a um sol radioso que abrilhanta o rio, as suas pontes e as suas margens. Dentro do autocarro, em silêncio seguem os atletas, apreensivos, concentrados no desempenho e resultado que querem ter. Sorrisos tímidos e silêncio favorecido pela barreira da língua. O sorriso, esse, é universal e eu não me fartei de o oferecer, sendo sempre correspondida.
Sozinha
sigo entre eles num lugar à janela. Muita gente já enche a rua, e de repente
avisto um sujeito lá fora, jovem ainda mas com ar quase que diria envelhecido,
caminhando sozinho calmamente à beira rio, de mãos atrás das costas, numa
atitude reflexiva que emanava uma reconfortante paz e serenidade, quiçá
aparente. É o meu amigo Joaquim Margarido!
Mal o autocarro pára, estão ainda a reunir os atletas potenciais vencedores, para lhes darem últimas instruções, já eu corro na peugada do Margarido. Apanho-o e aqueles minutos serenos com ele à beira do Douro, conversando e caminhando enquanto a névoa dava definitivamente lugar ao sol, fizeram-me muito bem!
Está quase na hora da partida e posicionamo-nos de acordo com o nosso nível atlético: bem lá atrás para não estorvar ninguém. Encontro o meu amigo Fonseca, que já muitas vezes me acompanhou em diversas provas. Pensamos seguir os três. O tiro é dado e dá-se início ao passeio. Sim, porque correr naquele percurso é um privilégio. As margens do Douro, o rio, as pontes, as pessoas, a cada passo éramos constantemente presenteados com belíssimos cenários. Como o Porto é uma cidade bonita, vista debaixo de suor e dos nossos passos encantados, procurando um fim, mas desejando que não chegasse.
O Margarido acaba por ir para a frente e sigo com o Fonseca, que me vai rebocando em momentos menos bons, porque os houve, de título e responsabilidade absolutamente pessoal.
Passar
a Ponte D.Luís, Vila Nova de Gaia, até à Afurada. Voltar. Passar de novo a mesma
ponte, voltar à do Freixo e retorno, para agora sim, corrermos para a meta,
sempre sem tirar os olhos e o coração do rio, esse leito que se oferece para
correr nele a água conduzindo-a ao mar, e hoje nas suas margens corremos nós,
conduzidos até onde quisermos ir, pois este rio leva-nos.
Vozes conhecidas no público. Prazer em rever e não parar pois o risco da impossibilidade de recomeçar é grande.
O corpo já não o sinto, e corro apenas com os olhos e com o coração. O corpo, simplesmente o atiro para a frente! Um passo, outro passo, sem perder o ritmo de corrida, por mais lenta que fosse. Os olhos no mar, como o rio que corre. E sem dar pelo tempo, cheguei lá. À meta, onde me colocam uma medalha ao peito. Soube bem!
Fiz 2h09m26s. Uma péssima marca, até para mim! Mas que importa isso? Sim, importa alguma coisa. Mas e o resto? Que me deu esta corrida fabulosa? Não, não o consigo colocar em palavras, que são demasiado frias e simples e cruas. Não, não consigo dizer o que sinto, mas de uma coisa tenho a certeza: Valeu a pena ter ido, valeu a pena ter corrido, e voltarei sem dúvida!
Ana Pereira
Setembro 2007